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EDUCAÇÃO
Comunidade quilombola de Curuçá (PA) conquista primeira turma de ensino médio
Foto: Carlos Titila
Reconhecida oficialmente como comunidade quilombola em 2025 pela Fundação Cultural Palmares, entidade vinculada ao Ministério da Cultura (MinC), a comunidade de Algodoal, no município de Curuçá, nordeste do Pará, iniciou sua primeira turma de ensino médio na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA). A aula inaugural, realizada no dia 5 de março, marcou o início das atividades para moradores que não tiveram oportunidade de concluir os estudos na idade regular e que agora passam a ter acesso à educação dentro do próprio território.
A turma reúne 18 estudantes, com idades entre 18 e 65 anos, e funciona nas dependências da Escola Municipal de Algodoal. Antes da implantação da iniciativa, quem desejava continuar os estudos precisava se deslocar para outras localidades do município, o que tornava o acesso à educação mais difícil e muitas vezes inviável.
Após o reconhecimento oficial do território como quilombola, os moradores passaram a retomar a trajetória escolar. No ano passado, os estudantes concluíram o ensino fundamental por meio da Educação de Jovens e Adultos oferecida pela rede municipal. A demanda pela continuidade dos estudos levou à articulação com a Coordenação de Educação do Campo e com áreas da política educacional para viabilizar a criação da turma de ensino médio destinada aos estudantes quilombolas.
Localizada a cerca de 22 quilômetros da sede de Curuçá, na região conhecida como Ilha de Fora, a comunidade é formada por descendentes de moradores do antigo mocambo do Mocajuba, considerado um dos maiores quilombos do nordeste paraense, segundo registros do historiador Vicente Salles. O reconhecimento oficial concedido pela Palmares permite que o território tenha acesso a políticas públicas voltadas à promoção de direitos, à valorização da cultura e ao fortalecimento das comunidades tradicionais.
Para o presidente da Fundação Cultural Palmares (FCP), João Jorge, a criação da primeira turma de ensino médio no território representa um passo importante na superação de desigualdades históricas. “A criação da primeira turma de ensino médio para jovens e adultos em uma comunidade quilombola de Curuçá representa uma vitória importante da ideia de que a educação é um dos caminhos mais eficazes para enfrentar o racismo e as desigualdades históricas do país, ao mesmo tempo em que promove desenvolvimento social. Não é mais possível admitir que as pessoas permaneçam isoladas do acesso à educação e, consequentemente, afastadas das oportunidades e da participação plena na sociedade”, afirma.
Segundo ele, a iniciativa também reflete décadas de mobilização das próprias comunidades quilombolas e de instituições públicas voltadas à promoção da igualdade racial. “Essa conquista é resultado de uma longa trajetória de luta das comunidades quilombolas, das organizações que combatem o racismo e de instituições como a Fundação Cultural Palmares, que atua na promoção da igualdade e na valorização dessas comunidades. Criada em 22 de agosto de 1988, a Fundação foi a primeira instituição de ação afirmativa do Governo do Brasil e tem como um de seus princípios fundamentais proteger e estimular o desenvolvimento das comunidades quilombolas. Esperamos que essa experiência se multiplique pelo país, ampliando oportunidades e fortalecendo ainda mais os territórios quilombolas”, declara.
Além de ampliar o acesso à educação, iniciativas que levam o ensino para dentro das próprias comunidades contribuem para fortalecer os vínculos territoriais e incentivar que as novas gerações permaneçam em seus locais de origem.
O coordenador de Certificação Quilombola da Fundação Cultural Palmares, Alan Matos, explica que políticas educacionais voltadas aos territórios tradicionais têm impacto direto na autonomia das comunidades e no fortalecimento da identidade cultural quilombola. “Essas iniciativas contribuem bastante para o fortalecimento da identidade cultural e da autonomia das comunidades quilombolas, principalmente entre os mais jovens. É muito comum que a nova geração precise sair da comunidade em busca de melhores condições de ensino”, afirma.
Ele observa que muitos estudantes conseguem avançar na trajetória educacional quando têm acesso a políticas de inclusão. “Muitos desses jovens conseguem avançar nos estudos e até chegar à universidade por meio das políticas de cotas raciais e das cotas específicas para quilombolas”, diz.
Para o professor e diretor da Escola Raimunda Sena da Silva, unidade sede à qual a Escola Estadual Rural de Curuçá está vinculada, Paulo Henrique Barbosa, a implantação da turma representa uma conquista histórica para a região. “A implantação da primeira turma de Educação de Jovens e Adultos do ensino médio quilombola, na modalidade profissionalizante, representa um passo muito importante para a nossa comunidade”, afirma.
Segundo ele, a iniciativa atende a uma demanda antiga da população local. “Essa conquista só foi possível após o reconhecimento da comunidade como quilombola e do diálogo com a Secretaria de Estado de Educação para atender uma demanda histórica da região”, declara.
Entre os estudantes da nova turma, o sentimento é de conquista. Para muitos moradores, o ensino médio dentro do próprio território era um sonho antigo. “Para nós, moradores da comunidade remanescente quilombola de Algodoal, na Ilha de Fora, este é um momento muito especial. É um sonho que está se tornando realidade dentro da nossa comunidade”, conta a aluna Regina Assunção, de 55 anos.
De acordo com ela, durante muito tempo o acesso à educação foi limitado. “Aqui nós só tínhamos ensino até a quinta série e agora vamos ter o ensino médio. Isso representa uma grande conquista e uma felicidade muito grande para todos nós que vivemos aqui”, afirma.
O diretor da escola, Paulo Henrique Barbosa, também destaca o significado social da iniciativa para os moradores da região. “Para nós, significa também o pagamento de uma dívida histórica com essas populações, garantindo a democratização do ensino e o acesso à educação para comunidades do interior que, durante muito tempo, tiveram esse direito limitado por questões geográficas e pela ausência de políticas públicas voltadas aos territórios tradicionais”, diz.
O professor acrescenta: “a educação abre caminhos para que essas pessoas possam continuar os estudos e realizar sonhos que, por muitos anos, foram silenciados”, afirma.
A estudante Regina Assunção espera ainda que a iniciativa fortaleça o reconhecimento da comunidade. “Esperamos que essa oportunidade ajude a mostrar que nossa comunidade tem valor, que as pessoas olhem para nós com mais atenção e respeito e que nossas necessidades sejam reconhecidas”, declara.
Alan Matos ressalta que a certificação das comunidades quilombolas realizada pela Fundação Cultural Palmares é um passo fundamental para ampliar o acesso a políticas públicas. “A certificação das comunidades quilombolas funciona como porta de entrada para o acesso a diversas políticas públicas”, explica.
Segundo ele, diferentes iniciativas federais integram essa rede de apoio aos territórios quilombolas. “A cartilha do programa Aquilomba Brasil, atualizada em 2025 pelo Ministério da Igualdade Racial em parceria com outros órgãos, reúne atualmente cerca de 58 políticas públicas voltadas para comunidades quilombolas, incluindo iniciativas como o Minha Casa Minha Vida Rural para quilombolas, o Bolsa Família e outras ações voltadas para inclusão social, educação e desenvolvimento dos territórios”, afirma.
A criação da turma marca um avanço no acesso à educação em territórios quilombolas e reforça a importância de políticas públicas voltadas à ampliação de oportunidades para essas comunidades, fortalecendo vínculos com o território e valorizando sua história e identidade cultural.
