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SinBiose integra iniciativa global para aproximar as agendas de biodiversidade e clima
Museu da Natureza, Serra da Capivara/PI. - Foto: Érica Speglich
Como formular políticas públicas para enfrentar problemas complexos, como mudanças climáticas, perda de biodiversidade, incêndios florestais ou riscos à saúde humana, quando o conhecimento disponível está disperso em milhares de estudos, bases de dados e disciplinas científicas? Uma das respostas encontradas pela comunidade científica internacional é a chamada ciência de síntese.
Em vez de coletar novos dados, a ciência de síntese busca conectar o enorme volume de conhecimento já produzido pela comunidade científica para responder perguntas complexas e apoiar decisões públicas. Os primeiros centros de síntese surgiram justamente para reunir pesquisadores de diferentes áreas em torno de grandes desafios, como calcular o valor dos benefícios que os ecossistemas fornecem à sociedade, desde a polinização de culturas agrícolas até a regulação do clima.
O Centro de Síntese em Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (SinBiose/CNPq) é a iniciativa brasileira desse movimento internacional. E foi justamente por meio dessa rede global de centros de síntese que surgiu a chamada Interactions between Biodiversity and Climate Change, promovida pelo International Synthesis Consortium.
A iniciativa reúne centros de síntese de diferentes países para investigar, de forma colaborativa, as relações entre biodiversidade, mudanças climáticas e sociedade. Dos 15 projetos participantes, seis são apoiados pelo SinBiose/CNPq, o maior número entre os centros participantes.
O simpósio que marcou o início da implementação dos projetos foi realizado de forma online nos dias 1º e 2 de junho e reuniu 55 pesquisadores de sete países — Brasil, Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Noruega e África do Sul. Ao todo, os projetos envolvem cerca de 240 pesquisadores e mobilizam aproximadamente 1,7 milhão de euros em financiamento internacional.
Durante a abertura do encontro, Marten Winter, diretor do Centro de Síntese do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (sDiv/iDiv), destacou o protagonismo brasileiro na iniciativa. “O centro brasileiro SinBiose é o principal ‘financiador’ desta chamada, com seis projetos”, afirmou Winter.
Na palestra de abertura, Maria Cecilia Londoño, do Instituto Humboldt (Colômbia), destacou que as crises da biodiversidade e das mudanças climáticas estão profundamente interligadas. A pesquisadora observou que sociedades marcadas por fortes divisões sociais tendem a ter mais dificuldade para enfrentar esses desafios, uma vez que a baixa coesão social dificulta a construção de consensos. Nesse contexto, ressaltou a importância de fortalecer abordagens transdisciplinares de pesquisa, capazes de integrar diferentes áreas do conhecimento e setores da sociedade.
Para a gestora do SinBiose, Marisa Mamede, a participação brasileira demonstra a capacidade do país de contribuir com protagonismo para agendas científicas estratégicas em escala global. “A participação do SinBiose nesta iniciativa demonstra maturidade e inserção internacional do programa, representando a América Latina e fortalecendo as perspectivas do Sul Global. O SinBiose tem chamado a atenção pela abordagem inovadora do foco em políticas públicas, bem como das estratégias comunicação com tomadores de decisão”

- Participantes do Simpósio Interactions between Biodiversity and Climate Change
Biodiversidade e clima como uma agenda única

A principal mensagem do encontro foi a necessidade de superar a separação histórica entre as agendas de biodiversidade e clima. “As crises climática e da biodiversidade estão conectadas”, afirmou Diane Srivastava, diretora do Canadian Institute of Ecology and Evolution (CIEE-ICEE) e uma das organizadoras do simpósio.
Segundo a Srivastava, as mudanças climáticas afetam diretamente espécies, ecossistemas e serviços ecossistêmicos. Ao mesmo tempo, alterações na biodiversidade impactam a saúde humana, a segurança alimentar, a disponibilidade de recursos naturais e a capacidade de adaptação das sociedades.
Essa visão integrada orienta os 15 projetos participantes da iniciativa global. Os grupos investigam temas como áreas alagáveis amazônicas, incêndios florestais, saúde humana, pesca, conservação da biodiversidade, serviços ecossistêmicos urbanos e soluções baseadas na natureza. “Conseguimos cobrir esse espaço de interação entre sociedade, clima e biodiversidade”, destacou Srivastava.
Os projetos apoiados pelo SinBiose ilustram essa convergência. Entre os temas investigados estão os efeitos das mudanças climáticas sobre áreas alagáveis amazônicas, a relação entre desmatamento, biodiversidade e doenças na Amazônia, os impactos das mudanças ambientais sobre a saúde física e mental de comunidades quilombolas, os benefícios da biodiversidade urbana para o bem-estar humano e o papel das soluções baseadas na natureza na redução do risco de incêndios. O programa também se destaca por ter um projeto específico para estratégias de comunicação para tomada de decisão.
Da colaboração científica à tomada de decisão
Outro destaque do encontro foi a apresentação da iniciativa internacional World Biodiversity Research Programme (WBRP) , que propõe a criação de um mecanismo global para coordenar pesquisas em biodiversidade e fortalecer a interface entre ciência e políticas públicas.
Segundo a pesquisadora Damaris Zurell, da Universidade de Potsdam, a proposta busca criar para a biodiversidade uma estrutura semelhante à existente na ciência climática, capaz de alinhar pesquisadores, financiadores e formuladores de políticas públicas em torno de prioridades comuns. “Na área de biodiversidade, um programa global de pesquisa como esse praticamente não existe”, apontou Zurell.
Como próximos passos, os participantes defenderam o fortalecimento da colaboração entre os 15 projetos por meio de reuniões periódicas, intercâmbio de dados e metodologias, desenvolvimento de produtos conjuntos e busca de recursos para encontros presenciais. O objetivo é consolidar uma comunidade internacional capaz de produzir conhecimento integrado sobre biodiversidade e clima e ampliar sua contribuição para políticas públicas e acordos globais.