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FUTURO VERDE
Contribuição das tecnologias nucleares para um futuro sustentável chega a diversas áreas
“Átomos para um Futuro Verde: O Papel Estratégico das Tecnologias Nucleares em um Mundo Sustentável” foi o tema da mesa de discussões nesta terça-feira (25/08), durante a Conferência Internacional Nuclear do Atlântico (INAC 2026), na Escola de Guerra Naval (EGN), no Rio de Janeiro. O foco das discussões foram as contribuições das tecnologias nucleares para além da geração de eletricidade.
O debate reuniu Carlos Freire, da Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), como mediador; Gabriela Borsatto, Coordenadora-Geral de Aplicações das Radiações Ionizantes da CNEN; Sérgio Antônio Frazão Araújo, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI); e Marcelo Gomes, da Eletronuclear. Entre os temas discutidos estiveram as perspectivas para o setor nuclear brasileiro, as aplicações das tecnologias nucleares em diferentes áreas, a cooperação internacional e os mecanismos de controle e segurança.
Cenário favorável e novos agentes para o setor
Gomes destacou um cenário positivo para o desenvolvimento do setor nuclear. Entre os fatores que contribuem para esse contexto, citou o aumento da aceitação social da tecnologia nuclear, a necessidade de renovação das matrizes energéticas e o surgimento de novas tecnologias. Segundo ele, esse momento também exige a ampliação do diálogo com áreas que tradicionalmente não estão tão próximas da atividade nuclear. A aproximação com profissionais de segmentos como tecnologia da informação e finanças, por exemplo, pode contribuir para trazer novos agentes e competências.
Ao discutir as oportunidades para o Brasil no contexto de um futuro verde, o representante da Eletronuclear citou como exemplo internacional o projeto de Small Modular Reactors (SMR) no Uzbequistão. Ele também destacou o Brasil como referência em programas nucleares, ressaltou a importância das fontes renováveis na matriz elétrica brasileira e defendeu a energia nuclear como uma fonte limpa, confiável, de baixa emissão de carbono e uma oportunidade estratégica para o país.
Para Gomes, é necessário avançar na revisão do arcabouço normativo brasileiro, a fim de criar condições para a participação de agentes privados no setor, mas sem deixar de resguardar os interesses nacionais. Em sua fala, ele também defendeu a formulação de data centers com o uso de energia nuclear e ressaltou a importância da regulação e de uma resposta institucional, após a implementação dos projetos, para que se possa avaliar o que mudou com sua aplicação. Segundo ele, as empresas precisam incorporar o conhecimento adquirido.
Controle de bens sensíveis e uso pacífico
A discussão também abordou os mecanismos de controle associados às tecnologias nucleares. Araújo explicou o conceito de “bens sensíveis”, que inclui equipamentos, materiais, tecnologias e outros itens que podem ser empregados na produção de armas de destruição em massa ou em seus meios de transporte.
Por essa razão, esses bens estão sujeitos a mecanismos específicos de controle, com o objetivo de evitar desvios de finalidade e assegurar seu uso autorizado e pacífico. Nesse contexto, o Brasil conta com a Comissão Interministerial de Controle de Exportação de Bens Sensíveis (CIBES), responsável por analisar e deliberar sobre questões relacionadas ao controle das exportações desses bens.
O tema foi relacionado pelo moderador da mesa, Freire, à própria característica do setor nuclear. Ao comentar os riscos envolvidos, ele destacou que, na área nuclear, um pequeno deslize pode assumir grandes proporções, reforçando a importância de mecanismos de controle capazes de prevenir intercorrências.
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As diversas aplicações das tecnologias nucleares
Ao abordar o papel das tecnologias nucleares em um futuro sustentável, Borsatto chamou atenção para a associação frequente entre tecnologia nuclear e geração de eletricidade e enfatizou a capacidade de a energia nuclear formular respostas para um futuro verde, inclusive com a utilização desta fonte de energia para a preservação de obras de arte. Segundo a representante da CNEN, embora a energia nuclear possa contribuir para uma matriz elétrica de baixa emissão de carbono, limitar o debate às usinas significa deixar de considerar um conjunto amplo de aplicações que já produzem benefícios em áreas como saúde, segurança alimentar, agricultura e meio ambiente.
Na saúde, destacou a medicina nuclear, a radioterapia e os radiofármacos, utilizados no diagnóstico e tratamento de diferentes doenças, especialmente o câncer. Borsatto ressaltou que essas aplicações também devem ser compreendidas dentro do conceito de desenvolvimento sustentável. Para ela, sustentabilidade não se restringe às condições ambientais, mas envolve também qualidade de vida, acesso à saúde e redução de desigualdades. “Se uma tecnologia permite ampliar a capacidade de atendimento e salvar vidas, estamos falando de desenvolvimento sustentável em sentido bastante concreto”, afirmou.
Na agricultura, ela destacou que técnicas nucleares e isotópicas permitem estudar o comportamento dos nutrientes no solo, identificar formas mais eficientes de utilização de fertilizantes e aprimorar o manejo da água. Essas ferramentas podem contribuir para aumentar a produtividade ao mesmo tempo em que reduzem a pressão sobre os recursos naturais.
Borsatto também apresentou a técnica do inseto estéril, utilizada no controle de determinadas pragas agrícolas. Nesse método, insetos são esterilizados por irradiação e posteriormente liberados para reduzir, ao longo do tempo, a reprodução da população da praga. A estratégia pode contribuir para diminuir a necessidade de determinados defensivos químicos. Durante a mesa, ela também citou um projeto-piloto a ser realizado em Fernando de Noronha (PE).
Outra aplicação destacada pela representante da CNEN foi a irradiação de alimentos, que pode auxiliar no controle de microrganismos e pragas, prolongar a vida útil dos produtos e reduzir perdas. Borsatto chamou atenção para uma dúvida comum sobre o processo: alimentos irradiados não se tornam radioativos. A irradiação é realizada de forma controlada e pode ser utilizada como ferramenta de conservação e segurança dos alimentos.
Ela explicou, ainda, que técnicas isotópicas podem ser empregadas para compreender a origem e a dinâmica dos recursos hídricos, identificar fontes de contaminação, acompanhar processos de degradação, sendo também utilizadas em estudos de ambientes marinhos, poluição e mudanças nos ecossistemas.
A importância da cooperação internacional
Segundo a representante da CNEN, iniciativas de cooperação inernacional permitem reunir metodologias, especialistas e informações para compreender problemas ambientais compartilhados. “Problemas ambientais não respeitam fronteiras entre países”, destacou.
Para ela, a cooperação técnica é especialmente relevante no setor nuclear porque o desenvolvimento e a aplicação dessas tecnologias exigem conhecimento especializado, infraestrutura, formação continuada e padrões elevados de segurança. Nem todos os países possuem, isoladamente, todas essas capacidades. Por isso, a cooperação permite aproximar competências distribuídas entre diferentes instituições e países. Uma instituição pode ter experiência em determinada técnica, enquanto outra dispõe de infraestrutura específica ou atua diretamente sobre uma necessidade em saúde, agricultura ou meio ambiente.
Na América Latina e no Caribe, Borsatto citou o Acordo Regional de Cooperação para a Promoção da Ciência e Tecnologia Nucleares (ARCAL) como exemplo dessa construção coletiva. O programa reúne países da região em projetos voltados a necessidades compartilhadas, abrangendo áreas como saúde, segurança alimentar, agricultura, meio ambiente e aplicações industriais.
Borsatto ressaltou, porém, que a cooperação não deve ser entendida apenas como transferência de equipamentos ou realização de cursos. Para produzir resultados duradouros é necessário que as instituições tenham condições de incorporar o conhecimento, manter equipamentos, formar novas equipes e dar continuidade às atividades.
Nesse sentido, defendeu que os projetos sejam avaliados também pelos impactos gerados, como ampliação de capacidades, melhoria dos serviços, formação de novas redes e continuidade dos resultados após o encerramento das iniciativas.
Tornar as aplicações mais visíveis
Para Borsatto, essas tecnologias também devem ser compreendidas como instrumentos científicos capazes de apoiar políticas públicas, melhorar o uso dos recursos naturais, ampliar o acesso à saúde e fortalecer a segurança alimentar. “O desafio é tornar essas contribuições mais visíveis. Porque, muitas vezes, a tecnologia nuclear já está presente na vida das pessoas, mas elas não identificam”, afirmou. E completou: “Aproximar a tecnologia de seus benefícios concretos é fundamental para tornar o debate mais compreensível para a sociedade, permitindo que a população reconheça aplicações nucleares que já fazem parte do cotidiano”.
CNEN participa de diferentes atividades da INAC 2026
A mesa “Átomos para um Futuro Verde: O Papel Estratégico das Tecnologias Nucleares em um Mundo Sustentável” integrou a programação da INAC 2026, que reúne, ao longo da semana, representantes de instituições de pesquisa, governo, indústria e academia para discutir diferentes aspectos da ciência, tecnologia e aplicações nucleares. A CNEN participa de diversas atividades da programação, incluindo mesas, palestras e apresentação de trabalhos.
Sobre a INAC 2026
A Conferência Internacional Nuclear do Atlântico (INAC 2026) é realizada de 24 a 28 de agosto, na Escola de Guerra Naval (EGN), no Rio de Janeiro, com o tema “Energia Nuclear: Átomos para um Futuro Verde”. Organizado pela Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), o evento reúne representantes da academia, da indústria, do governo e de instituições de pesquisa do Brasil e do exterior para discutir avanços, desafios e perspectivas para o setor nuclear.
A edição de 2026 conta com o XXIV Encontro de Física de Reatores e Termohidráulica (ENFIR), o XVII Encontro de Aplicações Nucleares (ENAN), o IX Encontro da Indústria Nuclear (ENIN), a XI Sessão Técnica de Pôster Júnior e a XII ExpoINAC.
Realizada a cada dois anos, a INAC constitui um espaço de intercâmbio de conhecimento, desenvolvimento profissional e colaboração nas áreas de ciência, tecnologia e aplicações nucleares.