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CULTURA VIVA
Cultura e infância ganham protagonismo em encontro internacional na 6ª Teia Nacional
Foto: Victor Vec/MinC
A relação entre cultura, infância, ancestralidade e sustentabilidade esteve no centro dos debates desta sexta-feira (22), durante o Encontro Internacional Cultura Infância e Natureza: Agir pelo Planeta, realizado na programação da 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura, em Aracruz (ES). Reunindo representantes de redes culturais brasileiras e de países integrantes do programa IberCultura Viva, o encontro reforçou a importância de reconhecer crianças e adolescentes como sujeitos culturais e agentes ativos na construção de respostas à crise climática e aos desafios contemporâneos.
Organizada em formato de roda de conversa, a atividade promoveu trocas de experiências entre pontões, gestores culturais, educadores e representantes de redes internacionais, articulando práticas territoriais, políticas públicas e reflexões sobre direitos culturais.
Na abertura, a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural (SCDC), Márcia Rollemberg, destacou a retomada e o fortalecimento da rede Cultura e Infância dentro da Política Nacional Cultura Viva (PNCV). Segundo ela, o Pontão Arte Brincar integra uma rede de 42 pontões construída ao longo de anos de mobilização e articulação.
“O papel da cultura é dar voz, poder contar as histórias, mostrar danças e saberes, salvaguardar esse conhecimento e protegê-lo intelectualmente”, afirmou. Para Márcia, os direitos culturais fortalecem o conjunto de direitos sociais ao reforçar identidade, memória e pertencimento coletivo: “Queremos que a pauta da criança não esteja só no IberCultura Viva; ela precisa atravessar todos os programas Iber”.
A dimensão internacional do debate foi ressaltada pelo consultor de redes e formação do IberCultura Viva, Diego Benhabib, da Argentina, que enfatizou o papel dos Pontos de Cultura como espaços de escuta ativa e protagonismo das crianças nos territórios.
“Nós dizemos que as organizações comunitárias e os Pontos de Cultura são escolas do território. São espaços de escuta ativa pelas crianças”, declarou.
Também da Argentina, o gestor cultural Raúl Sansica, diretor do Festival Internacional de Teatro para as Infâncias e Juventudes de Córdoba, defendeu a consolidação de uma rede internacional permanente.
“Sabemos que é a infância que renova a humanidade e é a elas que queremos escutar”, disse. Para ele, criar redes é um desafio coletivo que exige continuidade institucional e articulação estratégica entre parceiros públicos e comunitários.
A discussão sobre cultura como dimensão transversal das políticas públicas foi reforçada pela c ofundadora do Grupo Nacional Cultura Infância, da rede Fibra, Red Internacional Cultura Infância, Karen Acioly: “Trabalhar com infância não é infantilizar o discurso. Cultura e infância significam cultura em toda a sua diversidade. A infância é memória. A infância é a identidade de um país”, enfatizou.
A mesa também apresentou experiências práticas desenvolvidas nos territórios.
A estilista ancestral e artesã indígena, Renata Tupinikim, da Aldeia Caieiras Velha, em Aracruz, compartilhou o trabalho desenvolvido com crianças indígenas por meio de oficinas de costura, bordado e criação de livros de tecido que transformam memórias pessoais em narrativas visuais.
“Cada ponto que ensino, eles vão aprendendo e contando sua própria história”, explicou. E, completou: “Eu trago a nossa cultura nos tecidos”.
Da zona rural de João Pessoa (PB), a educadora social Maria da Penha Teixeira de Souza, a Penhinha, apresentou a experiência da Escola Viva Olho do Tempo (Evot), construída com participação ativa das crianças e articulada à tradição oral, à música e à educação territorial.
“A meninada sabe sobre seus direitos porque é importante conversar com ela sobre isso”, assegurou.
O rapper, educador e pesquisador Dudu de Morro Agudo, fundador do Instituto Enraizados, relembrou o papel da cultura na construção de pertencimento e memória periférica.
“Nós precisamos contar nossa própria história”, reconheceu. Para ele, a infância exige escuta genuína: “As crianças estão de olho em tudo, elas enxergam tudo, elas entendem tudo”.
A música e o brincar também ganharam centralidade na fala de Lucilene Silva, coordenadora da Oca Escola Cultural, de São Paulo, que apresentou o trabalho de pesquisa e preservação de repertórios infantis realizado junto a comunidades migrantes.
“A gente sabe que brincar é uma necessidade biológica do ser humano. Nós não deixamos de brincar nenhum dia e estamos ocupando a nossa comunidade”, pontuou.
Outro eixo do encontro foi a reflexão sobre intergeracionalidade. O secretário nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, abordou o combate ao idadismo e defendeu a ampliação de políticas públicas voltadas ao envelhecimento.
“A cultura de valorizar mais a infância e menos a questão do envelhecimento repercute em toda a estrutura da sociedade. Todo mundo envelhece”, discursou.
Ao longo das discussões, participantes defenderam o fortalecimento de redes nacionais e internacionais, a ampliação da escuta das crianças nos processos de formulação de políticas culturais e a integração entre cultura, justiça climática, educação, memória e direitos humanos.
O encontro integrou a programação da 6ª Teia Nacional, realizada pelo Ministério da Cultura, e reforçou o papel da Política Nacional Cultura Viva na promoção de territórios mais diversos, sustentáveis e comprometidos com as futuras gerações.
Teia Nacional
A 6ª Teia Nacional dos Pontos de Cultura reúne agentes culturais, coletivos, mestres e mestras das culturas populares, povos tradicionais, representantes da sociedade civil e gestores públicos de todas as regiões do Brasil.
O evento é uma realização do Ministério da Cultura, do Governo do Estado do Espírito Santo, da Prefeitura de Aracruz e da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC), em parceria com o Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes), o Sesc, Unesco e o programa IberCultura Viva.