Psicologia das Florestas: uma proposta teórica indígena Kaingang em diálogo crítico com a antropologia histórica
Rejane Kanhgág
Escrevo este artigo a partir de uma autoria indígena Kaingang, situada no território, na memória coletiva e nos modos próprios de cuidado do meu povo.
A Psicologia das Florestas emerge desse lugar como eixo central de reflexão sobre subjetividade, sofrimento e saúde, afirmando a floresta não como cenário, recurso natural ou metáfora, mas como sujeito de relação e fundamento da vida psíquica. Ao assumir esse ponto de partida, este trabalho se posiciona criticamente frente aos limites da psicologia moderna, historicamente marcada por pressupostos individualizantes, universalizantes e antropocêntricos.
A inspiração dessa proposta encontra-se nos fundamentos desenvolvidos em Kanhgág êg my há, onde a psicologia é pensada para além da interioridade individual, articulando território, espiritualidade, memória e coletividade (KANHGÁG, 2020).
Nesse horizonte, a vida psíquica não se restringe ao indivíduo isolado, mas se produz nas relações contínuas com a terra, com a floresta, com os ancestrais, com os espíritos e com a comunidade. O sofrimento, por sua vez, não é compreendido apenas como desordem interna, mas como expressão de rupturas históricas, territoriais e cosmológicas produzidas pela colonização.
O diálogo com a antropologia aparece neste artigo como interlocução crítica e secundária, não como fundamento epistemológico. Autores que questionaram categorias centrais do pensamento moderno como cultura, natureza, identidade e diferença contribuíram para abrir espaço à inteligibilidade de outros modos de existência.
Contudo, sustento que a Psicologia das Florestas não deriva dessas teorias, mas se afirma como produção indígena de conhecimento, elaborada a partir do território e da floresta, tensionando tanto a psicologia quanto a antropologia.
Psicologia das Florestas e crítica à psicologia moderna
A psicologia moderna consolidou-se, ao longo do século XX, a partir de uma concepção de sujeito individual, interiorizado e separado do mundo. Mesmo em suas vertentes críticas, persiste frequentemente a tendência de localizar o sofrimento prioritariamente no indivíduo ou em suas relações imediatas.
Para os povos indígenas, essa concepção revela-se profundamente insuficiente, pois desconsidera a centralidade do território, da espiritualidade e das relações cosmológicas na produção da vida psíquica.
A Psicologia das Florestas propõe um deslocamento radical desse modelo ao compreender a subjetividade como relacional, histórica e territorializada. No pensamento Kaingang, a pessoa não se constitui de forma isolada, mas nas relações com a terra e com a floresta, que não são externas à vida humana, mas parte constitutiva dela.
O corpo, a mente e o espírito não são dimensões separáveis, mas aspectos interligados de um mesmo processo vital.
Assim, o sofrimento não pode ser compreendido sem considerar os processos de expropriação territorial, violência colonial e ruptura dos modos próprios de cuidado (KANHGÁG, 2020).
Essa perspectiva distingue a Psicologia das Florestas de abordagens como a psicologia ambiental ou a psicologia comunitária. Não se trata de analisar a relação indivíduo–ambiente a partir de categorias ocidentais, mas de reconhecer que o território é condição de existência do corpo, da subjetividade e da espiritualidade.
A Psicologia das Florestas reorganiza, portanto, o próprio campo psicológico a partir de saberes indígenas, questionando suas bases epistemológicas e éticas.
Território, floresta e território-corpo
Na cosmologia Kaingang, o território não se reduz a uma delimitação jurídica ou administrativa. Ele é vivido como território-corpo, território-memória e território-espírito, constituindo a base relacional da vida. A Psicologia das Florestas parte dessa compreensão para afirmar que a produção da subjetividade e da saúde não ocorre de forma dissociada da terra, da floresta e das relações cosmológicas que sustentam a existência coletiva.
Mesmo os parentes indígenas que se encontram fora das terras indígenas em contextos urbanos ou em deslocamentos forçados seguem necessitando de cuidado espiritual, corporal e coletivo.
A saída do território de origem não implica a suspensão da relação com a terra, mas a necessidade de buscar formas de recomposição do equilíbrio da vida psíquica e espiritual. Muitos parentes, diante do adoecimento, do cansaço espiritual ou do enfraquecimento do corpo, buscam o reencontro com territórios indígenas ou com outros parentes, ainda que esses territórios não sejam os de sua origem.
Esses deslocamentos constituem práticas de cuidado, nas quais colocar os pés no chão, tocar a terra, comer comidas típicas, tomar banho de rio, caminhar na floresta e compartilhar a palavra com os parentes operam como formas concretas de fortalecimento do corpo, da mente e do espírito.
Essas práticas não são simbólicas no sentido metafórico, mas tecnologias indígenas de cuidado, historicamente produzidas e transmitidas entre gerações (KANHGÁG, 2020).
Colonialidade, marcadores da diferença e conhecimento situado
Assumir a Psicologia das Florestas como produção indígena implica reconhecer que todo conhecimento é situado.
Strathern (2009) evidencia que não existe neutralidade na produção teórica e que as categorias analíticas refletem posições históricas e relações de poder. A escrita em primeira pessoa situada, neste artigo, não constitui recurso literário, mas posicionamento epistemológico.
Os marcadores sociais da diferença aprofundam essa análise. Ortner (1979) demonstra como gênero e natureza foram associados simbolicamente no pensamento ocidental, enquanto Pinho (2019) evidencia como a raça estrutura hierarquias no campo do conhecimento antropológico brasileiro. Para os povos indígenas, esses marcadores articulam-se à colonialidade, intensificando processos de exclusão, silenciamento e adoecimento.
Antropologia histórica, territorialização e sofrimento indígena Kaingang
A antropologia histórica contribui para compreender o sofrimento indígena como processo de longa duração. Quintero e Maréchal (2020) demonstram que os processos de territorialização impostos aos Kaingang no Alto Uruguai não foram apenas operações administrativas, mas dispositivos centrais de um projeto colonial/moderno que produziu efeitos profundos sobre os corpos, as subjetividades e as cosmologias indígenas.
A expropriação territorial implicou também uma despossessão cosmológica, rompendo relações com a floresta, com os rios e com os seres espirituais que sustentam a vida. Pacheco de Oliveira e Quintero (2020) ressaltam que compreender os povos indígenas como sujeitos históricos é condição para interpretar as demandas contemporâneas por território, saúde e reconhecimento.
A Psicologia das Florestas dialoga diretamente com essa abordagem ao compreender a saúde mental indígena como inseparável da memória histórica, das trajetórias de deslocamento forçado e das estratégias de resistência.
Ontologias indígenas e floresta como fundamento da vida psíquica
As discussões sobre ontologias indígenas contribuem para tornar inteligível, no campo acadêmico, a compreensão da floresta como sujeito de relação. Viveiros de Castro (2006) e Lima (1999) questionam a dicotomia natureza/cultura ao evidenciar modos de existência nos quais humanos e não humanos compartilham agência.
A Psicologia das Florestas dialoga com essas reflexões, mas não depende delas para existir. Trata-se de uma formulação teórica indígena que antecede e excede a validação antropológica, afirmando a floresta como fundamento ontológico da vida psíquica.
Implicações para a psicologia, a saúde e as políticas públicas
A Psicologia das Florestas propõe práticas de cuidado territorializadas, coletivas e espirituais, rompendo com modelos clínicos individualizantes. Reconhecer o território como base da saúde implica articular políticas de atenção psicossocial com a defesa dos direitos territoriais, compreendendo que a destruição ambiental, o confinamento territorial e o deslocamento forçado produzem adoecimento coletivo.
Essa abordagem exige transformações na formação em psicologia, no SUS e nas políticas públicas, reconhecendo os saberes indígenas como produtores legítimos de conhecimento e cuidado.
Considerações finais
A Psicologia das Florestas constitui-se como uma proposta teórica indígena Kaingang que desloca os fundamentos da psicologia moderna ao afirmar a subjetividade como relacional, territorializada e histórica. Ao colocar a floresta no centro da reflexão, evidencia que não há saúde possível onde há destruição do território.
Ao assumir a autoria indígena situada, afirmo que povos indígenas não são apenas objetos de estudo, mas produtores de teoria.
Em um contexto de crise ambiental e persistência da colonialidade, a Psicologia das Florestas oferece caminhos éticos, políticos e epistemológicos para repensar as ciências humanas a partir da floresta como horizonte de vida.
A ampliação deste debate permite reafirmar que a Psicologia das Florestas não se apresenta como uma variação cultural da psicologia ocidental, tampouco como um campo aplicado subordinado às teorias já consagradas. Trata-se de uma proposta teórica autônoma, formulada a partir de epistemologias indígenas, que tensiona diretamente os pressupostos individualizantes, universalizantes e antropocêntricos da psicologia moderna. Ao recolocar o território, a floresta e a espiritualidade como dimensões constitutivas da vida psíquica, essa abordagem redefine o próprio significado de saúde, cuidado e sofrimento.
As articulações realizadas ao longo do artigo com a antropologia crítica e com a antropologia histórica dos povos indígenas reforçam que os processos de adoecimento indígena não podem ser compreendidos fora das dinâmicas coloniais de territorialização, expropriação e controle.
A Psicologia das Florestas contribui para esse debate ao evidenciar que a perda do território não representa apenas uma privação material, mas uma ruptura profunda das relações cosmológicas que sustentam o equilíbrio do corpo, da mente e do espírito. Nesse sentido, a defesa da terra e da floresta constitui, simultaneamente, uma ação política e uma prática fundamental de cuidado em saúde.
Ao reconhecer que mesmo parentes indígenas que vivem fora das terras indígenas seguem necessitando de saúde espiritual e territorial, a Psicologia das Florestas amplia a compreensão contemporânea de território. O território não se restringe a limites jurídicos ou administrativos, mas se manifesta no território-corpo, nas práticas de circulação, no reencontro com parentes, no contato com a terra, com os rios e com a floresta. Essas experiências, frequentemente desconsideradas pelas políticas públicas e pelos modelos biomédicos, revelam modos próprios de recomposição da vida psíquica diante das violências históricas e atuais.
Do ponto de vista das políticas públicas, este artigo sustenta que não é possível pensar a saúde indígena sem a garantia das condições territoriais para a reprodução da vida. A Psicologia das Florestas aponta para a necessidade de políticas de saúde que reconheçam os saberes indígenas como produtores legítimos de conhecimento e que articulem cuidado psicológico, defesa do território e fortalecimento das relações comunitárias. Isso implica deslocar práticas assistencialistas e tutelares, abrindo espaço para a autodeterminação dos povos indígenas nos processos de cuidado.
Por fim, ao propor a Psicologia das Florestas como eixo central de reflexão, este trabalho afirma que os povos indígenas não apenas resistem à colonialidade, mas produzem teoria, ética e política a partir da floresta viva. Em tempos de crise ambiental global, essa proposta não se dirige apenas aos povos indígenas, mas interpela as ciências humanas e a sociedade como um todo, convidando à construção de outros modos de existir, cuidar e pensar a vida em relação.
Referências
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