Epistemologias indígenas, instituições e democracia: a escuta de outros mundos
Na terceira parte da entrevista, Naine Terena, artista, comunicadora, educadora e idealizadora do projeto PIHHY, compartilha uma análise crítica e profunda sobre os limites e tensões no modo como as instituições — sejam elas acadêmicas, culturais, educativas ou políticas — se relacionam com os saberes e práticas tradicionais indígenas.
Para Naine, a presença indígena nas instituições brasileiras ainda ocorre de forma muito restrita e, muitas vezes, simbólica. “Há uma tentativa de incluir, mas sem transformar.
As instituições, em geral, não sabem — ou não querem — escutar outras formas de pensar o mundo”, afirma. Ela alerta para o risco de reduzir a diversidade epistemológica à performance da diversidade, sem real deslocamento das estruturas de poder e sem a abertura necessária para outras racionalidades, cosmologias e formas de saber-fazer.
Essa reflexão se ancora em sua trajetória como uma das principais vozes indígenas no campo da arte contemporânea brasileira, uma área que, como lembra Naine, também enfrenta dificuldades para romper com seus próprios paradigmas coloniais. Em seus trabalhos, ela tensiona os modos como a arte e a comunicação podem — ou não — ser instrumentos de transformação social, principalmente quando não partem de uma escuta real dos povos originários. Para ela, arte e educação são territórios de disputa, mas também de possibilidade.
"Fala-se muito em inclusão, mas incluir para quê? Para manter o mesmo sistema operando com mais alguns rostos diferentes? Ou para abrir o sistema, para reconfigurar o que ele entende por saber, por verdade, por beleza, por humanidade?" — questiona.
Naine defende que uma verdadeira democracia requer o reconhecimento da pluralidade epistêmica do país.
Não se trata de um gesto de concessão, mas de justiça. “A democracia só se realiza plenamente quando os muitos mundos que habitam este território são reconhecidos em sua autonomia, seus valores e suas formas próprias de construir conhecimento”, conclui.
Ao reafirmar esse compromisso com a diversidade de mundos e de saberes, Naine Terena se consolida como uma referência incontornável no debate contemporâneo sobre arte, democracia e educação no Brasil, convidando-nos a escutar o que tem sido sistematicamente silenciado — e, sobretudo, a repensar as bases do que chamamos de instituições, de cultura e de nação.