Notícias
ECONOMIA CIRCULAR
Materiais radioativos de ocorrência natural no descomissionamento da indústria de óleo e gás
A gestão de material radioativo de ocorrência natural (NORM, na sigla em inglês) no descomissionamento de instalações de petróleo e gás foi tema de discussão no dia 26 de agosto, durante a Conferência Internacional Nuclear do Atlântico (INAC 2026), na Escola de Guerra Naval (EGN), no Rio de Janeiro. Com o tema “NORM na Indústria de Petróleo e Gás, Descomissionamento e Economia Circular”, a mesa foi moderada por Paulo Roberto Rocha Ferreira (CNEN) e reuniu Ana Carolina Castello Bastos (CESS/UFF), Mykaella Martins Sbardelotto Pagotto (TechnipFMC), Denise de Castro Bertagnolli (CESS/UFF), Geane Cristina Fayer (ArcelorMittal) e Newton Narciso Pereira (CESS/UFF).
Na abertura das discussões, Denise de Castro Bertagnolli destacou os desafios associados ao descomissionamento no setor de óleo e gás. Segundo ela, nos próximos anos deverá ampliar a quantidade de materiais a serem gerenciados. Nesse cenário, identificar e conhecer esses materiais é fundamental para o gerenciamento de riscos, envolvendo aspectos de segurança, conformidade, sustentabilidade e economia circular.
Entre os temas abordados por Bertagnolli, estiveram o inventário de materiais perigosos e a presença de NORM em diferentes componentes e materiais relacionados à produção de petróleo e gás. Entre os locais em que pode ocorrer concentração desses materiais, incrustações em tubulações, separadores de produção, trocadores de calor, tratadores de óleo, bombas, sistemas de tratamento da água produzida e borra oleosa.
A especialista também ressaltou a importância de considerar toda a cadeia de gestão dos materiais, que envolve diferentes etapas e atores, desde o operador offshore e a empresa responsável pelo descomissionamento até o transporte, o estaleiro, o reciclador e a destinação final. A Convenção de Hong Kong, mencionada durante a mesa, entrou em vigor em 2025 e estabelece requisitos internacionais para a reciclagem segura e ambientalmente adequada de navios.
Na sequência, Newton Narciso Pereira apresentou possibilidades de aplicação de tecnologias digitais ao descomissionamento offshore. O uso da Internet das Coisas (IoT), associado à conectividade, à análise de dados e à inteligência artificial, pode contribuir para a rastreabilidade dos materiais e ampliar a visibilidade sobre as diferentes etapas do canal reverso.
Entre as tecnologias apresentadas estiveram sistemas de identificação por radiofrequência e comunicação por aproximação, além de drones, robôs quadrúpedes e do Sistema de Gestão de Inventário de Materiais e Processos. As ferramentas buscam contribuir para o acompanhamento dos materiais e processos envolvidos no descomissionamento.
Castello Branco destacou a necessidade de integração entre diferentes áreas para enfrentar os desafios relacionados à gestão de NORM. Segundo ela, encontros que reúnem representantes de diferentes setores são importantes para a construção de soluções para uma questão que envolve proteção radiológica, gestão de materiais, descomissionamento e economia circular.
Ao abordar o conceito de circularidade segura, Bastos discutiu como maximizar a reutilização e a reciclagem de materiais provenientes do descomissionamento sem transferir o risco radiológico para a próxima etapa da cadeia. A pesquisadora sintetizou essa abordagem em quatro etapas: conhecer, planejar, controlar e decidir. Segundo ela, a gestão baseada em risco permite conciliar economia circular e proteção radiológica, com base em informações que subsidiem decisões seguras e proporcionais ao risco.
Um dos pontos destacados pela pesquisadora foi a dificuldade de identificar NORM apenas por meio de medições externas, já que sua presença no interior de equipamentos pode não ser detectada adequadamente devido a fatores como espessura, geometria, acessibilidade, revestimentos e isolamentos, além das características dos fluidos, da umidade e da distribuição do depósito. Segundo ela, quando a identificação ocorre apenas após o corte ou a desmontagem, perde-se a possibilidade de planejar previamente a intervenção. Nesse contexto, ressaltou que o dado radiológico precisa subsidiar decisões de gestão.
A especialista também destacou a necessidade de integração entre os diferentes atores envolvidos na economia circular: operador ou concessionária, empresas de descomissionamento, profissionais de proteção radiológica, laboratórios, portos e estaleiros, recicladores, gestores de resíduos e órgão regulador.
A discussão ocorreu em um momento de atualização do marco regulatório brasileiro para a gestão de NORM. Em 2026, a Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) publicou a Resolução ANSN nº 14, de 31 de março, que estabelece requisitos para o registro de instalações, a proteção radiológica e o gerenciamento de resíduos e rejeitos NORM nas atividades de exploração e produção de petróleo e gás natural, incluindo o descomissionamento de instalações. Complementarmente, a Portaria ANSN nº 44/2026 aprovou um guia regulatório com requisitos técnicos e orientações complementares para a aplicação da resolução.
Ao reunir representantes de diferentes setores, a mesa da INAC 2026 evidenciou que a gestão de NORM no descomissionamento envolve desafios que vão além do controle radiológico. O processo exige conhecimento e rastreabilidade dos materiais, avaliação dos riscos e integração entre os diferentes atores da cadeia para conciliar segurança, proteção radiológica, sustentabilidade e economia circular.
Sobre a INAC 2026
A Conferência Internacional Nuclear do Atlântico (INAC 2026) aconteceu de 24 a 28 de agosto, na Escola de Guerra Naval (EGN), no Rio de Janeiro, com o tema “Energia Nuclear: Átomos para um Futuro Verde”. Organizado pela Associação Brasileira de Energia Nuclear (ABEN), o evento reuniu representantes da academia, da indústria, do governo e de instituições de pesquisa do Brasil e do exterior para discutir avanços, desafios e perspectivas para o setor nuclear.
Futuro do setor nuclear brasileiro é debatido em mesa redonda na INAC 2026
Formação e transferência de conhecimento no setor nuclear como desafios
Materiais radioativos de ocorrência natural no descomissionamento da indústria de óleo e gás
Centro de treinamento em segurança física nuclear é apresentado durante a INAC 2026
Contribuição das tecnologias nucleares para um futuro sustentável chegam a diversas áreas
Técnicas nucleares aplicadas ao meio ambiente são tema de mesa na INAC 2026
INAC 2026 aborda os desafios da energia nuclear para um futuro verde