PESQUISA INDÍGENA
Zaqueu Tseredzawê Tsõro’rada
No meu entendimento, antigamente os nossos ancestrais guardavam o conhecimento principalmente na memória, ao longo de muitos anos, e o transmitiam de geração em geração por meio da oralidade, da prática cotidiana e da convivência coletiva.
Esse conhecimento ancestral sempre esteve vivo nas histórias, nos rituais, nas festas, no trabalho na roça, na caça, na pesca e nas relações profundas com o território.
Ele segue vivo, mas às vezes passa a ser esquecido. Temos que acordá-lo!
Hoje, a nova geração continua portando esse conhecimento, mas vive também outra realidade, marcada pela presença de diferentes formas de saber.
Convivem, ao mesmo tempo, os conhecimentos guardados na memória — herdados dos mais velhos — e os conhecimentos atuais, de caráter intercultural, que envolvem novas tecnologias, como celular, notebook e internet, além de materiais escolares como caneta, lápis, borracha e caderno.
Essas formas de conhecimento não são opostas. Ao contrário, precisam dialogar e se fortalecer mutuamente.
Nesse processo, é fundamental valorizar os conceitos presentes na língua indígena, pois muitas palavras e expressões carregam sentidos profundos que não existem em português.
A tradução, muitas vezes, retira, empobrece ou distorce os significados originais, rompendo a relação entre palavra, território, espiritualidade e prática social.
Por isso, a língua materna não é apenas um meio de comunicação, mas um sistema de pensamento, uma forma própria de compreender o mundo.
Dialogo aqui com as reflexões de Linda Tuhiwai Smith, que afirma que a pesquisa, historicamente, foi utilizada como instrumento de colonização, silenciamento e controle dos povos indígenas.
Para a autora, construir metodologias decoloniais significa inverter essa lógica: os povos indígenas devem ser sujeitos da pesquisa, partindo de suas próprias epistemologias, línguas, tempos e prioridades coletivas.
Nesse sentido, a metodologia da pesquisa torna-se um ato político, ético e pedagógico.
O trabalho deve ser desenvolvido, sobretudo, na língua indígena, ou, até mesmo, em duas línguas principais — a Língua Materna e a Língua Portuguesa — sempre respeitando que a língua indígena é a base do conhecimento, e o português, apenas uma língua de interlocução externa.
Para isso, é necessário um planejamento cuidadoso da pesquisa, desde o início até a finalização, com a organização de um cronograma de semanas e dias, respeitando os tempos da comunidade.
Também é importante afirmar que, em nossos contextos, não se trata propriamente de entrevistas.
O que realizamos são grandes conversas com os anciãos, baseadas na escuta, na confiança e na convivência. Como afirma Muni Kaiabi, o tempo indígena não é o tempo rápido da pergunta e resposta, típico das entrevistas ocidentais.
O conhecimento não vem de forma imediata; ele surge no silêncio, na pausa, na repetição, na memória que se abre aos poucos.
Essas conversas respeitam o tempo de cada povo, o tempo do ancião falar, lembrar, refletir e ensinar.
Não há pressa, nem roteiro rígido. A conversa acontece conforme a relação se constrói, diferentemente da lógica acadêmica que muitas vezes impõe perguntas fechadas e respostas rápidas.
Esse modo de escutar também é uma metodologia indígena e decolonial.
Para realizar esse trabalho, utilizamos diferentes ferramentas de registro, como gravações de áudio, anotações em caderno e a produção de textos no notebook. Essas ferramentas não substituem a oralidade, mas ajudam a guardar a memória coletiva, sempre com o cuidado ético de respeitar o que pode ou não ser registrado e divulgado.
Na produção dos textos, é fundamental destacar os elementos centrais do conhecimento indígena. Por exemplo: o nome de uma pessoa, como Tserewatsitsi; o nome de um lugar, como Nõrõtsu’rã; ou palavras ligadas às festas e às línguas sagradas, como Wai’a. Nesses casos, existem duas possibilidades metodológicas:
apresentar o significado;
ou manter a palavra na forma original, sem tradução, respeitando seus múltiplos sentidos e convidando o leitor a reconhecer os limites de sua compreensão.
Essa escolha também é uma estratégia decolonial, pois rompe com a lógica colonial de traduzir tudo para dominar o conhecimento.
Na sala de aula, não precisamos nos limitar à lousa, aos livros, às cadeiras e às quatro paredes.
Esse modelo representa uma metodologia colonial, que separa o conhecimento da vida. As metodologias indígenas e decoloniais propõem que a aprendizagem aconteça também no território, na aldeia, na roça, no rio e na floresta.
Passei a refletir profundamente sobre minha prática pedagógica. A partir disso, minha postura e minha metodologia de ensino mudaram significativamente.
Hoje, trabalho com meus alunos e alunas a partir da cosmovisão do meu povo A’uwê Uptabi, buscando descolonizar o conhecimento não indígena e fortalecer nossas próprias formas de pesquisar, ensinar e aprender.
Desenvolvo pesquisas e atividades relacionadas à história, à arte, à pesca, à caça, à roça, às atividades das mulheres e às atividades dos homens.
Como professor, convido anciãos e jovens com experiência para participarem das aulas, ou levo os alunos e alunas até a aldeia para realizar pesquisas e atividades de campo.
Dessa forma, a escola deixa de ser apenas um espaço institucional e passa a ser um território vivo de aprendizagem.
Assim, como afirma Linda Tuhiwai Smith, pesquisar, para os povos indígenas, é também um ato de cura, resistência e retomada da autonomia.
Ao valorizar nossa língua, nosso tempo e nossas formas próprias de conversar e produzir conhecimento, fortalecemos nossa identidade, nosso território e nosso direito de existir como povos originários.
Assim compreendo uma metodologia decolonial.