COMO FAZER UM CORPO SAUDÁVEL
WAUJA/WAURA
O povo indígena Wauja vive no território indígena do Alto Xingu, Mato Grosso, no Brasil. Falamos língua do tronco linguístico Aruwak.
Nos alimentamos de vários peixes, caças, de alguns insetos que existem na nossa região.
Nossos antepassados do povo Wauja mantêm a saúde por meio da espiritualidade da ancestralidade.
Os jovens passam pela “arranhação” e ficam na reclusão para se tornarem rapazes e serem campeões da luta Huka-huka.
Nossos antepassados usavam a medicina tradicional que tem o espírito da natureza, para acelerar crescimento e formar o corpo.
Pode usar a medicina para arranhar, para ficar forte.
Figura 01, fotos: Asariku Yamayawa Waura, peixes e caças na aldeia Piyulaga, Xingu Mato Grosso Brasil.
O peixe é um alimento muito importante para o povo Wauja!
A gente faz pescaria para sustentar nossas famílias, para cozinhar pirão de peixe, a gente assa peixe, faz moqueado para comer nos dias seguintes, até acabar. A pescaria individual ou comunitária segue sempre.
O povo Wauja faz pescaria todo dia.
Na época da seca temos facilidade de pegar muitos peixes.
Na época da chuva fica muito complicado pegar os peixes, o rio enche e fica tudo alagado. Mesmo assim pegamos poucos peixes, através de algumas frutas que existem na margem do rio. Quando estas frutas amadurecem, os peixes as consomem, e aproveitamos para pegá-los.
O peixe é um alimento saudável do nosso povo.
Quando as crianças nascem, entretanto, o pai e a mãe não podem comer peixes, comem apenas algumas caças. Passam de 3 a 4 meses sem comer peixe, e ficam no resguardo seguindo as regras culturais, até que chega o fim da “descamação de sangue”.
Depois não podem se alimentar de todos os peixes, só daqueles peixes que não fazem mal às crianças, como peixes pequenos: tucunaré e outros, seguindo as regras da ancestralidade do seu povo para o bebê ficar bem saudável, até crescer.
Se o pai e a mãe comem aqueles peixes que não são permitidos culturalmente, prejudicam a saúde e corpo do seu bebê. Não pode comer peixes mais perigosos para a crianças até 6 ou 7 anos.
O pai não pode também roçar, construir casa, não pode confeccionar cestaria, abanador, construir banco para sentar, limpar a roça, carregar peso, tocar óleo-de-copaíba, tocar urucum e nem mesmo fazer arco e flecha.
Tudo isso para seguir as regras e respeitar a saúde do corpo do bebê.
Isso é fundamental para a saúde do bebê!
Os jovens também não podem comer todo peixe.
Alguns não são permitidos porque enfraquecem nas lutas de Huka-huka. O corpo pode se prejudicar, pode prejudicar a saúde e o espírito.
É melhor seguir as regras de alimentação e de remédio, para passar no corpo. Se você não respeita as regras, você vai passar mal. Pode ficar aleijado até passar a outro processo que recupera o corpo da pessoa.
Na reclusão o rapaz respeita muito as normas da alimentação e das medicinais tradicionais. Os pais também vão ficar de resguardo, junto com seu filho. Em algum período os pais não podem namorar.
Se os pais não seguem no resguardo, o espírito vai fazer mal para o filho, e acaba complicando a reclusão do rapaz.
Somente as avós podem preparar os remédios de ervas para o neto, porque elas não têm cheiro, e preparam comidas como beiju e mingau de mandioca. Tem muitas comidas não autorizadas, principalmente bereba doce, pimentas e outras mais.
As crianças também não podem comer peixe cará vermelho (Kujama), porque se comerem, sangra o nariz, quando brincam, não podem comer cascudo, não podem comer cabeça do peixe, não podem comer beiju, aquele durinho.
Somente as idosas podem comer qualquer peixe, ave, inseto, como gafanhotos e qualquer alimentação tradicional.
Atualmente a alimentação não indígena está entrando muito na aldeia o que afeta a saúde e o bem-estar na comunidade.
A mudança alimentar avançou na aldeia, e as crianças, jovens e adultos consomem muito alimentação industrializada, que se torna a comida principal dentro da aldeia. Isto traz muitos problemas de saúde para a comunidade.
Há muitas pessoas que apresentam diabete, colesterol alto, pressão alta, pedras no rim, anemia, diarreia e entre outras doenças. Essas doenças prejudicam a saúde das pessoas dentro da aldeia. Não existiam antes, a saúde das pessoas era boa, todo mundo trabalhava duro na roça, porque não se alimentavam de alimentos industrializados.
Atualmente temos problemas com alimentos industrializado, que vêm da cidade.
Além disso, hoje em dia tem muitas pessoas que trabalham na área de educação, na área de saúde e há aposentadoria na aldeia. Esses funcionários compram e trazem para aldeia açúcar, biscoito, biscoito recheado, balinha, café, leite, refrigerante, bolo, sorvete, geladinha, pão doce, arroz, feijão, macarrão, sardinha, extrato de tomate. Esses alimentos estão sendo consumidos muito na aldeia hoje em dia.
Os jovens não entram mais na fase de reclusão, porque quando você vai para reclusão você não pode se alimentar de doces, pois os espíritos não gostam. Se comer, eles fazem mal em você.
Por causa dos alimentos industrializados alguns jovens não têm interesse em seguir a regra da ancestralidade do seu povo.
Meu povo continua consumindo alimentos ancestrais como peixes, como macaco, mutum, jacutinga, jacu, bombo e a tracajá. Atualmente as duas alimentações estão sendo consumidas na aldeia: alimentos típicos e alimento industrializado.
Hoje em dia o meu povo vive dessa forma na aldeia. Essa é a maior preocupação dentro da aldeia.
Nota: A Revista Pihhy respeita características e maneiras próprias de escrita e expressão dos(as) autores(as).