“Vocês só me enxergam se eu estiver de cocar?”
por Ana Maria Kariri - Curadora da Revista Pihhy
Eu sou Ana Maria Cariri.
Sou liderança indígena Kiriri, da Paraíba, vivendo em contexto urbano no Rio de Janeiro e na cidade de São Paulo.
Neste ano, durante o Acampamento Terra Livre, aconteceu um episódio de violência. Nossa parente Célia foi atingida nos olhos com spray de pimenta.
Ela estava com sua comitiva, e os seguranças não permitiram que entrasse.
Em meio ao desespero daquele momento, uma das perguntas que ela fez foi exatamente esta:
“Vocês só me enxergam se eu estiver de cocar?”
Essa pergunta ficou na minha cabeça por muito tempo.
Porque, na cidade, isso é algo corriqueiro para nós: as pessoas não nos enxergam sem o cocar.
Para estarmos em determinados lugares — para que as pessoas nos reconheçam como indígenas — em plenárias, galerias de arte, espaços onde somos convidados, escolas, quase sempre nos pedem que estejamos de cocar, com saias de palha, grafismos, vestidos e adereços.
Quando nos apresentamos sem o cocar, às vezes sem as nossas joias, a pergunta surge:
“Você é indígena de verdade?”
Essa reflexão, a partir do que aconteceu com a Célia — parente Xacriabá — também nos atravessa profundamente, especialmente a nós que vivemos na cidade.
Existe essa exigência constante de que estejamos sempre de cocar para provar que somos indígenas.
Mas nós não precisamos estar com cocar o tempo todo.
Até porque o cocar é sagrado.
No meu povo, ele é confeccionado em um período específico, no tempo do licuri.
Em várias etnias, os cocares são feitos em tempos próprios, no tempo novo, no tempo da colheita, sempre com muito respeito ancestral e espiritualidade.
Os nossos cocares são feitos para os rituais, para nos sentirmos protegidos em momentos sagrados.
Eventualmente, na cidade, nós os usamos em alguns espaços para os quais somos convidados. Mas queremos ir a esses lugares do jeito que quisermos: com cocar ou sem cocar.
Eu quero ser vista na cidade sendo quem eu sou: indígena Cariri da Paraíba, representando os povos do Nordeste, que geralmente usam cocares de palha. Mas também quero estar nesses lugares sem o cocar, porque eu não deixo de ser quem eu sou por isso.
Assim como as mais de 305 etnias que estão nas cidades e nas aldeias, nós não deixamos de ser indígenas porque não estamos com nossas vestimentas tradicionais. O cocar continua sendo sagrado, independentemente de estarmos na cidade ou na aldeia.
Estamos em todos os lugares e de todas as formas.
Somos mulheres, anciãs, guerreiros, crianças. Estamos também na cidade. Moramos em casas, em apartamentos, e muitos de nós vivem nas favelas e nas comunidades.
E não deixamos de ser quem somos.
Estamos de chinelo e bermuda no Sudeste, usamos casaco no frio, porque ainda há quem pergunte se vivemos pelados dentro da aldeia.
Como se os povos indígenas do Sul, por exemplo, pudessem viver sem roupa em regiões frias.
Desconstruir esses estereótipos é fundamental.
Desconstruir o fenótipo da mulher indígena sexualizada, a imagem congelada do indígena como peça de museu.
São muitos temas que nos atravessam e nos fazem refletir diariamente.
Na cidade, não deixamos de ser quem somos. Não deixamos de ser indígenas porque estamos na cidade, na comunidade ou na favela. Queremos usar nosso cocar sagrado quando realmente fizer sentido, quando for necessário.
Nós não vamos deixar de ser quem somos só porque não estamos usando cocar ou qualquer outra vestimenta que nos transforme em acervo de museu.
Até os museus estão mudando: muitos hoje se entendem como museus vivos, em processo de desconstrução. As academias também precisam ser desconstruídas.
É assim que queremos que vocês nos vejam: como indígenas que estão na cidade ou na aldeia, vestindo do jeito que quisermos, sendo quem somos.
Nota da Revista Pihhy
População Indígena Urbana no Brasil (IBGE, Censo 2022)
Os dados mais recentes do Censo Demográfico 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que a maior parte da população indígena no Brasil vive atualmente em áreas urbanas.
Pela primeira vez, os números revelam que mais de metade da população indígena brasileira reside em cidades, invertendo o padrão demográfico observado nas décadas anteriores.
Segundo o levantamento, em 2022 havia aproximadamente 1.694.836 pessoas indígenas no Brasil, representando cerca de 0,83% da população total do país.
Esse deslocamento urbano representa um aumento de mais de 181% na população indígena urbana em comparação com 2010, quando apenas 36,22% dos indígenas viviam em cidades.
Em número absoluto, isso significa um crescimento de 589.912 pessoas indígenas vivendo na zona urbana ao longo de 12 anos.
O crescimento da população indígena em áreas urbanas não se deve apenas ao movimento migratório entre rural e urbano, mas também às melhorias metodológicas adotadas pelo IBGE no Censo de 2022, que ampliaram a capacidade de identificar e registrar indígenas, inclusive em ambientes urbanos.
Os dados revelam profundas dinâmicas de diversidade e distribuição territorial: estados como Goiás, Rio de Janeiro e o Distrito Federal apresentaram os maiores percentuais de indígenas vivendo em áreas urbanas.
Em contraste, estados como Mato Grosso, Maranhão e Tocantins mantiveram maior proporção de indígenas em zonas rurais.
No entanto, a presença indígena nas cidades não elimina desafios estruturais.
As populações indígenas urbanas enfrentam desigualdades no acesso a serviços básicos, como saneamento e infraestrutura, quando comparadas à média da população urbana brasileira — um aspecto que reflete assimetrias socioeconômicas profundas, mesmo entre povos indígenas que deixaram ou transitam entre territórios tradicionais e centros urbanos.
Esses dados demográficos — inéditos em sua abrangência — ajudam a comprometer políticas públicas, educação, saúde e habitação, pois reconhecem que os povos indígenas não estão confinados às terras tradicionalmente demarcadas, mas presentes em todas as regiões e grandes centros urbanos do país.
Esse panorama exige abordagens que considerem as necessidades específicas das populações indígenas em contextos urbanos, sem perder de vista suas identidades, línguas, culturas e direitos coletivos.