PARENTE LÊ PARENTE
Robson Guajajara
Com alegria e compromisso, a Revista PIHHY apresenta a seção "Parente lê Parente", um espaço dedicado à valorização dos saberes indígenas por meio da leitura entre parentes.
Aqui, intelectuais, artistas, lideranças e estudantes indígenas são convidados a apresentar e comentar obras escritas por outros autores indígenas, fortalecendo o intercâmbio de pensamentos, cosmologias e experiências, a partir de dentro das nossas próprias epistemologias.
A proposta reafirma os princípios fundamentais da revista:
- a centralidade das vozes indígenas,
- a reciprocidade entre mundos e modos de saber,
- a luta por epistemologias não colonizadas,
- a defesa das nossas terras, culturas e espíritos,
- e a produção de conhecimento com base nas cosmologias e formas de existência dos povos originários.
Nesta edição, temos a honra de contar com a leitura e os comentários do professor Robson Guajajara.
Meu nome é Robson de Souza Gomes Guajajara, sou da Terra Indígena Arariboia, no Maranhão.
O livro que escolhi foi sobre meu povo, um livro de alfabetização e leitura em língua Guajajara.
Esse livro me tocou bastante porque foi produzido por autores e autoras indígenas, de meu povo, como Érica Maria da Silva Guajajara, Beatriz da Silva Viana Guajajara, Renata Torres Guajajara, Luciene Alves da Silva Guajajara, Maria do Amparo Gomes Guajajara, Maria do Socorro Pimentel da Silva, Jane Carvalho Guajajara, Vicente Maria Santana da Silva, Rogério Marina Sanches da Silva e Rogéria Luciene Alves da Silva Guajajara.
A escolha desse livro foi pensada a partir da revitalização e da retomada de saberes que, para mim, estavam de certo modo ocultos, como se estivessem guardados em uma “caixinha de surpresas”.
Quando comecei a manusear esse livro, encontrei nele as brincadeiras indígenas, e isso me tocou profundamente.
É fundamental que as crianças indígenas do meu povo, assim como as futuras gerações, possam conhecer nossas epistemologias, especialmente aquelas relacionadas às brincadeiras tradicionais.
As brincadeiras infantis Guajajara fazem parte da cultura e da tradição do nosso povo. Elas são transmitidas de geração em geração e fazem parte da organização e da hierarquia do povo.
Essas brincadeiras contribuem para a aprendizagem, para o fortalecimento da identidade indígena e para a convivência coletiva.
Entre as brincadeiras mais comuns estão correr no mato, a caça simbólica, fazer pião de tucum, brincar de peteca, arco e flecha, subir em árvores e brincar com barro. Essas atividades integram: diversão, ensinamentos da natureza e os saberes dos mais velhos.
A natureza está profundamente conectada a nós; existe uma interligação, uma verdadeira teia de saberes entre o povo e a natureza.
A natureza não está fora do contexto indígena e não está separada das epistemologias indígenas. Pelo contrário, tudo caminha junto.
Sem a natureza, não existem tradição, costumes nem crenças.
Ela faz parte das nossas brincadeiras porque é nela que nos criamos e é dela que herdamos os conhecimentos deixados por nossas ancestralidades. Por isso, levamos esse saber adiante.
Essas epistemologias precisam ser fortalecidas e levadas para a sala de aula, para que possam ser repassadas às crianças e, assim, cada vez mais fortalecidas.
Ailton Krenak sempre enfatiza que a floresta está conectada a tudo e que, no pensamento indígena, não há separação. Compreendi melhor isso quando ele fala dessa teia de conexões que mantemos com a natureza.
Esse aprendizado é muito relevante e também bastante complexo. Abrir essa “caixinha de surpresas” foi, para mim, um processo de descoberta, e tudo o que posso fazer é aproveitar essa aprendizagem que estou adquirindo.
Gostei muito do livro, especialmente por apresentar dez brincadeiras indígenas diferentes — citei algumas aqui.
Espero que vocês possam compreender um pouco mais sobre as brincadeiras indígenas.
Quando falo em “indígena”, falo em um contexto mais amplo, pois estamos conectados à natureza e não existe separação. Essa é uma parte que o mundo ocidental, o mundo envolvente e o capitalismo não conseguem compreender. Essa compreensão é nossa.
Nossas epistemologias internas são totalmente diferentes das epistemologias do capitalismo, do mercado, do dinheiro e do ouro.
Enquanto esse mundo pensa na exploração, nós pensamos em preservação, cuidado, monitoramento e limpeza. Existe um amor incondicional que temos pela Mãe Terra e pela nossa natureza.
É isso.