GRAFISMOS, OUTRAS LINGUAGENS, OUTRAS POTENCIALIDADES
Autores: Josemar e Valdineia Xacriabá
Curador: Gilson Tenywaawi Tapirapé
A seção “Grafismos e Outras Linguagens” compõe a Revista Pihhy, uma revista indígena comprometida com a afirmação de saberes, experiências e produções intelectuais, estéticas e políticas dos povos originários.
Esta seção tem como objetivo valorizar, visibilizar e refletir sobre a potência dos grafismos indígenas em sua pluralidade de formas, sentidos e funções.
Longe de se limitarem à concepção ocidental de arte como representação estética ou expressão individual, os grafismos indígenas constituem dinâmicas sociais vivas, profundamente ligadas à saúde, à proteção espiritual, à organização social, à memória coletiva e ao fortalecimento dos territórios.
Para muitos povos indígenas, os grafismos não são apenas desenhos ou ornamentos: são forças ativas que operam sobre o corpo e sobre o mundo. Cada traço carrega conhecimentos ancestrais, relações com o cosmos e códigos que estruturam pertencimentos familiares, rituais, identidades de clã e modos próprios de existência. São marcas que expressam vínculos com a terra, com as águas, com os encantados e com as narrativas que sustentam a vida em comunidade.
Além disso, os grafismos se articulam com outras linguagens — como o canto, a cerâmica, a tecelagem, a arquitetura, a corporalidade e a oralidade — compondo sistemas complexos de conhecimento e expressão que resistem e recriam mundos, mesmo frente às violências do colonialismo e às tentativas de apagamento.
“Grafismos e Outras Linguagens” é, portanto, um espaço para que os próprios artistas, pensadores e praticantes indígenas compartilhem suas visões, experiências e criações em torno dos grafismos, desafiando concepções limitadas de arte e afirmando modos próprios de saber, fazer e viver. Aqui, reconhecemos o grafismo como linguagem viva, como política de existência e como território em movimento.
Povo Xakriabá
Para nós, povo Xakriabá, a pintura corporal tem um significado muito importante.
Os Xakriabá vivem principalmente na região norte de Minas Gerais, no município de São João das Missões, em um território oficialmente demarcado como Terra Indígena Xakriabá. Esse território, embora legalizado, é considerado insuficiente frente à demanda histórica e ao crescimento da população.
Além de trazer proteção, ela também nos conecta espiritualmente com a Mãe Terra, com a Mãe Natureza e com nossos ancestrais.
É por isso que, quando perdemos um membro da família — dependendo do grau de parentesco — ficamos sem nos pintar por um determinado tempo.
As pinturas corporais que fazemos para os movimentos culturais dentro das aldeias, ou quando saímos da aldeia para reivindicar nossos direitos, são sempre decididas de forma coletiva.
Antes de começarmos a pintura, tanto a pessoa que vai pintar quanto a que vai receber a pintura precisam passar por uma preparação.
Essa preparação é feita para atrair uma energia positiva que fortalece a pessoa não só fisicamente, mas também espiritualmente, para que ela não passe mal durante o processo de pintura.
Precisamos estar preparados desde o início até o fim do movimento do qual vamos participar. Essa energia positiva que adquirimos durante a preparação nos fortalece tanto dentro quanto fora do território — não só quem vai participar do movimento, mas também aqueles que ficam em nossa terra, enviando uma vibração boa e positiva para que tudo aconteça da melhor forma.
Pintura: Tronco das Árvores
Essa é uma pintura masculina, utilizada apenas pelos homens nos movimentos culturais, tanto dentro quanto fora da aldeia.
Todas as pinturas corporais têm um significado muito importante para o nosso povo. Além de trazer proteção, elas também nos conectam com a Mãe Terra, com a Mãe Natureza e com os nossos encantados, fortalecendo-nos espiritualmente.
Também utilizamos outras pinturas, como, por exemplo, a pintura do clã, que é usada tanto por homens quanto por mulheres. Essa pintura é feita com toa (jenipapo), urucum, leite de tiborna e algodão.
No caso desta pintura masculina, utilizamos apenas o genipapo. No entanto, em outras pinturas, usamos tanto o urucum quanto o genipapo.
Quando estamos de luto, não podemos utilizar a pintura com urucum, mas podemos usar a pintura com o toa.
A pintura com genipapo significa luto, enquanto o urucum representa o sangue. Os nossos sábios dizem que, quando quebramos essa regra, corremos o risco de chamar mais parentes da família para o luto.
Pintura corporal: Caminho das Águas
A pintura corporal Caminho das Águas é utilizada exclusivamente pelas mulheres nos movimentos culturais, tanto dentro do território quanto fora dele.
Cada pintura corporal tem um significado importante para o nosso povo.
Essa pintura, além de ser usada no corpo, também é aplicada em tecidos, para que as mulheres possam vestir. Por exemplo, quando uma mulher perde um parente próximo e não pode utilizar a pintura no corpo por estar de luto, ela pode vestir roupas com o grafismo do nosso povo. Isso também representa nossa identidade e nossa presença por onde passamos.
A pintura Caminho das Águas traz uma forte conexão com a natureza e com as águas. Ela transmite calmaria e fortalece a resistência das mulheres Xakriabá na luta.
Para essa pintura, utilizamos o jenipapo e também o urucum. Há outras pinturas em que utilizamos a tiborna, o algodão e o toa, que é a pintura do clã.