A luta por uma escola indígena intercultural
Revista PIHHY entrevista Wellington Tapuia
PARTE 2 (acesse a parte 1 da entrevista na edição nº 9)
Nesta edição da Revista PIHHY, temos a honra de apresentar a segunda parte da entrevista com o líder indígena, educador e vice cacique Wellington Tapuia, diretor da escola de sua comunidade Tapuia, situada no estado de Goiás.
Nesta conversa, o professor Wellington compartilha importantes reflexões sobre a interculturalidade, vivenciada na prática em seu território, por meio da construção de uma escola profundamente vinculada à comunidade e também à região onde está inserida.
Wellington reflete sobre a relevância de uma escola comunitária, pautada nos conhecimentos de seu povo e nas demandas de seu território — atravessado por questões políticas contemporâneas, que revelam dinâmicas fundamentais de gestão e luta pela melhoria da educação escolar indígena no estado.
Ele relembra que, durante muitos anos, o povo Tapuia enfrentou o apagamento de sua identidade e o silenciamento de sua história.
A criação da escola, portanto, constituiu-se também como um ato político e pedagógico de afirmação da existência do povo Tapuia como sujeito coletivo, com língua, cultura e território próprios.
A Revista PIHHY, cuja missão é fortalecer as vozes e reflexões de intelectuais indígenas da Abya Yala, reafirma, com esta publicação, seu compromisso com os processos de reparação histórica e de valorização das epistemologias ancestrais.
Acreditamos que a sociedade brasileira precisa escutar e aprender com a luta de Wellington e do povo Tapuia. Sua trajetória é exemplo de coragem, resistência e persistência, diante da negação de direitos e da invisibilização histórica.
Convidamos todas e todos a lerem esta entrevista na íntegra — sendo que a primeira parte foi publicada na edição nº 9.
Que possamos, por meio desta entrevista, escutar a sabedoria dos povos originários e seguir construindo caminhos de justiça, memória e transformação, contribuindo para o aprimoramento de políticas educacionais fundamentais para o país.
WELLINGTON TAPUIA
Alexandre:
Você me falou, Wellington, coisas muito interessantes, que me fizeram refletir sobre a interculturalidade crítica. Você comentou que a Escola Indígena Tapuia atende também estudantes não indígenas da região.
Wellington:
São dois pais que nos procuraram pelo fato de que o nosso colégio é mais próximo das residências deles, o que torna tudo mais viável.
Eles nos perguntaram se a escola aceitaria os filhos, já que não são indígenas. Eu expliquei que aceitamos, porque é uma escola estadual e não podemos negar matrícula.
Mas também esclareci que existem peculiaridades, diferenciações próprias da nossa escola indígena. Expliquei como funcionam os projetos, as atividades, a organização escolar — e eles aceitaram totalmente.
Eles disseram: “Tudo o que vocês puderem ensinar para nossos filhos, nós queremos”. Então, por exemplo, eles participam das pinturas corporais com a gente, estão inseridos na nossa cultura, aceitam nossas decisões, participam das reuniões, dão opinião. São bastante abertos no sentido de aceitar a dimensão cultural da escola.
Alexandre:
Isso é muito interessante. Como vocês conseguem trabalhar tão bem a dimensão cultural e, ao mesmo tempo, dialogar com estudantes não indígenas. Como equilibrar isso?
Wellington:
A gente pensa no sistema pedagógico que adotamos. Trabalhamos a partir da nossa perspectiva cultural, mas também damos ênfase aos conhecimentos universais. Essa junção é muito bem feita aqui na escola. Conseguimos trabalhar a cultura com excelência, sem deixar de lado o conhecimento universal.
A prova disso é que nossos estudantes que prestam vestibular estão se inserindo no meio acadêmico. Temos ex-alunos odontólogos, advogados, enfermeiros. Temos estudantes cursando Psicologia na UFMG, outros que se formaram em Direito, inclusive na própria UFG. Isso mostra que temos qualificação e competência. Para nós, isso é motivo de muito orgulho.
É importante destacar também a trajetória da professora Eunice, que trabalhou muitos anos conosco, se tornou doutora e hoje retorna para atuar na comunidade. Ela foi peça fundamental na criação da escola, junto comigo e outros colegas. Temos muita admiração e respeito por ela, tanto pelo patamar acadêmico que alcançou quanto por ser da etnia Tapuia.
Hoje, sabemos que o espaço dos povos indígenas no Estado de Goiás está se ampliando por conta dessas conquistas. Há dez ou quinze anos, lutávamos até para sermos reconhecidos.
Muita gente dizia que em Goiás não havia indígenas, quando, na verdade, existem três territórios demarcados. Hoje conseguimos divulgar nossas etnias, nossas escolas, nossa cultura.
Mesmo que, às vezes, esse trabalho nas escolas não indígenas seja feito de forma um pouco forçada, ele é garantido por lei, tanto no que se refere à cultura indígena quanto à afro-brasileira. Isso é um avanço muito importante e muito gratificante para nós.
Alexandre:
Você comentou também que escolas não indígenas visitam a escola de vocês para conhecer o povo e a cultura. Como funciona isso?
Wellington:
Recebemos escolas de toda a região do Vale do São Patrício e também de outros lugares. Muitas nos convidam para ir até lá fazer palestras e falar sobre a cultura. Recebemos escolas de Goiás Velho, por exemplo. No mês de abril, especialmente por conta do chamado “mês do índio”, a procura aumenta bastante. As escolas querem conhecer a realidade indígena para além dos estereótipos.
Já temos três escolas agendadas para visita neste mês, todas concentradas no dia 25. Nesse dia, fazemos contação de histórias, explicamos a organização social da comunidade, apresentamos o cotidiano e realizamos apresentações culturais. No dia 25 também acontece nossa Festa Tradicional, que está na 22ª edição.
Neste ano, por questões religiosas — já que a comunidade é majoritariamente católica —, a festa foi transferida para depois da Semana Santa. Mas vai ser muito bonito. Aproveito para te convidar a participar, inclusive para fazer registros. Acho que isso pode enriquecer bastante o trabalho.
Alexandre:
Você mencionou o PPP da escola. Ele tem relação com o projeto construído durante o curso de especialização na UFG?
Wellington:
Sim. A base do nosso Projeto Político-Pedagógico é justamente o trabalho que desenvolvemos na licenciatura e na especialização. A cultura indígena e os temas contextuais estão no centro da proposta pedagógica da escola.
A comunidade participa muito. A escola e a comunidade estão completamente integradas. Inclusive, em momentos difíceis, como falecimentos, a escola serve como espaço para velórios e grandes reuniões. Não trabalhamos apenas para os estudantes, mas para a comunidade como um todo. Tudo passa pela escola.
Existe uma parceria muito forte entre escola e associação indígena. Quando precisamos da comunidade, ela vem; quando a comunidade precisa, a escola está aberta. O Estado respeita isso. Aqui não há restrição de acesso: mães, parentes, entram livremente. Isso faz parte da nossa cultura. Não podemos impor barreiras que quebrariam a lógica comunitária. É uma relação de aconselhamento mútuo entre escola e comunidade.
Alexandre:
Quantos estudantes e professores a escola tem hoje?
Wellington:
Temos oito professores, todos indígenas. Atualmente, são 43 alunos matriculados. As turmas são pequenas, o que é comum em aldeias. Nossa comunidade tem cerca de 63 famílias, somando aproximadamente 223 pessoas entre adultos e crianças.
Alexandre:
Para finalizar, queria te ouvir sobre a relação com a Seduc. Houve avanços, mas também dificuldades, como o ponto eletrônico e a falta de uma secretaria específica para educação escolar indígena. Como você vê isso?
Wellington:
Essa é uma grande luta nossa. Reivindicamos há muito tempo a criação de uma secretaria específica de Educação Escolar Indígena dentro da Seduc. Hoje, a educação indígena está vinculada à gerência de Educação do Campo, Indígena e Quilombola, o que não dá conta das especificidades. Educação indígena não é educação do campo. Aldeia não é fazenda.
A gerência tenta ajudar, mas há resistências. O ponto eletrônico, por exemplo, é uma imposição muito problemática para nossa realidade.
Defendemos que essa secretaria seja ocupada por uma pessoa indígena. Não importa a etnia, mas que seja indígena. Quem não é indígena não vive nossa realidade, não luta da mesma forma. O que nos interessa não é aparecer na mídia, mas fazer a educação escolar indígena acontecer nas bases. Precisamos de apoio para isso. É urgente.
Agradeço pelo espaço e pela liberdade. Para mim é uma satisfação contribuir e falar da nossa realidade. Estamos juntos.
Alexandre:
Parabéns. Você deu uma grande aula sobre educação escolar indígena.