Revista Pihhy: sementário de saberes e de conexões
Vai, flor que se mata à espera do amanhã
Vai, desembaraça teu sorriso à uma irmã
Vai, que quando passas tu perfumas chão ardente
Vai que o tempo atrai de ti só semente
Vai que o tempo atrai de ti só semente
Vai, da terra entrai, mostrai beleza em sol candente
Não te desvanece, pois maltratas muito a gente
Perpetrai as rimas que só bem te traz
Inspirai poesia, proclamai a paz
Perpetrai as rimas que só bem te traz
Inspirai poesia, proclamai a paz
(Sementes – Di Melo)
O Ministério da Cultura (MinC) tem um papel importante no fomento à produção e difusão do conhecimento. Não há políticas públicas sem os ambientes de reflexões críticas e inventivas para a qualificação de nossas políticas culturais.
O programa Conexão, Cultura e Pensamento foi buscar como referência o programa Cultura e Pensamento, que exerceu um papel vital em gestões anteriores na articulação de instituições e pesquisadores que estavam produzindo um pensamento crítico em torno dos temas da cultura. A novidade que apresentamos aqui é trazer a percepção inscrita na palavra conexão. Para além da produção do conhecimento, a possibilidade de estabelecer conexões entre saberes, fazeres, epistemologias, territórios e povos distintos, gera confluências e encontros na promoção do que se produz nas mais diversas áreas do conhecimento, no sentido de promover não só a diversidade cultural, mas também a diversidade do conhecimento, das ciências, dos saberes, dos fazeres, das percepções e das cosmovisões em torno do pensamento da cultura.
Nessa vereda, a revista, Pihhy compõe uma política do Ministério da Cultura, no âmbito da Secretaria de Formação Cultural, Livro e Leitura em parceria com o Núcleo Takinahaky da Universidade Federal de Goiás (UFG), voltada para promover a produção e difusão do conhecimento, da informação, da pesquisa, da memória e das artes, com ênfase nas manifestações estéticas indígenas, compreendendo as linguagens e línguas originárias como elementos substanciais nesta produção.
Trata-se, portanto, de um projeto estruturante mais amplo, incluindo a criação de uma plataforma que hospeda a própria revista digital como ambiente da difusão de pesquisas sobre arte e cultura oriundas dos povos indígenas disponibilizadas em meios, formatos e linguagens diversas; bem como a realização de cursos com mestres da cultura indígenas; a produção de cadernos educativos com orientações de uso em sala de aula; além da realização de seminários, minicursos presenciais e de vídeo-aulas que estarão disponíveis na plataforma, democratizando assim o conteúdo produzido como componente de referência e de inspiração para práticas pedagógicas na educação escolar indígena e para ambientes de criação e de formação artística, estética e cultural.
A Revista Pihhy é toda de autoria indígena, sendo um ambiente de fruição artística, de reflexão do pensamento e de produção do conhecimento, constituído pela diversidade cultural e territorial dos povos originários brasileiros em suas mais de 270 línguas indígenas. E estas diversas línguas estão escritas com seus vocabulários próprios e com suas sonoridades por entre essas páginas virtuais. Esta revista é, pois, um território de epistemologias e de cosmovisões composto pela produção acadêmica e tradicional de povos indígenas, compreendendo os lugares destes saberes e fazeres na nossa formação cultural e na produção do conhecimento no país, apresentando-se como um espaço fértil para que sementes possam ser plantadas, regadas e cultivadas como árvores sagradas do conhecimento, contribuindo para a difusão das culturas indígenas no Brasil.
Nesse sentido, a Revista Pihhy é a nossa primeira ação em torno do programa Conexão, Cultura e Pensamento. Nosso primeiro solo para plantar e cultivar essas sementes é a roça indígena no sentido de ararmos um pensamento mais “orgânico, diverso, circular e cosmológico” nesta parceria do MinC com a UFG e com os pensadores, escritores, artistas, cientistas e mestres indígenas. Portanto, não foi à toa a escolha do nome para a revista. A palavra “semente” tem um sentido mais abrangente e dita assim, na língua mehi jarka do povo Mehi-Krahô, ganha mais sentido e sentimento. Nesse terreno fértil, Pihhy não é uma só semente, ela é um “sementário” (essa palavra inventada), um banco de coleções de sementes da policultura do pensamento indígena e brasileiro.
A semente foi feita para germinar e brotar vidas. A Revista Pihhy está associada às ideias de criação, cultivo, colheita e aos ciclos da vida e do tempo. E tanto pode ser uma semente de Jatobá ou de Sumaúma, como pode ser uma semente de gente, de pessoa, pois tudo é natureza e cultura. Se a natureza faz o tempo, a cultura faz o cultivo, o saber-fazer-viver.
Ou seja, não podemos mais despregar a reflexão crítica dos ciclos vitais dos saberes e fazeres ancestrais da cultura e tampouco dos saberes da própria natureza. A nossa primeira roça é indígena, a segunda será quilombola como território do próximo projeto. Mas todas serão confluências e sementes, pois, como no poema-canção do Di Melo, o tempo atrai da gente só sementes para a gente perpetrar boas folhas, flores e frutos em nossos territórios. A Pihhy está lançada no solo fértil da produção do conhecimento e da diversidade cultural brasileira.
Fabiano dos Santos Piúba
Secretário de Formação Cultural, Livro e Leitura do Ministério da Cultura


