CANTAR, CELEBRAR, PARTILHAR E VIVER
Lançamento do áudio livro Zegar Hàir Hà'àgaw, do músico, professor e liderança Davi Guajajara
O mestre cantor, sua formação acadêmica e comunitária e a reciprocidade do povo Guajajara
Davi Gomes Guajajara é considerado um jovem mestre por ganhar reconhecimento como cantor de cantos tradicionais do seu povo ainda com pouca idade, enquanto outros mestres só alcançaram esse reconhecimento na maturidade.
Apesar de também tocar violão, compor e cantar outros gêneros musicais, ele vivenciou um intenso processo formativo nos rituais Tentehar e tem uma vida dedicada ao aprendizado e à prática dos cantos rituais.
Como ele mesmo costuma dizer, tornou-se um jovem Tamuiz, ou um jovem ancião. Hoje, já reconhecido como mestre cantor, está apto e autorizado a conduzir rituais ou compartilhar com mestres mais experientes essa tarefa, aproveitando todas as ocasiões para aprimorar o seu ofício.
Na sociedade Guajajara, os cantores possuem uma função fundamental. Sem cantores, não há festa cultural, não há celebração, não há conexão com o sagrado e com o sobrenatural. Não há proteção.
Por meio dos cantos, os espíritos são chamados para as celebrações rituais e, com cantos, pede-se autorização para realizar qualquer ação que envolva as árvores, os rios, as serras, os morros, os lagos, as plantas medicinais, o preparo da terra para o cultivo dos alimentos, o plantar e o colher.
Os cantos curam, apaziguam, protegem e dão força às pessoas que precisam enfrentar situações difíceis ou algum perigo.
Assim, os cantos estão articulados a todo o sistema de conhecimentos tradicionais que forma as pessoas Tentehar e as orienta em condutas adequadas ao seu bem viver.
Acompanhados pelo maracá, os cantos rituais Guajajara/Tentehar permitem acesso ao plano sagrado: quando se toca o maracá e se inicia um canto na abertura de um ritual ou de uma festa cultural, como as comunidades costumam chamar, as pessoas se transportam do plano terreno ao sagrado.
E o sagrado não admite desavenças, intrigas, ofensas, egoísmos ou individualismos.
Viver em coletividade, compartilhar e praticar a generosidade, o amor e o respeito ao outro tornam-se mais importantes do que êxitos, interesses e ganhos individuais.
A iniciação nos cantos faz parte do processo formativo de todos os meninos Guajajara desde a infância.
Esse aprendizado se intensifica com a entrada na adolescência e com a participação nos rituais, que só é permitida àqueles que aprendem a cantar.
Nem todos se tornam cantores especializados e poucos se tornam mestres, mas todos aprendem o suficiente para participar dos rituais, acompanhando os cantores mais experientes.
Apenas os mais talentosos e dedicados, por meio da participação contínua nos rituais e da orientação de mestres experientes, tornam-se novos mestres aptos a conduzir não apenas as celebrações, mas também a formação de novas gerações de cantores, garantindo a continuidade das práticas rituais, a transmissão dos conhecimentos e a reafirmação dos princípios culturais do povo Tentehar.
Como em qualquer outra sociedade, os rituais Tentehar são cíclicos, atualizam e reforçam valores sociais e comunitários, e formam as pessoas.
Os Guajajara realizam diversos rituais tradicionais, sendo os mais conhecidos a Festa da Menina Moça e a Festa dos Rapazes. Também celebram a primeira comida sólida da criança, a Festa do Mel e a Festa do Milho, entre outras.
Davi adquiriu formação geral nos cantos rituais, mas escolheu os cantos da Festa do Mel como tema contextual de seus estágios docentes e para a elaboração do seu projeto extraescolar, trabalhos exigidos no curso de licenciatura em Educação Intercultural, da Universidade Federal de Goiás, em sua formação como professor-pesquisador.
O trabalho que ele publica agora é fruto desse processo de formação em pesquisa e docência, em diálogo intercultural com os conhecimentos adquiridos em sua formação familiar e comunitária.
Por vários anos, acompanhei na UFG, a formação de Davi Guajajara, que também atua como professor da educação básica em sua aldeia e em comunidades vizinhas.
Aprendi que a docência escolar e universitária não ocupa, para ele, um lugar mais importante do que seus compromissos e obrigações rituais.
Atendendo às muitas demandas que recebe diariamente, especialmente em períodos de calendários rituais, Davi está sempre em deslocamento — de carro, bicicleta ou na garupa de uma moto — entre aldeias e comunidades para colaborar na realização dos rituais.
A maioria dos cantos rituais é realizada por um grupo de cantores, sempre conduzidos por um mestre ou cantor experiente.
É a essa atividade que Davi dedica a maior parte do seu tempo e de seus esforços, transitando entre aldeias e exercitando a reciprocidade própria dos rituais, das celebrações e dos sistemas comunitários.
Um mestre cantor jamais recusa um convite para conduzir os cantos, pois, sem ele, os rituais não acontecem.
Seu ofício é uma atividade social, coletiva e uma obrigação comunitária.
Foram essas experiências, em interlocução com sua formação acadêmica, que gestaram este trabalho.
Creio que o convite para prefaciar o texto, agora publicado em coleção da Revista PIHHY, se deu por minha participação em seu processo formativo, como uma de suas professoras-orientadoras, e pelos diálogos interculturais construídos entre sistemas epistêmicos distintos.
Posso afirmar que, nesse processo, aprendi mais do que ensinei.
Fui mais orientada do que orientei e mais formada do que formei.
Em uma intensa interlocução com as comunidades, com os sábios e outros mestres Tentehar, chegamos a um produto final que é fruto de um trabalho colaborativo e de práticas de interaprendizagem.
Rosani Moreira Leitão