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Estudo avalia desempenhos, masculino e feminino, e como ´podem contribuir para uma descrição mais precisa das interações de polinização.
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A polinização biótica, ou seja, aquela realizada por animais, é crucial para a maioria das plantas com flores. Ela é tão importante pois afeta diversos processos ecológicos e evolutivos nos ecossistemas terrestres. Uma das formas de estudar essas interações em grande escala é através de redes ecológicas. As redes ecológicas são uma representação em que diferentes espécies serão conectadas em pares, a partir de suas interações ecológicas no ambiente em que se encontram. Em geral, são baseadas em dados simples, como a frequência com que um polinizador visita uma flor, por exemplo.

- Pesquisadora Lorena Valadão Mendes, em campo, na área de Campos Rupestres de Diamantina (MG). Acervo pessoal.
Contudo, apenas a contagem dessas visitas não reflete a eficácia real da polinização, ou seja, se o polinizador está, de fato, transferindo pólen de forma eficiente. A visitação é um dado quantitativo, ou seja, quantas vezes aquela interação entre os pares ocorreu, mas o que também importa é a qualidade da interação. Para medir essa eficácia, é necessário considerar dois lados da reprodução da planta: o desempenho masculino (a remoção de pólen das anteras pelo polinizador) e o desempenho feminino (a deposição de pólen no estigma), resultando em sementes e frutos.
Um polinizador pode ser frequente nas visitas as flores, eficiente em remover pólen, mas não ser tão bom em depositá-lo, ou vice-versa. A partir de uma visão mais integrada, o artigo “Ajustando a vibração”: comparando a frequência de visitas e a efetividade da polinização em redes planta-polinizador”, da pesquisadora Lorena Valadão Mendes, e equipe do Laboratório Centro de Síntese Ecológica e Conservação da Universidade Federal de Uberlândia, e do Laboratório Centro de Estudos Avançados sobre o Funcionamento de Sistemas Ecológicos e Interações da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri, considerou os dois desempenhos. O objetivo é entender melhor ambos os aspectos e como eles compõem essa dinâmica.

- Breve descrição dos termos para diferenciar o comportamento de coleta de pólen dos visitantes florais das Chamaecristas.

- Resultados encontrados demonstraram que as abelhas especializadas no sistema de vibração (Flower-buzz) foram as mais frequentes nas visitas florais.

- Bombus pauloensis (categorizada como Flower-buzz) na flor de Chamaecrista nictitans. Crédito da imagem: Lorena Valadão Mendes
A polinização por vibração (buzz pollination) é aquela em que as abelhas vibram para extrair pólen de flores com anteras em forma de tubo com poros na extremidade apical. É uma boa opção de sistema capaz de medir a remoção e a deposição de pólen simultaneamente. A pesquisa então se utilizou do sistema de buzz pollination para entender se a remoção e a deposição de pólen variam entre as espécies de polinizadores. Outro ponto importante é esclarecer se as redes de interação mudam quando usadas medidas de eficácia (qualidade) em vez de apenas a frequência de visita (quantidade).

- Esse mesmo tipo de abelha (Flower-buzz) também depositou a maior quantidade de pólen. Já abelhas sem essa capacidade de vibração depositaram menos pólen.

- Augochloropsis sp. (categorizada como Anther-buzz) na flor de Chamaecrista desvauxii. Crédito da imagem: Lorena Valadão Mendes
Um dos resultados encontrados demonstraram que as abelhas especializadas no sistema de vibração, ou seja, aquelas que conseguem vibrar as flores para remover pólen das anteras (Flower-buzz), foram as mais frequentes nas visitas florais. Além disso, elas também depositaram uma maior quantidade de pólen. Já abelhas não especializadas e sem essa capacidade de vibração (Robber) depositaram pouco pólen, além de causar danos nas pétalas e anteras das flores durante suas visitas florais.

- Esses resultados mostram que as abelhas não especializadas (Robber) foram capazes de remover maior quantidade de pólen.

- Trigona spinipes (categorizada como Robber) na flor de Chamaecrista distichoclada. Crédito da imagem: Lorena Valadão Mendes
A expectativa é que a remoção e a deposição não estejam diretamente ligadas à frequência de visitas, e que as redes construídas com o componente de qualidade (eficácia) se tornem mais especializadas. O objetivo é que demonstrem, de maneira mais concreta, a realidade das interações ecológicas, pois nem toda visita é, efetivamente, eficaz. Usar ambos os desempenhos, masculino e feminino, nos ajudará a criar uma descrição mais precisa das interações de polinização e, também como consequência, dos processos ecológicos e evolutivos que elas impulsionam.

- Lorena, em campo, com equipe de pesquisadores. Acervo pessoal.
Acesse o artigo, na íntegra, pelo link https://nph.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/nph.70758