Guerreiros da Educação
A minha história de vida
Angagu Lua Kuikuro
Nesta edição, a seção Guerreiros da Educação apresenta histórias vivas de luta, coragem e sabedoria protagonizadas por professores e professoras indígenas que decidiram trilhar o caminho da formação acadêmica sem abandonar suas raízes, seus territórios e seus modos de vida tradicionais.
São homens e mulheres que saem de suas aldeias carregando a força de seus povos, enfrentando desafios profundos para garantir o direito à educação indígena, à memória coletiva e à continuidade dos saberes ancestrais.
Esses guerreiros e guerreiras da educação migram para outros mundos — muitas vezes hostis — onde prevalecem a exclusão, o racismo e a violência simbólica.
Sofrem preconceito e discriminação, mas não se deixam calar. Ao contrário: enfrentam, resistem e aprendem, com firmeza e generosidade, para retornar ainda mais fortes às suas comunidades.
Ao adentrar os espaços da universidade, constroem pontes entre diferentes formas de conhecimento e reafirmam que o saber indígena não é passado, é presente e é potência de futuro.
Estes educadores e educadoras não caminham sozinhos.
Como sempre dizem: nunca estamos sós, somos o comunitário!
Cada passo dado fora do território é guiado pelos ensinamentos dos mais velhos, pela espiritualidade e pela responsabilidade coletiva.
Ao conquistar diplomas, não buscam prestígio individual, mas sim ferramentas para proteger suas línguas, suas cosmologias, seus territórios e para garantir que as crianças e jovens indígenas possam crescer com orgulho de sua história.
Além disso, articulam redes de aliados e instituições comprometidas com a justiça e a interculturalidade, fortalecendo a luta contemporânea por direitos — como a demarcação das terras, a educação diferenciada, o acesso à saúde e à cultura — sem jamais romper com a tradição.
Em cada fala, em cada sala de aula, em cada mobilização, estão os cantos dos encantados, os conselhos dos mais velhos, os sonhos coletivos de autonomia e dignidade.
A Revista Pihhy tem a honra de dar visibilidade a essas trajetórias inspiradoras, que nos ensinam que a educação, quando enraizada na ancestralidade e movida pelo coletivo, é um ato profundo de resistência e amor.
A minha história de vida
Angagu Lua Kuikuro
Meu nome é Angagu Lua Kuikuro. Sou dos povos Kuikuro e Kalapalo.
Meu pai é do povo Kalapalo, minha mãe é do povo Kuikuro, assim como meu avô.
Meus avôs se chamavam Nahum Kuikuro e Iguka Kalapalo. Minhas avós: Sesuaka Mehinako e Tühajaka Kalapalo.
Nasci no dia 25/07/1994, na aldeia Ipatse Kuikuro, localizada no Território Indígena do Xingu, município de Gaúcha do Norte, no estado de Mato Grosso.
Na minha infância, não existia escola. Só brincávamos com nossas brincadeiras tradicionais, como esconde-esconde, brincar com madeira, com arco e flecha.
Também não usávamos roupas e participávamos de todas as atividades: roçadas, pescarias, caçadas, entre outras.
Quando eu tinha 10 anos, comecei a frequentar a escola na própria aldeia. Eu não sabia escrever nada. Apenas acompanhava as aulas e, às vezes, até fugia da sala.
No ano de 2004, meu pai, criou uma nova aldeia chamada Kaluani-Paraiso. Lá, hoje, vivem apenas famílias enlutadas.
Foi dessa aldeia que fui escolhido, em 2014, para participar do curso de Magistério Intercultural Indígena, no polo Leonardo Vilas Boas.
Tive muita dificuldade para entender a linguagem dos não indígenas. Deixei minha família e sofri muito durante o tempo de estudo.
Levamos cinco anos para concluir. Nesse tempo, aprendi bastante e comecei a trabalhar como professor, dando aulas para as crianças da minha comunidade.
No ano passado, 2023, me inscrevi para o curso de Licenciatura em Educação Intercultural Indígena, aqui no Núcleo Takinahaky de Formação Superior Indígena, em Goiânia, e fui aprovado.
Hoje estou muito feliz por estar aqui.
Trago comigo a lembrança do meu avô, Nahum Kuikuro, que foi o primeiro da nossa família, no Alto Xingu, a falar português.
É por ele e por todos os nossos que estou estudando, buscando novos conhecimentos para realizar meu sonho: ser pesquisador da nossa própria cultura e defender nossos direitos.
Antes, nossos ancestrais defendiam com arco e flecha. Hoje, nós, os jovens, também defendemos com o papel.
Muito obrigado!
Aingo Hegei
Angagu Lua Kuikuro