UNIYEHAKI
A ARTE DE SE TORNAR: REFLEXÕES DE UMA ARTISTA ARUKWAYENO
Tecendo Redes de Educação Intercultural
A Revista Pihhy fortalece sua parceria com o Curso de Licenciatura Intercultural Indígena (CLII) e o Mestrado Profissional em Estudos de Cultura e Política (PPCULT) da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), unindo forças para ampliar e consolidar redes de docentes indígenas comprometidos com a valorização dos saberes ancestrais e a construção de uma educação verdadeiramente intercultural.
Os trabalhos apresentados no âmbito do CCLL-UNIFAP e do PPCULT são fruto de ampla pesquisa e trabalho de docentes indígenas que atuam nas escolas indígenas do Amapá e norte do Pará.
O CLII teve início em 2007. Nesta longa e bonita trajetória, trabalha conjuntamente com povos do Oiapoque: Galibi-Marworno, Galibi Kali’nã, Karipuna e Palikur-Arukwayene, povos do Parque do Tumucumaque: Apalai, Waiana, Tiriyó e Kaxuyana e o povo Waiãpi, sendo espaço marcante para transformações importantes na região.
Essa colaboração é um passo essencial na luta por uma educação que respeita e promove as línguas, epistemologias e práticas pedagógicas dos povos originários.
Buscamos potencializar o protagonismo indígena na docência e na produção do conhecimento, criando espaços onde a educação seja ferramenta de transformação e resistência.
Ao lado da UNIFAP, a Revista Pihhy segue empenhada em fortalecer iniciativas que garantam uma formação intercultural sólida, promovendo diálogos entre tradição e contemporaneidade e reafirmando a importância da autonomia dos povos indígenas na construção de seus próprios caminhos educativos.
Juntos, seguimos semeando uma educação mais plural, justa e comprometida com a diversidade!
O livro Uniyehaki, a arte de se tornar: Reflexões de uma artista arukwayeno, de Keila Felício Iaparrá, fruto de sua pesquisa junto ao Curso de Licenciatura Intercultural Indígena da UNIFAP, é mais um resultado desta parceria.
Confira uma breve apresentação do resultado desta bonita e importante pesquisa…
“Desde a infância, eu me perguntava o que poderia ser além daquilo que via. Mesmo sem saber, já desenhava meu mundo. Cresci na aldeia Kumenê, no Rio Urukauá, aprendendo a nadar, a ir para a roça, a fazer beiju e farinha, enquanto ouvia histórias do meu avô sobre mundos invisíveis e seres encantados. Foi nesse ambiente que a arte começou a nascer em mim, mesmo que eu ainda não a reconhecesse como tal.
Meus primeiros desenhos eram rabiscos para aliviar a mente e a dor. Eu não desenhava para mostrar, mas para me esconder, para transformar sentimentos em traços. Os cadernos viravam espaço de fuga, de resistência silenciosa. Desenhar, para mim, era me curar.
A Universidade não foi um destino óbvio, mas um chamado. No Curso de Licenciatura Intercultural Indígena, encontrei espaço para pensar minha arte, minha identidade e minha língua.
Foi ali que compreendi o valor da interculturalidade, das narrativas do meu povo e da arte como caminho de afirmação.
No PET-Indígena, pude me ver como artista pesquisadora — e como alguém que pode inspirar outras mulheres Arukwayeno a se expressarem.
As narrativas que ouvi na infância voltaram como inspiração para minhas obras. A cobra grande, as mulheres guerreiras, a língua parikwaki — tudo isso passou a ganhar cor, forma e presença em minha arte digital e nas pinturas em tela.
Cada obra que crio é uma tentativa de recontar histórias com outro olhar, trazendo para o centro aquilo que sempre esteve à margem: a mulher indígena, com sua força silenciosa e sua presença firme.
Hoje, minha arte é meu território.
É onde posso ser quem sou sem me explicar. É onde escondo e mostro ao mesmo tempo. É onde a ancestralidade, o afeto e a memória se cruzam, se transformam e se tornam futuros possíveis.
Eu absorvo tudo e coloco na forma de tela, é a minha única forma de falar.
A arte é uma continuação, nunca termina. Não comecei a desenhar com a intenção de ser artista. Desenhava para me aliviar.
Rabiscava em silêncio, em momentos de raiva, tristeza ou solidão. Era o que eu podia fazer quando não havia palavras, quando a dor transbordava e não sabia para onde ir.
A arte é o irreal que se torna real.
Ela transforma cores invisíveis em vozes pintadas, muda o estereótipo da “índia” para Arukwayeno; da artista, para Keyla Palikur.
O que começou como fuga virou caminho. Foi um processo longo até compreender que meu modo de existir no mundo também era arte – mesmo quando torto, sensível, confuso.
Keyla Palikur é o nome que escolhi para abraçar as minhas raízes, para me afirmar como mulher indígena e artista, para ser a voz que Keila Felício Iaparrá ainda não sabia como usar.
Tornar-me essa pessoa exigiu coragem para aceitar o desconforto, as mudanças, as dúvidas.
Metamorfosear-se é isso: não se prender a uma única forma, mas permitir que as mudanças aconteçam, que os traços se refaçam, que as cores se recombinem.
Foi nesse movimento que comecei a me enxergar melhor, a entender que minha força também habita minha vulnerabilidade.
As narrativas são minha forma de me conectar com o tempo.
Elas carregam memórias de gerações passadas, falam do presente e imaginam o futuro. No meu trabalho, as mulheres ocupam o lugar que sempre lhes foi negado.
Eu nunca ouvi uma história em que uma Arukwayeno fosse protagonista. Por isso, criei. Criei guerreiras, protetoras, mulheres que conduzem os sonhos e sustentam o mundo.
Embora tenha nascido e crescido em uma cultura cheia de narrativas, nunca ouvi uma narrativa em que nós, Arukwayeno, estivéssemos no centro. Isso sempre me incomodou. Resolvi criar outras narrativas. Com as cores, com os traços, com a minha própria linguagem.
Não sei se o Tavara, essa constelação da nossa cultura, é homem ou mulher, mas no meu mundo é uma mulher. E se é uma mulher, não está encantando outra mulher; está protegendo. É essa força silenciosa que quero mostrar.
Quero que vejam que existimos, mesmo que antes ninguém tenha contado nossa história.
Também descobri o poder da palavra falada e da não falada. A língua é mais do que simplesmente palavras.
É a essência da nossa identidade, o fio condutor que nos liga às raízes profundas da nossa existência. Por muito tempo, me afastei do parikwaki para ser aceita no mundo fora da aldeia. Hoje, entendo o quanto essa língua me constitui, mesmo quando silenciosa.
Minha arte é o meu território.
Ela é onde posso esconder e mostrar ao mesmo tempo.
É onde as perguntas sem respostas moram.
É onde o passado dança com o presente e sonha o futuro.
Continuo me tornando.
E quero que outras mulheres Arukwayeno também possam se tornar.