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ANCESTRALIDADE
Política Nacional Aldir Blanc impulsiona projeto que oferece oficinas de tambores afro-brasileiros exclusivas para mulheres em Belém
Foto: Leal Photos
Em Belém, o som do tambor ecoa como memória, rito e identidade. É nesse cenário cultural que o projeto Nzinga: mulheres tocadoras de axé transforma tradição em oportunidade. Com atividades marcadas entre os dias 7 e 10 de fevereiro, em dois terreiros da capital paraense, o Nzinga oferece oficinas gratuitas de iniciação em tambores afro-brasileiros, exclusivas para mulheres, com inscrições realizadas de forma on-line.
Idealizado pela percussionista e pesquisadora Brena Correa, o projeto responde a uma demanda histórica de ampliação da presença feminina nos tambores, espaço tradicionalmente associado à hegemonia masculina dentro das tradições afro-brasileiras. “Sempre houve uma resistência em reconhecer a mulher no tambor. Existem muitas mulheres dentro dos terreiros, com vivência, com escuta, mas que não são estimuladas a ocupar esse lugar”, afirma.
A trajetória de Brena com a percussão começou ainda na infância, em meio ao movimento negro paraense, e se consolidou ao longo de décadas de atuação em bandas e projetos culturais, moldando um olhar sensível sobre gênero, música e ancestralidade. Para ela, as oficinas vão além do aprendizado técnico e representam um processo de pertencimento e visibilidade. “Essas oficinas proporcionam às mulheres o prazer de tocar, de sentir a energia, a vibração que acontece quando o orixá chega. Esse acesso também precisa ser das mulheres”, reforça.
Produzido por Bruna Suelen, o Nzinga foi se fortalecendo até se consolidar com o apoio da Política Nacional Aldir Blanc. “O projeto Nzinga é fruto de um processo que vem sendo construído desde a pandemia. O papel do Ministério da Cultura e da Política Nacional Aldir Blanc foi fundamental, porque a política estimula diretamente o nosso processo criativo e nos dá condições concretas de pensar e executar essa proposta”, explica a produtora executiva.
O projeto viabilizou a realização de pesquisas, a aquisição de instrumentos, o intercâmbio com mestras, a oferta de oficinas, apresentações e rodas de conversa, além da produção da publicação final que sistematiza o percurso do Nzinga. Para Bruna, o impacto da política de fomento vai além da execução do projeto. “A política permite que a arte alcance mais pessoas, transforme mentalidades e fortaleça trajetórias culturais. No contexto da Amazônia, as oportunidades para mulheres negras percussionistas viverem da música são muito reduzidas. Por isso, iniciativas como essa ajudam a ampliar possibilidades, criar redes e fortalecer a economia criativa a partir da cultura e da identidade local”, avalia.
Mesmo com o fortalecimento institucional, os desafios permanecem. Para Bruna Suelen, além das questões estruturais, o racismo ainda impõe barreiras. “Conseguir parcerias é essencial, mas o diálogo com espaços e agentes fora da esfera comunitária ainda é difícil. Mesmo assim, o apoio institucional reforçou a importância do projeto e nos motivou a seguir”, relata. Ela acrescenta: “O projeto é um processo pedagógico de resistência e de fortalecimento do protagonismo feminino, unindo música, identidade, gênero e luta antirracista”, destaca.
Mais do que formação técnica, as oficinas promovem uma experiência sensível e afetiva com a música. A proposta é que cada participante construa sua relação com a percussão a partir da escuta, do corpo e da vivência. “A gente quer que as mulheres ouçam, sintam, gostem de tocar, que se conectem com a música de forma profunda. Não é sobre rigidez técnica, é sobre se reconhecer nesse lugar”, afirma Brena.
Além das atividades práticas, o Nzinga desenvolve uma cartografia social das participantes, a partir dos formulários de inscrição. O objetivo é mapear quantas mulheres tocam ou não tocam nos terreiros da Amazônia, produzindo dados e memórias sobre uma presença historicamente invisibilizada. O ciclo se encerra com um cortejo cultural e a publicação de um material impresso, que documenta a pesquisa e amplia o debate sobre gênero e tradição afro-brasileira.
Descentralização cultural
No Pará, a Política Nacional Aldir Blanc tem contribuído para o fortalecimento de iniciativas culturais de base comunitária e para a ampliação do acesso aos recursos públicos em diferentes territórios do estado. No Ciclo 1 da Política Nacional Aldir Blanc, referente aos recursos repassados aos entes federativos entre os anos de 2023 e 2024, estado e municípios paraenses receberam R$ 125,8 milhões e executaram 100% dos recursos. O estado e todos os municípios do Pará também aderiram ao Ciclo 2 da Aldir Blanc e estão aptos a receber os recursos.
Para a coordenadora do Escritório Estadual do Ministério da Cultura no Pará, Telma Saraiva, a política tem sido fundamental para garantir que a cultura chegue a diferentes realidades. “A Política Nacional Aldir Blanc tem sido fundamental no incentivo aos fazedores e fazedoras de cultura, principalmente por essa descentralização do recurso federal, que consegue chegar a cada canto do nosso estado. É assim que muitas manifestações, que estão nos cantinhos mais distantes do Pará, não desaparecem por falta de incentivo”, afirma.
Para Brena Correa, o caminho aberto pelo Nzinga projeta futuros possíveis. “Queremos formar novas turmas, estabelecer parcerias e ter mais oportunidades de circular por outras cidades e regiões do Brasil. A ideia é fortalecer uma rede de mulheres tocadoras de axé, conectando essas mulheres, dando visibilidade e reconhecimento ao trabalho delas. Que essa rede seja valorizada de fato e que possamos seguir ampliando esse movimento de forma coletiva e contínua”, conclui.