Já me transformei em imagem
Danilo Ihtôt Krahô
Nesta seção, a Revista PIHHY apresenta o artista Danilo Ihtôt Krahô, cuja produção artística nos convida a repensar as formas hegemônicas de produzir, registrar e transmitir conhecimento.
Por meio de seus desenhos, Ihtôt transforma memória, cosmologia e saber ancestral em imagem, afirmando que o conhecimento não se expressa apenas pela escrita, mas também pelo corpo, pela oralidade, pela visualidade e pela relação viva com o território.
Suas obras narram a história do Hoxua, a abóbora viva, e do amji kin, da Festa da Batata, prática cultural fundamental do povo Mehĩ (Krahô).
Essas narrativas visuais revelam a profundidade simbólica, espiritual e pedagógica da tradição oral de seu povo, mostrando que o mito não é ficção, mas uma forma sofisticada de pensamento, organização social e ensinamento coletivo.
Ao tensionar a ideia de que apenas a escrita — e sobretudo a escrita ocidental — constitui a linguagem legítima do conhecimento científico, a obra de Ihtôt afirma outros regimes de saber.
Na perspectiva defendida pela PIHHY, a imagem também pensa, ensina, guarda memória e produz teoria.
Cada traço, cor e composição carrega uma cosmologia viva, na qual o desenho atua como extensão da palavra, da memória e da espiritualidade Mehĩ, sem jamais se separar da vida cotidiana.
As obras de Danilo Ihtôt Krahô vão além da representação estética: constituem registros visuais de saberes ancestrais, modos de vida e relações territoriais, tornando-se também materiais didáticos para o fortalecimento da educação indígena.
Ao circular entre a aldeia, a escola e os espaços editoriais, sua arte cria pontes entre gerações, reafirmando a continuidade dos conhecimentos tradicionais em diálogo com o presente.
Ao reunir cosmologia, corpo e território em formas e cores, o artista reafirma o poder da imagem como instrumento de transmissão cultural, pedagogia e resistência.
Em um mundo que historicamente silenciou os povos indígenas e deslegitimou suas formas próprias de conhecimento, a arte de Ihtôt atua como gesto político e epistemológico, rompendo fronteiras entre arte, educação e ciência.
“Já me transformei em imagem” é, portanto, um espaço de reconhecimento e valorização da arte indígena contemporânea como campo legítimo de ensino, criação e produção de conhecimento.
Ao acolher essa seção, a Revista PIHHY reafirma seu compromisso com a pluralidade de linguagens, com as epistemologias originárias de Abya Yala e com a construção de outros horizontes possíveis para pensar, ensinar e existir.