O ritual do wýhtý constitui um dos fundamentos centrais da vida social, educativa e espiritual do povo Krahô. Trata-se de um ritual profundamente respeitado, que envolve o corte de cabelos, a pintura corporal, a preparação e a corrida de toras grandes e pequenas, além da organização coletiva em dois partidos que se alternam e competem: Kyjcatêjê, ligado ao lado nascente, e Harãhcatêjê, ligado ao lado poente. Todo o coletivo participa desse processo, o que fortalece a cultura viva na comunidade e reafirma os princípios de pertencimento, cooperação e respeito às normas tradicionais.
No contexto atual, entretanto, observa-se que parte dos jovens e adolescentes tem se afastado dessas práticas, influenciados por outras referências culturais que não dialogam com suas crenças e modos próprios de existência. Diante disso, a escola assume um papel fundamental como espaço de articulação entre os saberes tradicionais e os processos educativos formais. A proposta pedagógica aqui apresentada parte justamente do deslocamento da sala de aula para o campo, levando estudantes do sexto ano do ensino fundamental à terceira série do ensino médio a vivenciarem, na prática, os conhecimentos do wýhtý.
No campo, os alunos aprendem como se dá a escolha e o corte das toras, compreendendo que não se trata de qualquer madeira, mas de espécies específicas, conhecidas pelos sábios da comunidade. Aprendem a identificar as toras encontradas na mata (crow teteti) e aquelas localizadas nas veredas (crow káhprêcre), reconhecendo quais são mais adequadas para o ritual do wýhtý e quais são utilizadas nas corridas cotidianas da tarde. Esse aprendizado prático permite que os estudantes compreendam os processos de preparação das toras, seus tamanhos e funções conforme as etapas do ritual.
A dimensão estética e corporal do wýhtý também é central nesse processo educativo. Por meio de pesquisas realizadas junto aos anciãos e anciãs, como Maria Tereza Jõhpro, os alunos aprendem sobre as pinturas corporais e os materiais utilizados, como o pau-de-leite (arámhôc), o jenipapo (prôtti) e o leite da mesca branca (rám). Conhecem os diferentes grafismos e seus significados, como tehti (jatobá), ihhôc to me ihcokjê (pintura da menina virgem), pát jarahpê (tamanduá-bandeira) e rõprjre ká na me ihhôc (pintura associada à recuperação da saúde após o parto), além das pinturas próprias dos partidos Harãhcatêjê e Kyjcatêjê.
Outro eixo fundamental do wýhtý é a presença simbólica e performática dos animais, especialmente a onça e o peixe elétrico (pyp). Os conhecimentos associados a esses seres, suas funções, características e horários de atuação no ritual, vêm sendo pouco transmitidos às novas gerações. Estudar essas imitações, compreender quem pode realizá-las, quais materiais são utilizados e qual o sentido de cada movimento constitui uma pedagogia própria do povo Krahô, baseada na observação, na prática e na convivência comunitária. Ao acompanhar essas performances, as crianças aprendem com os pais, os anciãos e os especialistas, fortalecendo a transmissão intergeracional dos saberes.
O wýhtý possui um ciclo longo de vida, iniciando quando a criança ainda é pequena e culminando por volta dos 16 ou 17 anos, quando ocorre sua finalização ritual. Nesse percurso, as toras acompanham o crescimento da menina ou do menino, começando pequenas e tornando-se grandes na etapa final. A tora da menina, chamada wýhtý jõpí, é buscada em locais distantes da aldeia, entre 25 e 30 quilômetros, apenas por corredores preparados dos dois partidos. A corrida dessa tora é um dos momentos mais significativos do ritual, pois simboliza resistência, disciplina, respeito às regras e compromisso coletivo.
A musicalidade do wýhtý atravessa todo esse processo. Os cantos organizam os tempos do ritual, os deslocamentos no kri cape, as danças em círculo no pátio e as atividades que acontecem pela manhã, à tarde, à noite e na madrugada. Os alunos aprendem dois grandes conjuntos musicais: Increr Caprin (músicas lentas) e Increr Juphê (músicas rápidas), compreendendo seus ritmos, letras, gestos, horários e contextos adequados de execução. Cantores e cantoras experientes, como Osmar Cucon, Celina Xakri, Raimundo Zezinho Pohpré e outros mestres, são convidados para ensinar diretamente aos estudantes, explicando as histórias de origem das cantigas, como a do Cupéhti, e orientando a prática correta dos cantos.
Ao longo das aulas e vivências, os estudantes participam das danças, escutam as músicas nos diferentes momentos do dia e da noite, produzem textos, desenhos, registros em áudio e vídeo, e realizam apresentações para a comunidade. Esse processo contribui não apenas para o aprendizado dos conteúdos culturais, mas também para o fortalecimento da leitura, da escrita, da oralidade e da identidade coletiva.
Diante do risco de enfraquecimento dessas práticas, a proposta pedagógica busca registrar, vivenciar e fortalecer os conhecimentos do wýhtý, reconhecendo-o como uma forma própria de educação, baseada no respeito, na disciplina, na coletividade e na relação profunda com a natureza e com os ancestrais. Ensinar o wýhtý às crianças e aos adolescentes é garantir que os saberes, os cantos, os grafismos e os movimentos continuem vivos, sendo transmitidos às próximas gerações com o acompanhamento dos sábios da comunidade.
Músicas do bem-te-vi (Xêrêrêre increr)
1ª
wý hã wý, wý hã wý hã
Muxêr rêrê hê muxã mu,
Muxêr rêrê mãxã mu hiro
More wý hã wý, wý hã wý hã.
2ª
Hõcô híhí jum muri caçar ráre
xá tem mé mã mã, hoje hoje,
hôje hoje jumuri caçar ráre xá
tém mé mã mã.
3ª
Hupu kre to cýjý hýre he,
He hupu kre to cýjý hýre
Xwý xwý hýre wata há, ha
Hôma ta jumu hõ cýjý hýre.
4ª
Ruwa to têre, ruwa to têre
mã xá te côt tôtê japy nãrê hê,
hê hê ruwa to têre ruwa to têre
Mã xá te côt totê japy nãrê hê hê.
5ª
Hã rõrõ hõre côhô kãm
Mãri hi caráre pykrã hãre
Xané, hã rõrõ hõre côhô kãm
6ª
Ha wari hire côhô kãm mãri hipê
krôre pykrã hãre xane, há wari
hire côhô kãm mãri hipê krôre mãri hi caráre pykrã hãre xane.
Pykrã hãre xane.
7ª
Mãhi catut ture tô méhé gõ
Côja mire jôpajê jõcô mã gõ
Côja mire, jôpajê jõ cô mã gõ
Côja mire mãhi.
8ª
Hipý pým myre hêja hêja, hêja
hipý pým myre, cumu tumure mã
tumure mã, cumu tumure mã
Hõcô cati mã hipý pým myre.
9ª
Hirôrôc côre hêja hêja
Hirôrôc core, cukryt tyre mã
Cukryt tyre mã, cukryt tyre
Hõcô cati mã hirôrôc core.
10ª
Pýmã jakare pýhý mã jakare to
ho cwý hý hý, hý pýmã pýmã jakare,
mã xãc cu xãc cure mã, pýmã jakare
Mã xãc cu xãc cure mã pýmã jakare.
11ª
Iprý caprêc quêre xá há,
Iprý caprêc quêre xá haha
Hê mã kre jakare nã hã wa,
Iprý caprêc quêre xá hý.
12ª
Cumu xêhô nã apu pra, cumu xêhô
nã apu pra, huxêp pure mã, huxêp
pure mã, huxêp pure mã cumu
Xêhô nã apu pra.
13ª
Hô herere he, hôhô herere he,
hô herere he mã roni krã
caxá xác cáre mã wajõ cô kãm,
mã harê po herere he.
14ª
Hô herere he, hôhô herere
he, hô herere he mã hajô míí caxá
xác cáre mã wajõ cô kãm mã hapy
Po herere he.
15ª
Hari wahê riwahê hêri
Wahê, hari wahê mã hác cá
To krã jaka hapê rêpêt têri
Wahê, hari wahê mã hác ca
To ho krã jaka hapê rêpêt têri.
16ª
Cýhý rumupê hãhê hê, hê
mã krã jacratê pa huxá, cýhý
rumupê hãhê hê, mãhi cacô hô
hô, hô rumupê hãhê hê, hê mã
Krã jacratê pa huxá.
17ª
Krétire nã wa êcoco ho,
Krétire nã wa êcoco ho, curu
Wati prar rênõ krétire nã wa
Êcoco ho, curu prar rê nõ
18ª
Pry pi capôn ni kãm mã hý,
atõ ri caprêc quere xá há, há xá
mã atõ ri caprêc quere xá haha,
há xá pry pi capôn ni kãm mã hý
19
Xà pá jawêni kãm mã hã
atõri caprêc quêre xá, mã há
tõri caprêc quere xá há há, ha
mã há tõri caprêc quere xá há,
Há há
20
Juni jaka hõcô kujate
juni jaka hõcô kujate, juque
quere quere, juque quere quere
juque quere quere.