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SERVIÇO PÚBLICO: O LADO HUMANO DO ESTADO
Com o CPNU, o Brasil se reconhece no serviço público
O adiamento das provas do CPNU 1 em todo o país assegurou que candidatos afetados pelas enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, como Bruno Quevedo, também pudessem participar da seleção
Participar de um concurso público federal nem sempre foi uma opção viável para brasileiros que moram longe dos grandes centros urbanos. Uma cidade que exemplifica bem esse desafio é São Gabriel da Cachoeira, localizada no extremo noroeste do estado do Amazonas. Para sair do município e ir para Brasília fazer a prova, a opção mais barata exigiria cerca de quatro dias de viagem por rios apenas para chegar até Manaus, de onde saem os voos para a capital federal. Nessa opção, o custo é elevado e depende das variações de preço no transporte aéreo.
Barreiras como essas estão sendo derrubadas pelo Concurso Público Nacional Unificado (CPNU), instituído pelo Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos em 2023. Um dos principais diferenciais do novo formato é a realização de provas em todo o Brasil, chegando a 228 municípios. Entre eles, está São Gabriel da Cachoeira, que tem mais de 93% da população de origem indígena, de acordo com o último censo.
A escolha desses municípios não foi aleatória: a distribuição dos locais de prova buscou permitir que cerca de 95% da população brasileira pudesse fazer o concurso a uma distância de até 100 km de casa. Essa proximidade amplia as condições de acesso de brasileiros de diferentes regiões ao serviço público federal.
Levar a prova para municípios como São Gabriel da Cachoeira tem impacto sobre outras medidas de ampliação da diversidade no serviço público. A cidade, que é considerada a maior em percentual de população indígena, não poderia ficar de fora de uma seleção que, na sua primeira edição ofereceu mais de 500 vagas para a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), com 30% das oportunidades reservadas a indígenas.
A partir da segunda edição, as cotas foram expandidas para outros órgãos, e os quilombolas também ganharam cotas específicas. A ampliação das vagas reservadas a pessoas negras e a adoção de uma regra para aumentar a participação feminina na etapa discursiva deram continuidade à proposta de formar equipes que reflitam a diversidade da população brasileira.
Realizado em 2024 e 2025, o concurso unificado está ampliando a diversidade regional e demográfica no serviço público federal. Nas duas edições, o MGI autorizou o provimento de 12.862 cargos. As pessoas já aprovadas são de todos os estados brasileiros e boa parte delas, agora, passa a celebrar o Dia do Servidor Público.
Participação garantida, de Norte a Sul
No outro extremo do país, garantir condições para fazer a prova exigiu uma mudança no calendário da primeira edição do CPNU. As enchentes e os deslizamentos de maio de 2024 deixaram comunidades isoladas e estradas bloqueadas no Rio Grande do Sul, onde cerca de 80 mil pessoas estavam inscritas no CPNU. Para preservar a segurança e a participação dos candidatos, o MGI adiou as provas em todo o Brasil. A aplicação, prevista para 5 de maio, foi remarcada para 18 de agosto.
Em Carlos Barbosa, na Serra Gaúcha, os deslizamentos deixaram Bruno Emilio Blaas Quevedo, 33 anos, isolado em casa. Ele trabalhava como agente de endemias na Prefeitura de Bento Gonçalves, município vizinho, mas nem ao trabalho conseguia chegar. A possibilidade de ficar de fora da seleção se somava às preocupações daqueles dias. “Foram dias terríveis e saber que não poderia ir fazer a prova por algo que nem era culpa minha ou da banca, estava me consumindo por dentro enquanto eu ainda estava estudando”, relata.
Os custos de deslocamento e alimentação, além do tempo de viagem, já o haviam levado a deixar de prestar outros concursos federais, anteriormente. No CPNU, a possibilidade de disputar vagas de diferentes órgãos em uma mesma seleção foi um dos motivos para se inscrever. “Era a grande chance da minha vida”, afirma.
Com a nova data, o candidato foi aprovado na primeira opção de cargo e de local de trabalho. Em junho de 2025, entrou em exercício como analista do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em Porto Alegre. A aprovação trouxe a mudança para a capital e a conquista da casa própria. “Só quem vem de família extremamente pobre sabe o quanto a gente batalha, e vencer pelos estudos, por um concurso, é de uma felicidade incrível”, diz.
Hoje, ele relaciona sua trajetória ao trabalho do instituto, que produz dados para apoiar políticas públicas. “É como se eu estivesse trabalhando para mudar a vida de outras pessoas após ter a minha transformada”, avalia.
Uma inscrição para diferentes oportunidades
O CPNU reúne vagas de diferentes órgãos em um mesmo concurso. Ao se inscrever, o candidato escolhe um bloco temático, que agrupa cargos de áreas relacionadas, e indica suas opções em ordem de preferência. Com uma única taxa, pode disputar vários cargos desse bloco, desde que atenda aos requisitos de cada um.
Essa organização reduz a necessidade de pagar inscrições e viajar para concursos separados. O alcance vai além das cidades que receberam as provas: a primeira edição teve inscritos de 5.555 municípios, e a segunda, de 4.951. Entre os aprovados, havia moradores de 908 municípios no CPNU 1 e de 578 no CPNU 2.
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Alcance da seleção |
CPNU 1 |
CPNU 2 |
|
Inscrições |
2.114.145 |
761.545 |
|
Vagas ofertadas nos editais |
6.640 |
3.652 |
|
Órgãos participantes dos editais |
21 |
32 |
|
Blocos temáticos |
8 |
9 |
|
Cidades de aplicação das provas |
228 |
228 |
|
Municípios de residência dos inscritos |
5.555 |
4.951 |
|
Municípios de residência dos aprovados |
908 |
578 |
|
Unidades da Federação com aprovados |
27 |
27 |
|
Provimentos autorizados |
CPNU 1 |
CPNU 2 |
|
Quantidade de provimentos autorizados |
8.737 |
4.125 |
|
Órgãos contemplados |
33 |
41 |
|
Cargos contemplados |
40 |
59 |
Mais diversidade entre os aprovados
Na segunda edição do CPNU, as mulheres conquistaram quase metade das aprovações: 48,4%, em comparação com 37% na primeira seleção. Também aumentou a participação de pessoas negras e de pessoas com deficiência. A segunda edição passou a contar com reserva específica para quilombolas, que representaram 1,2% dos aprovados.
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Perfil dos aprovados |
CPNU 1 |
CPNU 2 |
|
Mulheres |
37% |
48,4% |
|
Pessoas negras |
24,5% |
29,7% |
|
Pessoas com deficiência |
6,8% |
7,6% |
|
Pessoas indígenas |
2,3% |
2% |
|
Pessoas quilombolas |
Sem cotas específicas |
1,2% |
Em 2025, a Lei nº 15.142 ampliou de 20% para 30% a reserva de vagas nos concursos federais. A política passou a incluir indígenas e quilombolas, além de pessoas pretas e pardas. No CPNU 2, foram reservados 25% para pessoas negras, 3% para indígenas e 2% para quilombolas. Houve ainda reserva de 5% para pessoas com deficiência.
Outra regra buscou equilibrar a participação de mulheres e homens na etapa discursiva. Eram convocadas candidatas adicionais quando elas representavam menos da metade dos classificados para essa fase. A proporção era verificada por cargo ou especialidade, separadamente na ampla concorrência e em cada lista de cotas. As convocações respeitavam a nota mínima e a ordem de classificação.
Como conferir a quantidade de vagas reservadas
Quem quer saber quantas vagas devem ser reservadas em um concurso pode consultar o Simulador de Reserva de Vagas em Concursos Públicos e Processos Seletivos. A ferramenta do MGI é gratuita e faz o cálculo para pessoas com deficiência, negras, indígenas e quilombolas, com base na legislação.
Para fazer a consulta, o usuário informa o número de vagas do concurso, cargo ou especialidade, seleciona o percentual destinado a pessoas com deficiência e solicita o cálculo. O serviço pode ser usado por candidatos, por quem organiza os concursos e por órgãos de controle para conferir a distribuição das vagas nos editais.
O perfil de quem faz o serviço público federal
A ampliação do acesso aos concursos e as mudanças no perfil dos aprovados no CPNU fazem parte da renovação das equipes federais. Hoje, a Administração Pública Federal conta com quase 580 mil servidores em atividade.
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Sexo |
Percentual |
|
Mulheres |
45,3% |
|
Homens |
54,7% |
|
Raça ou cor |
Percentual |
|
Branca |
56,3% |
|
Parda |
33,9% |
|
Preta |
7,3% |
|
Amarela |
2% |
|
Indígena |
0,6% |
|
Escolaridade |
Percentual |
|
Superior |
34,5% |
|
Pós-graduação |
44,4% |
|
Médio |
10,8% |
|
Fundamental |
2% |
|
Faixa etária |
Percentual |
|
Até 30 anos |
5,2% |
|
31 a 40 anos |
22,2% |
|
41 a 50 anos |
32,6% |
|
51 a 60 anos |
22% |
|
Acima de 60 anos |
18,1% |
Fonte: Painel Estatístico de Pessoal (PEP) | Dados de setembro/2026