HISTÓRIAS ORIGINÁRIAS:
CONTRA NARRATIVAS DA HISTÓRIA ANTI INDÍGENA
Não ao Marco Temporal!
Autores e autoras indígenas têm desempenhado um papel fundamental na construção de uma história que reflita suas próprias perspectivas, experiências e formas de conhecimento.
Movimentos contemporâneos de produção intelectual indígena vêm desafiando a historiografia tradicional, predominantemente eurocêntrica, e reivindicando um espaço de autoria e narrativa sobre seus territórios, comunidades e o próprio país.
Essa produção se caracteriza como uma contranarrativa, pois questiona a versão hegemônica da história, que frequentemente marginalizou ou silenciou as vozes indígenas, reduzindo-as a meros objetos de estudo ou retratando-as a partir da ótica dos colonizadores.
Em vez disso, os historiadores e escritores indígenas mostram que a história não é única nem definitiva, mas um campo em constante disputa, no qual diferentes grupos sociais reivindicam a legitimidade de suas memórias e interpretações.
Ao narrar a história desde dentro, os autores indígenas atualizam conhecimentos tradicionais, modos de organização social e concepções próprias de tempo e território, frequentemente ausentes ou distorcidos na historiografia oficial.
Além disso, evidenciam como a escrita da história sempre se deu em relações de poder – seja na imposição de versões colonialistas, seja na exclusão sistemática das epistemologias indígenas dos espaços acadêmicos e institucionais.
A valorização dessa produção intelectual fortalece não apenas a pluralidade de perspectivas históricas, mas também os processos de resistência e afirmação dos povos indígenas.
Seus escritos não apenas recuperam memórias e trajetórias comunitárias, mas também servem como instrumentos de luta política, ao reivindicarem autonomia, reconhecimento e a desconstrução de mitos coloniais que ainda persistem no imaginário nacional.
Evidenciam, mais uma vez, por exemplo, como a absurda, violenta e inconstitucional afirmação do Marco Temporal nada mais é do que mais uma tentativa colonial de imposição da versão da história de grupos historicamente anti-indígenas e predadores do planeta.
Ao trazerem sua voz para o centro do debate histórico, os autores indígenas demonstram que a história do Brasil não pode ser contada de forma unilateral!
É preciso abrir espaço para múltiplas narrativas, compreendendo que a escrita da história é também um ato de poder e que sua reconfiguração é fundamental para a construção de um país mais diverso, justo e consciente de suas múltiplas raízes.
A Revista Pihhy apoia a problematização da historiografia oficial e hegemônica!
A revista semente é contra o marco temporal!
Junte-se a nós e publique a história de seu povo e do Brasil por meio da perspectiva originária.
Leia e sinta a seguir trecho do livro a ser publicado no âmbito da revista do intelectual e professor Ezequiel Potiguara.
Neste trecho, Tatáguasu problematiza e identifica falas distorcidas em estudos clássicos sobre seu povo, os quais buscam sempre diminuir a potência e agência Potiguara.
Reescrever a historiografia é lutar por justiça!
“O tupi antigo é a língua original do povo Potiguara, foi proibida e substituída pela coroa portuguesa através do decreto feito pelo Marquês de Pombal, Sebastião José de Carvalho e Melo, em 17 de agosto de 1758, quando instituiu e oficializou o português como língua oficial do Brasil, proibindo o ensino do tupi em todo país.
Até então, o tupi era a língua falada em todo território nacional, desde os colonos até os nativos, ambos se comunicavam nesta língua geral.
Os maiores propagadores do tupi entre os europeus foram os jesuítas, o que foi visto por Pombal como uma desobediência às ordens da coroa, e por divergirem dos interesses de Portugal, os jesuítas foram expulsos definitivamente do Brasil em 1759.Assim, levou fim, ou melhor, a uma quase extinção da língua dos naturais e verdadeiros brasileiros que aqui viviam.
Muito embora diversos autores, antropólogos não-indígenas e autoridades de órgãos indigenistas afirmarem que os Potiguara não falavam mais seu idioma no fim do século passado, tais como os relatórios do Serviço de Proteção ao Índio (SPI), de 1920, escrito por Alípio Bandeira, dizendo que 'perderam de todo a linguagem dos antepassados', ou sendo mais radical como o fez Dagoberto Castro e Silva, ao escrever em 1923, relatando não ter encontrado um ameríndio que conseguisse falar uma palavra sequer em tupi antigo:
'Não encontrei um só desses indígenas, mesmo entre os mais antigos e abalizados, que conhecesse sequer uma palavra do dialeto falado outrora pelos Potiguara' [...] (Monnen, Maia, 2008, p. 189).
Afirmações como essas, criminosas, preconceituosas e repletas de ideias eurocêntricas acerca dos nativos foram e são os meios de ofuscar os direitos dos indígenas ao seu território.
Se não possui sua língua e nem sua cultura, já não são mais indígenas.
Foi e é nesse patamar que os brancos sempre colocaram os Potiguara, como “ex-indígenas”, povo sem cultura própria, causando assim uma dissociação daquilo que eles realmente são: donos da terra.
A respeito das atrocidades praticadas e apoiadas pelo antigo SPI, elas foram denunciadas às claras pelo Relatório Figueiredo.
A respeito da língua dos Potiguara, ela não foi extinta de repente em 1758, perdurou por algum certo tempo, que é desconhecido.
Um idioma não desaparece do dia para noite, ele vai sofrendo mudanças ao longo do tempo, na medida que o sujeito vai optando por migrar a outro idioma.
Há relatos, por exemplo, do discurso de José Augusto da Silva, em 1981, no seminário sobre os Direitos Históricos dos Índios em São Paulo, apontando as diversas calamidades praticadas pelo Governo do Estado e também pela FUNAI, ratificando que professores da antiga organização, o SPI, foram responsáveis pela quase extinção do seu idioma.
Sobre esse relato, registrou Almeida (1988, p. 87):
José Augusto da Silva – indígena Potiguara. Representou a nação no Seminário Sobre os Direitos Históricos dos Índios, realizado em São Paulo no período de 26 a 29 de abril de 1981.
Acusou o governo da Paraíba e a FUNAI de promoverem a divisão dos Potiguaras.
Contou sobre uma viagem que fez ao Rio de Janeiro a fim de verificar a situação de trabalho de Potiguaras empregados num estaleiro da Ilha do Governador. Disse que não gostou.
Por fim, falou da língua quase desaparecida que era falada por seus ancestrais, acusando os professores do antigo SPI (“Índios heróis do Brasil”).
Outro relato de um ancião Potiguara, natural e residente da aldeia São Francisco, conhecido por Seu Tonhô.
Ele fala em entrevista concedida a um grupo de professores Potiguara de língua tupi, no dia 26 de fevereiro de 2023, sobre um acontecimento que ocorreu com seu avô e também com o seu pai, que possivelmente deve ter ocorrido em meados de 1910 a 1920, aproximadamente:
No tempo do meu pai, tempo do professor Chaves e Mané de Araújo, os dois primeiros professores que vieram para aquele colégio lá de baixo, esses home, papai dizia que ele sofreu muito com três caroços de miiu debaixo do jueio, de jueio, para que ele acabasse com essa fala nojenta.
“Vocês estão com a fala feia, essa fala nojenta; vocês têm que aprender a falar da gente! Por que você fala uma coisa dessa?”
Aí, papai dizia “a fala do nosso povo era essa (...), mas você tem que acabar com isso!”
Aí botava de castigo lá num quarto com três caroços de miiu no jueio de castigo para aprender.
Quem acabou com o idioma da gente foi o próprio SPI, aí a Funai foi que quando chegou estava puxado para resgatar as falas que a gente tinha que aprender, mas a turma já tinha esquecido, né?
Muitos não queriam mais falar, foi isso aí.
Depois que a FUNAI tomou conta, ela queria reavivar novamente, mas aí foi a gente que não queria saber mais disso.
(Entrevista com Seu Tonhô, gravada em fevereiro de 2023. Tupi Potiguara Kuapa” Araujo, Romildo José).