Sustentabilidade Tentehar
Robson Guajajara
Ao refletir sobre as pluriepistemologias e as críticas às dicotomias ocidentais, compreendo que as epistemologias indígenas valorizam a existência de múltiplas formas de conhecimento, reconhecenda-as como válidas e legítimas, em pé de igualdade com a epistemologia ocidental e a ciência moderna.
"A terra não se negocia"
O termo pluri significa muitos, enquanto epistemologia refere-se à teoria do conhecimento, isto é, aos modos pelos quais o conhecimento é produzido, validado e transmitido.
Falar em epistemologias indígenas implica reconhecer que os povos indígenas possuem formas próprias de conhecer o mundo, complexas, sofisticadas e profundas, que não são inferiores à ciência ocidental, mas simplesmente diferentes.
Na cosmovisão indígena, temos clareza de que nosso conhecimento não é inferior.
Pelo contrário, trata-se de um saber milenar, herdado de nossos ancestrais, transmitido de geração em geração e fortalecido, até hoje, na prática cotidiana.
A ancestralidade permanece viva e ativa, sendo fonte de nossa força coletiva. Não existem saberes inferiores, existem saberes distintos, que dialogam entre si.
Nesse sentido, a fala de Sônia Guajajara, liderança indígena brasileira e atual ministra dos Povos Indígenas, expressa de forma contundente essa compreensão.
Ao afirmar que “a terra não se negocia, a terra não se vende; a terra se cuida e se protege. Mãe não se vende”, ela reafirma a luta dos povos indígenas pela proteção de seus territórios e pela valorização da terra como um ente vivo, sagrado e essencial à existência, comparável a uma mãe que gera e sustenta a vida.
A terra não é uma mercadoria passível de compra ou venda!
Esses discursos são frequentemente proferidos em espaços institucionais, como o Congresso Nacional, em manifestações públicas, conferências internacionais e eventos relacionados às pautas indígena e ambiental.
A força dessa frase se intensifica, sobretudo, em momentos de enfrentamento a propostas legislativas que ameaçam os direitos territoriais dos povos indígenas.
Sustentabilidade
Outro pensador fundamental para essa reflexão é Davi Kopenawa, que utiliza o conceito de Xawara para explicar os impactos das mercadorias, da extração predatória e da expansão global do capitalismo.
Para ele, o chamado “povo da mercadoria” e o capitalismo predatório são agentes ativos dessa doença, representando uma ameaça não apenas à saúde dos povos indígenas, mas também ao equilíbrio da Terra e da floresta, podendo levar, inclusive, à “queda do céu”, em uma perspectiva cosmológica.
Na visão do meu povo, a Xawara é compreendida como um espírito que paira tanto sobre o subsolo quanto sobre a vida das pessoas.
Quando alguém é tomado por esse espírito, passa a valorizar excessivamente a mercadoria, o acúmulo e a exploração.
Esse modo de pensar estabelece uma falsa hierarquia, como se os povos indígenas não tivessem capacidade de compreender o mundo ocidental. No entanto, para nós, esse espírito é justamente aquilo que desequilibra a Terra e a floresta, destruindo-as de forma lenta e contínua.
Por fim, ao responder à questão sobre sustentabilidade, afirmo que os povos indígenas a compreendem profundamente, porque vivem a conexão entre natureza e cultura de maneira integrada e respeitosa.
Para nós, a natureza não é um recurso a ser explorado, mas um ser vivo com o qual nos relacionamos. Animais, rios, florestas e montanhas são tratados como parentes, espíritos ou entidades sagradas.
Sabemos quando plantar, quando colher, quando caçar e quando parar, respeitando o tempo da natureza e assegurando que ela continue viva para as próximas gerações.
Esse cuidado é transmitido de geração em geração, dentro da hierarquia do nosso povo, e é isso que nos permite manter o equilíbrio entre vida, território e ancestralidade até os dias de hoje.