Críticas pluriepistêmicas
A importância da liderança e dos conhecimentos originários
Baioque Tsaranate
Meu nome é Baioque Tsaranate, e hoje quero falar sobre a importância da liderança, sobre o papel dos conhecimentos indígenas na defesa da Terra e sobre o que chamamos de pluriepistemologia.
Antes de tudo, quero me apresentar.
Protagonismo indígena
Eu sou do povo A’uwẽ Uptabi (Xavante), que vive no estado do Mato Grosso, principalmente nas Terras Indígenas Pimentel Barbosa, Sangradouro, São Marcos e Marãiwatsédé, entre outras.
Nosso povo tem uma longa história de resistência.
Passamos por invasões, perdas e violências desde o contato forçado com o não indígena, mas mantemos viva nossa língua, nossa organização social e nossos rituais, que fortalecem o corpo e o espírito.
O povo Xavante é conhecido por sua força, coragem e disciplina, expressas em nossas práticas tradicionais como a corrida de tora, o rito de passagem dos jovens (Wai’a) e a formação das lideranças, que aprendem desde cedo a falar com sabedoria e responsabilidade diante da comunidade.
Para nós, liderança não é apenas falar — é cuidar, escutar e servir ao coletivo.
Quero começar falando sobre uma grande liderança de hoje, a Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas.
Ela é uma mulher forte, guerreira e firme na defesa da natureza. Sônia sempre nos lembra que a natureza não é um mercado para negociar, que a Terra é nossa mãe e que devemos respeitá-la.
Ela fala com o coração, lembrando que é preciso proteger os rios, as árvores, as pedras e as montanhas, porque tudo isso tem espírito e faz parte da vida.
Sua luta representa o modo como os povos indígenas entendem o mundo — não como um conjunto de recursos, mas como um ser vivo com o qual nos relacionamos.
Quero também falar sobre o líder Davi Kopenawa Yanomami, que denuncia a destruição causada pelo garimpo e pela retirada de ouro em seu território.
Ele fala das doenças da Terra e da dor que vem quando o rio morre, as árvores morrem, os peixes e os animais morrem também.
Em sua língua, Davi tem uma palavra que expressa esse desequilíbrio, algo que não tem tradução exata em português, porque fala de uma dor profunda, espiritual e coletiva.
É o aviso de que o mundo está adoecendo junto com a Terra.
Essas lideranças mostram o quanto o pensamento indígena está ligado à responsabilidade com o equilíbrio da vida.
Nós, povos originários, aprendemos com nossos mais velhos que não existe separação entre ser humano e natureza, entre corpo e espírito, entre o mundo material e o mundo invisível. Tudo está conectado!
Tudo está conectado!
É sobre isso que falo quando menciono a pluri-epistemologia.
A palavra “pluri” significa muitos, e “epistemologia” quer dizer conhecimento.
Assim, pluriepistemologia é o reconhecimento de muitos modos de saber e de pensar o mundo, vindos de diferentes povos, culturas e tradições. Isso inclui os saberes dos povos indígenas, que são essenciais para imaginar uma sustentabilidade verdadeira, uma forma de viver em harmonia com o planeta.
Outro conceito importante é o de dicotomias. Essa palavra vem do pensamento ocidental, que costuma dividir o mundo em opostos: natureza e cultura, corpo e mente, humano e não humano.
Para nós, povos indígenas, essa separação não existe.
O pensamento A’uwẽ (Xavante) entende que tudo está unido — o vento, o rio, a montanha, o corpo e a palavra fazem parte de uma mesma teia de vida. Quando um desses elementos é ferido, o equilíbrio se quebra, e todos sentimos.
Por isso, nós acreditamos que é possível juntar os conhecimentos — indígenas e não indígenas — para criar outras formas de viver, com mais respeito à Terra e a todos os seres.
A sabedoria dos povos originários ensina que o verdadeiro desenvolvimento não é acumular riqueza, mas cuidar da vida, preservar a memória e garantir o futuro das próximas gerações.