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DIÁLOGO
1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira reúne representantes de pontos e pontões de cultura de todas as regiões do país
Foto: Victor Vec/ MinC
Mestres e mestras de todas as regiões do Brasil participaram da 1ª Pré-Teia Nacional da Capoeira, realizada nesta terça-feira (03), em formato on-line. O encontro, que teve três horas de duração, foi transmitido pelo canal do Pontão de Cultura Ubuntu – Valorizando Trajetórias, Preservando Memórias no Youtube. Os debates foram pensados como parte da preparação para a 6ª Teia Nacional - Pontos de Cultura pela Justiça Climática, que ocorrerá em Aracruz, no Espírito Santo.
O evento teve como foco principal a luta em defesa da justiça climática e o combate ao racismo ambiental, levando em conta a forte atuação dos pontos de cultura da capoeira em diversos territórios pelo país. O anfitrião Luís Cláudio de Oliveira, coordenador-geral do Pontão, foi quem mediou a conversa. Representando o Ministério da Cultura (MinC), participaram João Pontes, diretor da Política Nacional Cultura Viva, e Tião Soares, diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares.
O sociólogo Luiz Renato Vieira, mestre do Grupo Beribazu, de Brasília, foi convidado a falar sobre capoeira e políticas públicas, seu tema de estudo desde a década de 1980. “Felizmente, nós vivemos um ciclo democrático e substancialmente preocupado com a participação popular na consolidação das políticas públicas que nós já havíamos construído em outros momentos e que ressurgiram com a força da mobilização popular”, destacou.
Retomada do GT
Tião Soares, diretor de Promoção das Culturas Tradicionais e Populares no MinC, abriu o encontro registrando sua alegria em torno de um dos principais temas deste debate: a retomada do Grupo de Trabalho (GT) da Capoeira na Comissão Nacional dos Pontos de Cultura (CNPdC) e a proposta de incluí-lo na reestruturação do Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC).
“Ainda não é uma conquista definitiva, mas, a priori, é o começo de um processo, fruto da mobilização de muita gente que resiste, trabalha e luta para que a capoeira e outras culturas tradicionais e populares sejam reconhecidas como saberes vivos dentro da política pública e nos espaços educativos do Brasil”, celebrou.
Segundo ele, a capoeira é muito mais do que uma prática corporal. “É memória histórica, resistência, linguagem musical, ética comunitária, método pedagógico. Sua transmissão ocorre em rodas, terreiros, praças e pontos de cultura, espaços onde se aprende história, cidadania e afetos de forma bastante integrada com a educação, a saúde e a sociedade”, ressaltou, lembrando que é preciso uma mobilização contínua para fortalecer as redes, colocar as mestras e os mestres no centro das decisões e exigir políticas públicas concretas que respeitem e sustentem a vida cultural nas comunidades.
Papel estratégico
João Pontes, por sua vez, saudou a iniciativa dos realizadores desta Pré-Teia, enfatizando que a capoeira tem papel importante e estratégico na Política Nacional Cultura Viva, e na cultura brasileira como um todo. Ele lembrou que no início do primeiro governo Lula (em 2003), mestres de capoeira tinham uma incidência junto a Gilberto Gil e Juca Ferreira, então ministro da Cultura e secretário-executivo do MinC, e cobravam políticas públicas que atendessem as demandas das culturas tradicionais e populares. “Um dos primeiros editais da Cultura Viva, de fato, foi para a capoeira da Bahia”, recordou.
“Se não é o primeiro, está entre os primeiros grupos culturais que mais têm expressão e representatividade no país. No Brasil, onde a gente pisa, sempre tem um grupo, um mestre de capoeira. E fora do país também tem uma projeção importante. Quando a capoeira chega, é com presença, com o corpo, a técnica, a língua, os movimentos, a música, a cultura alimentar”, frisou o diretor.
Em sua intervenção no encontro, ele também chamou a atenção para o fato de que a Política Nacional Cultura Viva vive o seu melhor momento, “do ponto de vista da organização, da estruturação, do fomento e do reconhecimento”, operando em mais de mil municípios, via Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB), nas 27 unidades federativas.
Passado e futuro
Ao falar das Teias e Fóruns Estaduais de Pontos de Cultura que se realizaram em todos os estados e no Distrito Federal (só faltando a Teia do Piauí, que ainda ocorrerá este mês), João Pontes enfatizou a eleição de 30 delegados e delegadas por estado. Essas pessoas estarão reunidas na 6ª Teia nacional, no Espírito Santo, momento que ele considera propício para fazer um balanço, um diagnóstico do que se passou nesses 21 anos de Cultura Viva, e especialmente nestes três anos de governo do presidente Lula, e também projetar o futuro.
O diretor da PNCV destacou como um dos avanços desta gestão o lançamento da Bolsa Cultura Viva para Mestras e Mestres, instrumento que garante um pagamento mensal às pessoas contempladas para que realizem atividades em escolas, pontos de cultura e outros espaços, reforçando a importância do compartilhamento de saberes e do fortalecimento da ancestralidade.
Um dos desafios, segundo ele, seria pensar em quais medidas de participação popular poderiam ser adotadas para superar os editais – até então a forma mais democrática e republicana de acesso aos recursos públicos, “mas também contraditória, por reproduzir a lógica da linguagem escrita, um tipo de planejamento que não diz respeito, muitas vezes, aos saberes populares orgânicos”.
Fortalecimento da rede
Na sequência, Dilma Negreiros, presidente do Pontão de Cultura CIEMH2 Núcleo Cultural e integrante da Comissão Nacional de Pontos de Cultura, falou da importância da acessibilidade cultural e do trabalho que vem sendo feito por pontões de cultura, como o Ubuntu, para o reconhecimento de mestres e mestras. “Em muitas comunidades temos mestres e mestras que não passaram pela academia, mas têm um conhecimento imenso e precisam de oportunidades para passá-lo adiante. E a gente tem conseguido chegar nos territórios, conversar sobre direitos, sobre cidadania, informar o quanto é importante estar aí, ter essa possibilidade de certificação, estar dentro da Política Nacional Cultura Viva, que nos fortalece. É importante esse trabalho de formiguinha, de estar nos lugares, conversar e mostrar que é preciso ampliar”, observou.
Como participante da Comissão Nacional dos Pontos de Cultura, Dilma disse que percebe cada vez mais como é fundamental estar em rede e fortalecê-la. “Nos firmamos durante a pandemia porque somos rede, não sucumbimos, o Ministério da Cultura acabou e continuamos na luta firme. Somos resistentes, somos fortes, mas precisamos estar nas instâncias de debate, de proposições de políticas públicas, para que os nossos trabalhos, as nossas vivências, sejam colocados em pauta e as políticas nos contemplem. É preciso estar junto, vir, falar do jeito que está acostumado a falar, colocar a realidade do nosso fazer, para não depender da narrativa do outro”.
Racismo ambiental
A professora Silvany Euclênio, coordenadora do Pontão de Cultura Ancestralidade Africana no Brasil, dedicou boa parte de sua fala à questão do racismo ambiental, um tema importante que permeia a sexta edição da Teia Nacional dos Pontos de Cultura. Ela explicou que a expressão surgiu na década de 1980, nos Estados Unidos, a partir das lutas dos movimentos negros contra a instalação de depósitos de lixo tóxico, de indústrias poluentes, principalmente nos territórios habitados pela população negra.
“No Brasil, a gente identifica isso, por exemplo, nos territórios quilombolas afetados por mineração, por grandes obras, nos territórios indígenas impactados por desmatamento, por hidrelétricas. Nas nossas periferias urbanas, também impactadas pela ausência de política pública, expostas a enchentes, lixões, ausência de saneamento. Nos nossos territórios tradicionais de matriz africana, atingidos por especulação imobiliária, contaminação, precarização territorial. É disso que tratamos quando falamos de racismo ambiental: da forma seletiva como a violência impacta determinados territórios”, esclareceu.
Em suas aulas, Silvany costuma comentar como a capoeira é pedagógica, como uma pequena roda consegue ser inclusiva. “Ali cabem pessoas de diferentes origens étnico-raciais, estaturas e idades, com ou sem deficiência, altas e baixas. Todas cabem e harmonizam dentro daquela roda”, observou, destacando a capoeira como algo que nasce da resistência, “é reinvenção da vida em contextos de violência, corpo, território e movimento o tempo todo”, e que pode ter um papel estratégico na questão climática e ambiental.