Escritoras Indígenas
Por Ana Maria Kariri - Curadora da Revista Pihhy, Artista, Liderança, Professora
Você já leu livros de mulheres indígenas? Você conhece mulheres autoras indígenas?
A nossa literatura tem pouco mais de 30 anos.
Durante muito tempo, foram as academias que escreveram sobre as mulheres indígenas e sobre os povos indígenas — mas não eram indígenas escrevendo.
Eram outras pessoas, com outros olhares, muitas vezes marcados por uma visão sexualizada da mulher indígena e por uma forma única e limitada de representar uma diversidade cultural que é imensa.
Hoje, somos mais de 305 etnias, e não há como caber em um único desenho, em uma única narrativa.
Apenas depois da Constituição é que houve uma pequena abertura, dentro das academias, para a escrita indígena com protagonismo indígena. Ainda assim, foram sobretudo homens indígenas que passaram a publicar. Melhorou bastante?
Sim, melhorou. Mas nós, mulheres indígenas — e em muitas etnias somos sociedades matriarcais — continuávamos sem ser ouvidas, muitas vezes silenciadas.
Atualmente, estamos vivendo a oportunidade de escutar e trazer a oralidade das nossas mais velhas para as academias, para os espaços de arte, para as rodas de conversa.
Com isso, compartilhamos detalhes das nossas histórias que, antes, apenas nós, dentro do nosso seio familiar, tínhamos acesso.
A pandemia também intensificou essa urgência: perdemos muitas de nossas mais velhas e sentimos a necessidade imediata de registrar a memória e o legado do nosso povo — dos nossos povos indígenas.
Cada aldeia, cada etnia, percebeu também essa necessidade de registro.
Hoje vivemos a chamada Década das Línguas Indígenas, e isso trouxe um incentivo importante à revitalização das nossas línguas.
A oralidade tem um papel central nesse processo, pois é por meio dela que registramos a língua falada, a língua revitalizada, a língua de cada povo.
Em algumas academias, editoras e espaços de acesso à literatura, há hoje um incentivo para que nós, mulheres indígenas, escrevamos também a partir de nossas línguas originárias. Isso é fundamental, porque manter a língua viva é manter viva também a nossa literatura.
O audiovisual se tornou, igualmente, uma ferramenta essencial desse registro.
A partir dessas oportunidades, temos nos capacitado para buscar recursos e garantir que as aldeias e também as pessoas indígenas que vivem nas cidades — escritoras, realizadoras do audiovisual, do cinema, professoras — tenham acesso à informação e aos meios necessários para realizar esses registros.
Tudo isso é fundamental para manter viva a nossa língua, a nossa memória e eternizar a memória das nossas mais velhas.
Por isso, é muito importante que vocês leiam mulheres indígenas, leiam escritoras indígenas, assistam a filmes indígenas, dialoguem, compartilhem com suas famílias e em suas redes sociais.
Comprem, divulguem os nossos trabalhos. A partir disso, vocês também se tornam multiplicadores da nossa memória viva.
Acesse:
Espíritos da terra: um encontro no Cerrado
https://portaldelivros.ufg.br/index.php/cegrafufg/catalog/book/833