História da Onça
Nadirene Karajá
O conto “História da onça”, de Nadirene Karajá, faz parte do projeto SURI, feliz em Nheengatu.
SURI tem relação e é inspirado na obra da incrível multiartista Desana, Bete Morais.
Trata-se da criação de um audiolivro no qual a relação entre gerações, entre avôs/avós e netos/netas é central para a transmissão de conhecimentos importantes para o bem viver.
Cada conto presente neste livro é uma homenagem aos avôs e avós de povos originários diversos, representando a beleza e importância da relação e dos conhecimentos acessados nela.
Tais narrativas apresentam por meio da perspectiva da neta/do neto, personagens, relações e elementos dos conhecimentos indígenas, vinculados a distintas e particulares matrizes epistemológicas.
Lá podemos apreender noções sobre o mundo, a natureza, as culturas, o parentesco, o respeito, relações interétnicas e a importância das epistemologias indígenas.
Temas como a relação com a natureza, a constituição de pessoas e os modos de vida voltados ao bem viver são centrais e fazem sentido a diferentes povos.
São histórias territorializadas, no sentido de que possuem como base o território vivido.
Trata-se de um audiolivro, ainda, escrito e contado em português, e se destina a crianças, jovens e adultos indígenas e não indígenas, estabelecendo vínculos interessantes sobre as populações e apresentando outras possibilidades possíveis de aprendizagem intercultural não acessadas em outras epistemologias, especialmente nas que possuem como base princípios da modernidade-colonialidade.
Não deixe de ler, escutar, sentir SURI!
"Sou Nadirene Narubia Karajá, do povo Iny. Moro na Ilha do Bananal e tenho 33 anos.
Meu conto vem da minha avó, do luberukaru Karajá.
Ela mora em Santa Isabel do morro na hawalo e fala em nossa língua indígena. Sou também de lá; nasci e cresci na Aldeia Santa Isabel.
Atualmente, moro na Aldeia Nova, aldeia itxeo, que fica no sul da ilha.
Essa aldeia é nova. Estou morando lá há dois anos, e trabalho como professora e educadora de língua indígena.
Vou contar um pouco da história da onça, que em minha língua é chamada de halòè.
O povo Karajá ainda tem medo da onça, pois essa história vem de muitos anos atrás, dos nossos antepassados, e ainda permanece viva.
Ela é contada para ha os filhos mais novos e para os netos. Ainda dá medo. Morrem de medo da versão da história, por ver a onça.
Por isso escolhi essa história para poder contar, compartilhar.
Dizem que uma senhora idosa costumava ir buscar lenha. Ainda hoje há esse costume de buscar lenha no mato para cozinhar. A comida é feita com lenha.
Nisso, essa senhora decidiu ir pegar lenha no mato.
Ela saiu da aldeia em busca de lenha para fazer sua comida. No caminho, no meio da estrada, ela se encontrou com uma onça grávida.
Antigamente, o povo conversava com os animais!
Havia contato com alguns animais.
Então, quando se encontraram, a onça veio chorando, prestes a dar à luz, e pediu ajuda à senhora para o parto.
A senhora aceitou ajudar. Ela ajudou no parto da onça, e tudo ocorreu bem, graças a Deus.
A onça agradeceu à senhora e, ao se despedirem, ofereceu, em troca da ajuda, seu filhote.
A senhora não recusou, pois era uma forma de agradecimento.
Ela levou o filhote de onça para a aldeia e cuidou dele como se fosse uma criança, como se fosse seu filho.
Fez até uma esteira específica para o filhote, usada para sentar, comer e contar histórias.
Com o tempo, a onça cresceu e se tornou adulta.
Ela não gostava de visitas; ficava com raiva quando alguém visitava a senhora, querendo até devorar as pessoas.
A filha da senhora disse à mãe que não seria ideal manter a onça na aldeia, pois poderia acabar devorando o povo Iny. Sugeriu que a devolvesse ao mato.
A senhora levou-a para um lugar bem distante da aldeia.
Ao chegar, falou para a onça que a havia criado com muito amor e que agora a estava devolvendo à natureza. Pediu para que não atacasse os Iny, pois havia sido criada por um deles e deveria ter respeito.
Disse que a onça só deveria se mostrar quando houvesse um sinal ruim, como a morte de alguém da família.
Nesse caso, a onça apareceria magra, deitada no chão. Se a pessoa morresse de forma repentina, a onça apareceria gorda, saudável.
Até hoje, o povo Iny acredita nisso. Por isso, muitas pessoas não se encontram facilmente com onças na mata.
Elas não atacam facilmente. Nunca ouvi falar de alguém sendo atacado ou devorado por uma onça.
Ainda acreditam nisso e têm medo de ver a onça.
Ano passado, inclusive, uma onça se mostrou para uma família, e a mulher morreu repentinamente. A onça estava saudável, gorda, e a pessoa morreu assim também. A família acredita muito nisso.
Eu queria compartilhar essa história com vocês.
Por isso, por aqui não se fala muito da onça: que viu a onça ou que brigou com ela. Não há muitas histórias assim.
Essa é a minha história, um pouquinho da história da onça com o povo Iny, que foi criada pelo povo.
Obrigada. Awire!