Eu vou contar a história do Jacaré.
Naquela época, o Jacaré namorava uma mulher indígena Karajá.
As mulheres indígenas costumavam ir coletar fruto de pequi, tirando a semente, lá no lago.
As meninas descobriram que aquela pessoa com quem ela namorava era o Jacaré.
Ele se transformava, virava uma pessoa, como um indígena.
As mulheres se preparavam para ir buscar o fruto do pequi no lago. Enquanto isso, na aldeia, acontecia a dança do Aruanã, que é uma festa tradicional, um ritual antigo.
Naquele tempo, durante o ritual do Aruanã, as mulheres iam para o mato e para o lago coletar frutos. E, então, aparecia o Jacaré.
Ele vinha e gritava assim no lago:
— Mulheres, chamem o Jacaré!
Então elas chamavam:
— Jacaré!
E o Jacaré respondia:
— Vocês vão trazer muito peixe para nós: curimba, jaraqui, piabanha, tucunaré.
O Jacaré respondia:
— Bom, bom, bom!
E então ele trazia muito peixe!
Depois, ele tirava a máscara e aparecia como um homem indígena, com o corpo bem pintado, os braços pintados, tudo bem feito.
Ele tinha unhas grandes, pintura no corpo inteiro.
A mulher estava namorando com ele.
Depois disso, as mulheres voltavam para a aldeia dançando muito.
No outro dia, acontecia a mesma coisa. As pessoas dançavam na aldeia, e as mulheres se preparavam novamente para ir ao lago.
Então os mais velhos chamaram um menino para dar conselho — conselho para os jovens, para as pessoas mais novas — e disseram para ele acompanhar as mulheres até a casa do Aruanã.
O menino começou a chorar, querendo acompanhar. Chorava muito, caía no chão, se deitava.
No fim, deixaram ele ir. Ele ficou observando tudo no lago. Então a mulher gritou:
— Zacarias! Zacarias! Você precisa trazer para nós muito peixe: tucunaré, jaraqui, curimba, piabanha, pacu.
Isaque respondeu:
— Bom, bom, bom!
E ele trouxe muito peixe, do mesmo jeito de antes.
Depois, quando chegou, tirou a máscara e virou novamente um homem indígena, com pintura bonita no corpo. As mulheres e as meninas começaram a catar piolho no cabelo dele. Ele deitou e dormiu.
Depois disso, o Jacaré voltou para o lago. Ele deixou a namorada, e ela voltou para a aldeia.
Mais tarde, em uma festa de São João, os homens se prepararam. Um homem se transformou, apareceu vestido como mulher, usando palha de buriti, com o corpo escurecido e cabelo colocado, tudo bem feito. Ele foi até o lago.
Então, o homem gritou:
— Jacaré!
E disse:
— Gostei muito de você. Traga muito peixe para nós.
O Jacaré respondeu:
— Bom, bom, bom!
E trouxe muito peixe!
Mas o homem já estava preparado: tinha uma borduna para matar o Jacaré. Enquanto o Jacaré dormia, catando piolho no cabelo, o homem acertou a cabeça dele com a borduna e o matou.
Depois, a carne do Jacaré foi cortada e dividida em partes. Uma parte foi levada para a casa de Aruanã. O homem distribuiu a carne para as mulheres, para alimentar as pessoas. Dizem que o Jacaré se transformou em pirarucu.
As pessoas comeram a carne do Jacaré. Depois, o homem gritou:
— Vocês comeram carne de Jacaré!
Algumas pessoas ficaram bravas, outras riram. Em seguida, o homem se preparou para a guerra: fez pintura no corpo, no peito, com cortes também.
E foi assim que aconteceu essa história.