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NORDESTE
Teia do Piauí encerra o ciclo de encontros estaduais de pontos de cultura antes da etapa nacional em Aracruz
Foto: Anna Júlia Melo
A Teia do Piauí, realizada em Teresina neste fim de semana, encerrou a programação de encontros estaduais de pontos e pontões de cultura, com 435 pessoas inscritas e 49 grupos revezando-se no palco e nas ruas, em apresentações de dança, música, teatro, capoeira, quadrilha junina, reisado, bumba-meu-boi e folia de reis, entre outras manifestações que se encontram nos pontos de cultura de todo o estado. A programação começou na sexta-feira (13), no Theatro 4 de Setembro, e terminou no domingo (15), com uma feira de economia criativa e solidária na Praça Pedro II e a eleição da delegação que representará o estado na 6ª Teia Nacional - Pontos de Cultura pela Justiça Climática, a ser realizada em Aracruz, no Espírito Santo, de 19 a 24 de maio.
O evento foi organizado pela Secretaria de Estado da Cultura do Piauí (Secult) em parceria com o Ministério da Cultura (MinC). A secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, Márcia Rollemberg, e o coordenador-geral de Articulação da Política Nacional Cultura Viva (PNCV), Leandro Anton, participaram das atividades.
Um vídeo da ministra Margareth Menezes foi exibido durante a solenidade de abertura, parabenizando as pessoas participantes e falando da importância desta etapa preparatória para a Teia nacional. “Nós estamos preparando uma Teia que vai ser um divisor de águas”, anunciou. A sexta edição do encontro nacional dos pontos de cultura vem depois de um intervalo de 12 anos: o último foi a Teia da Diversidade, em Natal (RN), em maio de 2014.
Cultura como direito
Na mesa de abertura, Márcia Rollemberg ressaltou os avanços nas políticas culturais conquistados nos últimos anos e, sobretudo, a importância do reconhecimento da cultura como um direito fundamental, assim como o direito à educação ou à saúde.
“A cultura nos define como pessoa, como memória, como povo, como ancestralidade, como identidade. Uma pessoa sem memória é uma pessoa sem perspectiva de futuro. E a cultura nos posiciona no mundo. É importante saber que o direito cultural não é um direito qualquer, não é o direito só de ir ao teatro. É o direito de ser o que a gente quer ser. É o direito das identidades LGBTs, das comunidades indígenas, dos neurodivergentes, da população de rua. Com a cultura a gente se empodera pela cidadania”, afirmou a secretária.
Ao comentar que em três anos, de 2023 para 2026, o Cadastro Nacional de Pontos e Pontões de Cultura saltou de 4 mil para 15 mil coletivos e entidades culturais certificados, Márcia Rollemberg destacou a importância de iniciativas como as bolsas para mestres e mestras e os agentes jovens, para que haja uma transmissão intergeracional. “A política Cultura Viva tem o princípio do protagonismo, da autonomia, do empoderamento, da inclusão, da gestão compartilhada”, frisou.
Ampliando a rede
O Piauí conta com 213 pontos de cultura, distribuídos em 86 dos 224 municípios do estado. Desse total, 67 pontos estão em Teresina. “A nossa meta é ampliar ainda mais a rede de Pontos de Cultura. Queremos chegar aos 224 municípios do estado”, disse o secretário estadual da Cultura, Rodrigo Amorim, na abertura do evento, no Theatro 4 de Setembro.
Além de mencionar o compromisso com as culturas populares, Amorim citou várias obras que estão sendo feitas no estado graças aos recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e do Sistema de Incentivo Estadual à Cultura (Siec). A primeira com recursos da PNAB a ser entregue, em novembro de 2025, foi a reforma do Memorial Esperança Garcia, em Teresina.
Outra iniciativa destacada foi o programa Patrimônio Vivo do Piauí. Hoje, o estado já conta com 74 mestres, mestras e grupos culturais, reconhecidos oficialmente por meio da Lei Estadual nº 5.816/2008. Além do reconhecimento simbólico, o programa concede bolsas mensais para que saberes tradicionais e populares, como o reisado, a roda de São Gonçalo e o artesanato, continuem vivos e transmitidos às novas gerações.
Em fevereiro, o Governo do Estado do Piauí lançou 14 editais: nove do segundo ciclo da PNAB e cinco editais do Piauí Mais Cultura, por meio do Siec. O investimento total é de 45 milhões para o setor cultural no estado. Na PNAB 2026, serão aplicados R$ 31 milhões.
Os nove editais da PNAB somam 316 vagas e abrangem diversas linguagens, territórios e expressões culturais do Piauí. Entre eles estão os de Pontos e Pontões de Cultura; o Edital Cultura Viva Mestre Beija, que concede bolsas para mestres e mestras da cultura popular, e o Edital Neguinha da Irmã Dulce, voltado para o fomento de bibliotecas comunitárias. As iniciativas reforçam a política de reconhecimento, incentivo e permanência das ações culturais nos territórios, com atenção especial às periferias e às culturas populares.
Além dos secretários, compuseram a mesa de abertura o presidente do Conselho Estadual de Cultura, Nelson Nery Costa; César Crispim, representando os pontões de cultura do Piauí; Ramon Patrese, presidente da Comissão de Cultura e Arte da OAB-PI; Marcos Vinícius Ferreira, do Ponto de Cultura Cumbuca de Quilombo (Quilombo Salinas, de Campinas do Piauí), e Maria Irene, presidenta da Associação dos Artesãos da Comunidade Quilombola dos Potes (AACP), de São João da Varjota.
Entre dificuldades e oportunidades
‘É com muita alegria que a gente vem dos quilombos, das aldeias, das periferias e do centro urbano para tecer essa rede de Cultura Viva. A luta é árdua, mas vale a pena fazer cultura no Piauí. Temos dificuldades? Temos. Mas temos muitas possibilidades e muitas oportunidades. A PNAB tem feito com que os pontos de cultura respirem um pouquinho melhor”, disse Marcos Vinícius, o Nego Vina, na primeira noite do evento.
Na manhã seguinte, o representante do Ponto de Cultura Cumbuca do Quilombo voltou ao palco para o primeiro debate do Fórum Estadual de Pontos de Cultura, com o tema “Plano Nacional de Cultura Viva: o que o Piauí quer para os próximos 10 anos?” Nesta mesa, ele falou da necessidade de simplificação dos editais de Pontos de Cultura e da valorização real dos fazedores de cultura. “Estamos falando de cosmovivência. De viver no dia a dia, de fazer de fato cultura”, sublinhou, destacando que no Piauí, segundo o Censo de 2022, 7.198 pessoas se definem como pessoas indígenas, e 31.786 como quilombolas.
Também presente nesta mesa da manhã de sábado, Leandro Anton, coordenador-geral de Articulação da Cultura Viva, lembrou que o Fórum dos Pontos de Cultura é um espaço exclusivamente da sociedade civil, diferentemente da Conferência Nacional de Cultura, em que o Estado também participa da construção e votação de propostas. Ele chamou a atenção para isso porque considera importante que a rede de Pontos e Pontões de Cultura tenha o domínio da Lei Cultura Viva, a Lei 13.018/2014, e suas instruções normativas, para a construção de um Plano Nacional de Cultura Viva para os próximos 10 anos.
Duas décadas em três ciclos
Segundo Leandro, estas duas décadas de Cultura Viva podem ser pensadas a partir de três grandes ciclos. O primeiro, que ele chama de ciclo de criação e experimentação, vai desde o lançamento como programa, em 2004, até chegar a 2014, quando passa a ser política de Estado, com o lançamento da Lei Cultura Viva (Lei 13.018/2014).
O segundo ciclo, a partir de 2014, marca um período de institucionalização e também de resistência, já que de 2016 em diante houve um processo de desconstrução e/ou interrupção de políticas públicas de cultura. O terceiro, de expansão e de estruturação, é o atual, iniciado com a retomada do Ministério da Cultura em 2023.
“Nós podemos utilizar as leis como instrumento de exercício, de luta, de resistência. Temos que pensar no financiamento, numa estrutura de sustentabilidade. Para além disso, temos que entender o papel dos entes federativos na complementação. Porque a Aldir Blanc veio para fortalecer e não para substituir. Ela veio para ampliar”, disse o coordenador, que também reforçou a importância de se pensar na formação, na pesquisa e na produção de conhecimento.
Construção coletiva
As atividades do segundo dia ocorreram no Blue Tree Towers Rio Poty e foram dedicadas a debates, construção coletiva de propostas e reflexões sobre os rumos da política Cultura Viva no estado. A segunda mesa temática, intitulada “Cultura Viva, Trabalho e Sustentabilidade: viver de cultura é possível?”, procurou discutir caminhos para fortalecer a economia da cultura e ampliar as políticas públicas voltadas ao setor.
À tarde, as pessoas participantes do fórum se dividiram em grupos de trabalho para debater propostas relacionadas aos eixos temáticos do encontro (governança, trabalho e sustentabilidade), além do tema central desta edição da Teia, “Pontos de cultura pela justiça climática”.
No domingo foi a vez de consolidar as propostas construídas ao longo do encontro e de eleger os representantes que irão compor a nova Comissão Estadual dos Pontos de Cultura. Nos três dias do evento, as atividades foram intercaladas por apresentações artísticas realizadas por pontos de cultura.
A Teia Estadual do Piauí estava marcada para o fim de fevereiro, mas precisou ser reagendada. Com esta, todos os 26 estados brasileiros e o Distrito Federal realizaram suas etapas preparatórias para a 6ª Teia Nacional, elaborando propostas sobre os eixos temáticos e elegendo seus delegados e delegadas para o encontro no Espírito Santo.
