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CINEMA BRASILEIRO
Carolina Maria de Jesus ecoa em Cannes e leva ao mundo a voz que o Brasil nunca deveria ter silenciado
Foto: Divulgação
Há histórias que atravessam o tempo. Outras, atravessam oceanos. E há aquelas raras que fazem as duas coisas ao mesmo tempo.
A trajetória de Carolina Maria de Jesus, mulher negra, escritora, catadora de papel, mãe solo e autora de uma das obras mais contundentes da literatura brasileira, acaba de conquistar mais um capítulo histórico: o longa-metragem inspirado em sua vida foi premiado no Marché du Film, durante o Festival de Cannes, um dos principais espaços de mercado do audiovisual mundial.
Ainda em fase de pós-produção, o reconhecimento internacional consagra uma obra que já nasce carregada de memória, urgência e potência simbólica. Coproduzido pela Globo Filmes, com direção de Jeferson De, roteiro de Maíra Oliveira, protagonizado por Maria Gal e produção de Clélia Bessa, da Raccord Produções, o filme conta com apoio da Lei Paulo Gustavo, política pública do Ministério da Cultura que vem fortalecendo a retomada do setor audiovisual brasileiro.
Mais do que um prêmio, a conquista sinaliza que a voz de Carolina segue viva — e necessária.
Para Maria Gal, atriz que interpreta a escritora e também integra a produção do longa, o reconhecimento chega como confirmação de algo que sempre esteve ali: a força universal da obra de Carolina.
“Receber esse prêmio tem um significado muito profundo para toda a equipe. Mostra que essa história já está atravessando fronteiras e despertando conexão internacional antes mesmo do lançamento oficial. Carolina escreveu sobre o Brasil, mas falava sobre humanidade, fome, dignidade, maternidade, sobrevivência e sonho — temas universais que atravessam culturas, idiomas e fronteiras”, celebra.
Interpretar Carolina exigiu de Maria Gal um processo de preparação intenso, físico e emocional, construído ao longo de quase um ano com profissionais do Brasil e dos Estados Unidos. Houve estudo rigoroso da obra, imersões urbanas, releituras, vídeos, pesquisa de contexto e transformação corporal.
“Caminhei pelas ruas de São Paulo e do Rio como Carolina fazia, observando silêncios, olhares e invisibilidades. Foi uma experiência profundamente impactante e humana”, conta.
Mas, para além da reconstrução histórica, o mergulho revelou uma dimensão que muitas vezes escapa às leituras superficiais sobre a escritora: “O que mais me atravessou foi a potência intelectual, emocional e espiritual dela. Carolina sonhava, desejava, amava e observava o mundo de maneira extremamente sofisticada. Mesmo vivendo em condições tão difíceis, nunca abriu mão da própria voz”.
Essa dimensão humana também guiou o trabalho da roteirista Maíra Oliveira, que integra o projeto há cerca de seis anos e mergulhou na obra Quarto de Despejo para construir uma narrativa cinematográfica inspirada na escritora.
“Carolina é infinita. O filme é um recorte inspirador, mas não encerra sua fabulação. Existem muitas Carolinas ainda por serem contadas", enfatiza. Segundo ela, um dos principais desafios foi encontrar um recorte possível dentro da grandeza da personagem.
A roteirista destaca que a adaptação buscou enfatizar justamente uma Carolina para além da fome e da escassez.
“Era fundamental mostrar uma mulher extremamente criativa e inventiva, que usava a imaginação como sobrevivência. Uma intelectual com visão de mundo muito à frente do seu tempo”, explica.
O Brasil que se vê no espelho
Para Maíra, o prêmio em Cannes tem um significado que vai além do êxito artístico. Ele reafirma a centralidade das políticas públicas no fortalecimento do cinema nacional.
“Mais do que olhar para o prêmio internacional, é preciso enaltecer o fomento público que tornou possível que essa história fosse contada com autonomia criativa e financeira. Sem isso, não teríamos como contar a história da maior escritora brasileira”, afirma.
O longa também recebeu apoio à internacionalização por meio da Spcine. A presidente da empresa pública, Anna Paula Montini, destaca que garantir a presença de produções brasileiras em mercados estratégicos é parte central da política de desenvolvimento econômico do audiovisual.
“A indústria não investe naquilo que não conhece. Viabilizar a participação internacional de projetos como Carolina Maria de Jesus é um passo estratégico para fortalecer nossa indústria e reafirmar, em escala mundial, a potência e a diversidade das histórias do audiovisual brasileiro”, destaca.
Para ela, o reconhecimento em um espaço como Cannes evidencia a maturidade criativa do cinema nacional: “Essa premiação ressalta o caráter universal das nossas histórias, capazes de emocionar pessoas de diferentes partes do mundo. Narrativas como a de Carolina consolidam o Brasil como um polo criativo de vanguarda”.

- Foto: Divulgação
Fomento que projeta histórias brasileiras para o mundo
A conquista de Carolina Maria de Jesus em Cannes também revela a potência das políticas públicas de incentivo que vêm fortalecendo o audiovisual nacional e ampliando a presença brasileira nos principais circuitos internacionais.
O longa conta com apoio da Lei Paulo Gustavo, política pública coordenada pelo Ministério da Cultura que impulsiona a retomada e o fortalecimento do setor cultural em todo o país, estimulando a produção de narrativas brasileiras diversas e socialmente relevantes.
Registrado junto à Agência Nacional do Cinema (Ancine), o projeto já captou R$ 6.361.955,00 por meio de mecanismos de incentivo fiscal e está em fase de contratação de R$ 4 milhões em recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) para sua produção.
Os investimentos reforçam o papel estratégico do fomento público na consolidação de obras autorais capazes de dialogar com o mercado internacional sem abrir mão de sua identidade criativa e de seu compromisso com a memória cultural brasileira.
No caso de Carolina Maria de Jesus, esse apoio tem sido decisivo para transformar em linguagem cinematográfica a trajetória de uma das maiores escritoras do país, permitindo que sua história alcance novos públicos e reafirme, no cenário global, a força simbólica da cultura brasileira.
Como destaca a roteirista Maíra Oliveira, o reconhecimento internacional é também resultado direto desse modelo de fortalecimento do setor: “Mais do que olhar para o prêmio internacional, é preciso enaltecer o fomento público que fez possível que histórias autorais fossem realizadas com autonomia criativa e financeira. Sem isso, não poderíamos contar a história da maior escritora brasileira”.
Quando uma mulher negra se move
Há mais de uma década, o projeto vem sendo construído por uma articulação coletiva que reuniu produtoras, roteiristas, artistas e instituições públicas e privadas em torno de um mesmo propósito: fazer com que Carolina voltasse a falar para o mundo.
Para Maíra Oliveira, há um simbolismo incontornável nisso:
“Quando uma mulher negra se movimenta, mexe-se toda a estrutura”.
A frase de Angela Davis, evocada pela roteirista, parece encontrar eco exato neste momento.
A escritora que transformou a fome em literatura e a exclusão em documento histórico agora ganha as telas do cinema mundial. E talvez seja essa a maior vitória: Carolina continua escrevendo o Brasil — agora, projetada em luz sobre o mundo.