Passeio no Berohoky: Bedó (Parte 1)
Bebeto Kahukaxi
Iniciamos, nesta edição da Revista PIHHY, um percurso pelas águas do Rio Araguaia, chamado em língua Iny Rybè de Berohoky, expressão que designa o mundo da água — espaço de vida, memória, deslocamento e conhecimento do povo Iny (Karajá).
Não se trata apenas de uma navegação física, mas de uma travessia epistemológica, em que o rio se apresenta como arquivo vivo, professor e guardião da história.
Apresentamos o início dessa viagem conduzida por Bebeto Kahukaxi Karajá, barqueiro e mestre da cultura, cuja experiência é tecida na relação profunda com o Araguaia.
É ele quem nos guia por uma das curvas do rio, nas proximidades da cidade de Aruanã, território ancestral Iny, e da Aldeia Buridina, uma das mais antigas e simbólicas aldeias Karajá da região.
O povo Iny, conhecido como o povo do rio, construiu ao longo de séculos um modo de vida intrinsecamente ligado às águas do Araguaia. O rio organiza o tempo, a alimentação, os rituais, a pesca, a cerâmica, as narrativas e a própria formação do corpo e do pensamento. Em Berohoky, cada curva tem nome, cada barranco carrega memória, cada travessia ensina.
O povo Iny Karajá é um dos povos indígenas originários do Brasil Central, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê, com língua própria — a língua Iny — reconhecida como elemento central de sua identidade, memória e modo de existência.
Os Iny Karajá vivem tradicionalmente ao longo do rio Araguaia e de seus afluentes, ocupando territórios nos atuais estados de Goiás, Tocantins, Mato Grosso e Pará.
O rio não é apenas um espaço geográfico, mas um eixo cosmológico, social e pedagógico, estruturando a vida cotidiana, os rituais, as narrativas e os saberes do povo Iny.
A organização social Iny Karajá é profundamente marcada por relações de parentesco, pela transmissão intergeracional de conhecimentos e por uma forte valorização da oralidade. Os anciãos e anciãs ocupam um lugar central como guardiões da memória coletiva, responsáveis por ensinar às novas gerações as histórias de origem, os cantos, os rituais, as técnicas de pesca, caça, agricultura e a confecção de objetos culturais, como instrumentos, adornos e armas tradicionais. Esses conhecimentos não são apenas práticas, mas formas complexas de compreender o mundo, o corpo, a natureza e as relações entre humanos e não humanos.
Os rituais e festas ocupam um papel fundamental na vida Iny Karajá, articulando educação, espiritualidade e sociabilidade. Destacam-se os ritos de passagem, que marcam momentos importantes do ciclo da vida, especialmente na formação de meninos e meninas, e que envolvem cantorias, danças, uso de instrumentos e objetos tradicionais.
Do ponto de vista histórico, o povo Iny Karajá, assim como muitos outros povos indígenas, enfrentou intensos processos de violência, expropriação territorial e tentativa de apagamento cultural desde o período colonial.
Apesar disso, mantém uma notável capacidade de resistência e reinvenção, afirmando sua identidade, língua e modos de vida diante das pressões externas.
Hoje, os Iny Karajá protagonizam importantes lutas pela demarcação e proteção de seus territórios, pela valorização da educação intercultural e pelo reconhecimento de seus saberes como conhecimentos legítimos e fundamentais para o futuro do planeta.
O povo Iny Karajá tem se destacado, também, pela atuação de intelectuais indígenas, professores, pesquisadores e artistas, que transitam entre os territórios indígenas e as universidades, escolas e espaços culturais.
Essa presença tem contribuído para a produção de novos registros escritos, audiovisuais e acadêmicos, sem romper com a oralidade, mas ampliando suas formas de expressão.
Trata-se de um movimento potente de fortalecimento cultural e político, que reafirma o povo Iny Karajá como sujeito ativo na produção de conhecimento, na defesa da diversidade epistemológica e na construção de projetos interculturais mais justos e plurais.
A Aldeia Buridina, localizada às margens do rio Araguaia e, hoje, cercada pela expansão urbana de Aruanã, expressa de forma contundente as tensões contemporâneas entre o território indígena e a cidade.
O crescimento urbano, o turismo predatório e a pressão imobiliária tentam, a todo custo, espremer os Iny em seu próprio território ancestral, altarenado o ciclo do rio, e, consequentemente da vida.
Ainda assim, o povo Karajá resiste, afirmando sua existência por meio da língua Iny Rybè, das práticas culturais, da transmissão de saberes e da presença cotidiana no rio.
A resistência Iny não se dá apenas pela permanência física, mas pela continuidade de uma cosmologia que entende o território como relação viva entre humanos, águas, peixes, espíritos e memória.
A navegação com Bebeto Kahukaxi Karajá revela que o rio não é cenário, mas sujeito — e que conhecer o Araguaia é aprender a escutar suas histórias.
Fiel aos princípios da Revista PIHHY, este ensaio visual e narrativo reafirma que o conhecimento indígena não se limita à escrita, nem se submete às fronteiras disciplinares da ciência ocidental.
A palavra falada, a imagem, o gesto, o percurso e a experiência compartilhada também são formas legítimas de produção de conhecimento.
Ao acompanhar essa travessia por Berohoky, convidamos leitoras e leitores a reconhecer o Rio Araguaia como território de saber e o povo Iny como guardião de uma memória fundamental para pensar outros modos de existir, de habitar e de cuidar do mundo.
"Hoje não vamos fazer apenas um passeio. Vamos até um lugar tradicional do nosso território, conhecido como Bedó, na região do Piratininga — um espaço onde, desde antigamente, as mulheres coletavam barro para fazer artesanato e cerâmica. Na linguagem dos homens brancos, esse lugar ganhou outros nomes, mas para nós ele sempre foi território indígena, espaço de uso coletivo e de memória.
Toda essa mata verde que vocês veem é área indígena. Aqui é a chamada Área Dois, localizada no estado de Mato Grosso, no município de Cocalinho. Um lugar só recebe o nome de aldeia quando, de fato, se forma uma aldeia.
Por isso, esta é a Área Dois – Aldeia Buriti II. Mais adiante fica a Área Três, conhecida como Aldeia Buriti III. No fundo, trata-se de uma extensão da aldeia-mãe, que é a Aldeia Buriti.
Essas áreas foram divididas em glebas: Gleba Um, Dois e Três. A Gleba Um, por exemplo, é uma área mais voltada para a caça e a pesca. A plantação ali acontece apenas em determinados períodos, porque no tempo da chuva tudo vira água. A mata fica alagada, a área fica ilhada, restando apenas pequenos torrões de terra. Não é possível manter uma roça permanente ali.
Já na Área Três, fazemos a plantação e a criação. Esta área aqui é mais provisória: a gente vem, usa, respeita o tempo da água e da terra. Cada curva do rio tem um nome, cada ponto tem uma história. O Bedó do Piratininga é um desses lugares — um barranco onde se retira o barro para o artesanato.
Durante o período da pesca, ficamos acampados aqui, geralmente de maio até julho, pescando do lado do Mato Grosso.
Em julho, paramos, porque começa a temporada turística. A gente se retira do local para não atrapalhar quem vem para o lazer e também para não sermos atrapalhados. Nesse período, voltamos para a Área Um, que é a aldeia.
Depois, em agosto e setembro, começa a desova das tartarugas. Às vezes, com o movimento intenso no Rio Araguaia, essa desova atrasa e vai para setembro ou outubro.
Antigamente, o rio enchia no final de outubro, e a água passava por cima dos ovos, matando muitos filhotes. Hoje, o rio demora mais a encher. Acredito que isso dá tempo para as tartarugas desovarem e os filhotes nascerem antes da cheia — talvez uma forma da natureza se reorganizar.
Aprendi tudo isso com meu avô.
Ele me levava para pescar, me ensinava os caminhos do rio. Ele ainda está vivo, mas hoje está doente. O nome dele está marcado ali, numa canoa na beira do rio. O avô dele também passava por aqui.
Eles acampavam nessa praia, do lado do Mato Grosso, assim como os indígenas que vinham de Santa Isabel, remando, parando em vários pontos até chegar à Aldeia Buriti. Depois, voltavam pelo mesmo caminho. Esse lugar sempre foi um trajeto de ida e volta, um caminho de circulação e de vida.
Hoje, quase ninguém mais faz isso no remo. A cada ano, o rio vai baixando mais. No ano passado, nessa época de novembro, essa praia não existia — o rio já estava cheio. Agora, em 2025, o rio continua com praia. A natureza está mudando, o rio está secando, e não sabemos até onde isso vai chegar.
Nós vivemos entre duas culturas: a nossa e a do homem branco. Elas precisam caminhar juntas, de mãos dadas, porque hoje precisamos das duas para seguir em frente. Mas isso exige equilíbrio e respeito.
Houve uma grande enchente em 1980, quando a água entrou mata adentro. Isso nunca mais aconteceu. Hoje, o que vemos é o contrário: a água diminui, a praia aumenta, e coisas que nunca aconteciam agora estão acontecendo.
Na natureza, nada é por acaso. Existe o que é verdadeiro e o que é domesticado. O que é verdadeiro vive no mato; o domesticado vive próximo das pessoas. Por exemplo, na nossa língua, aloé é onça. Quando se coloca “ni” no final, torna-se algo domesticado. Assim como aloé-ni ou aloé-nim, que é o gato. A língua explica a relação entre os seres e o mundo.
A natureza está mudando, o rio está secando, e seguimos observando, aprendendo e tentando entender até onde isso vai nos levar.