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Projeto Regenera-Amazônia avança em estudos sobre regeneração natural para apoiar políticas públicas
Compreender como diferentes áreas da Amazônia se regeneram naturalmente após o desmatamento e em que condições esse processo pode ser previsto com maior segurança é um dos objetivos do REGENERA-Amazônia. - Foto: Paula Drummond
A regeneração natural pode reduzir custos da restauração florestal e ampliar a recuperação de áreas degradadas na Amazônia, mas ainda existem muitas incertezas sobre como esse processo ocorre em diferentes paisagens. Para responder a essas questões, pesquisadores e gestores públicos participaram, entre 29 de junho e 1º de julho, em Planaltina (DF), da primeira oficina presencial do projeto Regenera-Amazônia, um dos projetos selecionados na chamada de 2025 do SinBiose, programa do CNPq voltado à integração de conhecimentos científicos para subsidiar políticas públicas.
O projeto Regenera-Amazônia dá continuidade ao projeto contemplado na chamada anterior, coordenado por Rita Mesquita (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA) no período entre 2019 e 2023. Na primeira fase, a equipe organizou informação de centenas de áreas de florestas secundárias da Amazônia, formando a maior base de dados já organizadas sobre regeneração natural no bioma. Os resultados contribuíram para a elaboração de notas técnicas que subsidiaram a Instrução Normativa nº 14/2024 do IBAMA, utilizada como referência para ações de restauração ecológica.
Nesta nova etapa, o projeto busca compreender como diferentes áreas da Amazônia se regeneram naturalmente após o desmatamento e em que condições esse processo pode ser previsto com maior segurança. O objetivo é gerar informações capazes de reduzir incertezas sobre a restauração florestal e desenvolver indicadores, estratégias de monitoramento e outros instrumentos voltados ao aperfeiçoamento de políticas públicas.
Ao longo de três dias, 16 participantes discutiram resultados preliminares da pesquisa, organizaram frentes de trabalho e definiram os próximos produtos científicos e técnicos. A programação também incluiu atividades voltadas ao alinhamento conceitual, à integração da equipe e ao planejamento das análises que serão desenvolvidas nos próximos anos.
Reuniões de imersão e integração entre ciência e gestão
Diferente de um seminário tradicional, uma oficina de imersão combina apresentações curtas com longos períodos de trabalho colaborativo, durante os quais os pesquisadores analisam conjuntamente dados, hipóteses e estratégias analíticas.
Segundo Catarina Jakovac, da Universidade Federal de Santa Catarina, o formato presencial favorece a construção coletiva do conhecimento. “Queremos avançar juntos e, para isso, um processo de imersão é ideal, porque temos tempo de qualidade para nos debruçar sobre as diferentes questões do projeto de forma mais livre, o que possibilita novos insights. As interações on-line são importantes para o desenvolvimento do projeto, mas é nas imersões presenciais que acontece o maior engajamento dos participantes e as melhores ideias", complementa a coordenadora.
"Começamos com um momento de alinhamento sobre os objetivos, conceitos relevantes e o que significa fazer ciência de síntese no SinBiose e apresentação de resultados preliminares até o momento do projeto. Depois, os integrantes foram divididos em grupos de trabalho para um momento de imersão intensiva sobre os dados, literatura e lacunas do conhecimento. Esse processo ajuda na readequação dos caminhos necessários para atingir os objetivos propostos no projeto", explica Giles.
Essa dinâmica favorece a construção coletiva das perguntas de pesquisa, aproximando os objetivos científicos das demandas dos órgãos responsáveis pela gestão ambiental.
Outro aspecto que a experiência anterior no SinBiose mostrou foi que a participação dos gestores contribui para tornar os objetivos da pesquisa mais conectados aos desafios enfrentados pelos órgãos ambientais. "Na fase 1 do Regenera percebemos que nossas perguntas eram mais acadêmicas. Quando realizamos um encontro com representantes das secretarias estaduais de meio ambiente da Amazônia, houve um direcionamento das discussões. Passamos a formular questões mais contextualizadas e com maior potencial de contribuir para a tomada de decisão”, relata Jakovac.
Segundo o vice-coordenador André Giles, essa aproximação representa uma evolução em relação à primeira fase do Regenera. "Temos representantes da Secretaria de Meio Ambiente do Pará, do ICMBio e do IBAMA. Esses participantes agora fazem parte do projeto. Esse é um legado do primeiro Regenera. Antes eles eram convidados para as oficinas, agora são membros da equipe, desenhando junto com os pesquisadores os objetivos e as diversas etapas de desenvolvimento da pesquisa”, explica Giles.
Ciência de síntese como metodologia de trabalho
O SinBiose adota a abordagem da ciência de síntese para desenvolver pesquisas voltadas à biodiversidade e aos serviços ecossistêmicos. Em vez de produzir novos dados em campo, a ciência de síntese integra informações provenientes de diferentes pesquisas para responder questões complexas e produzir evidências úteis à tomada de decisão. Segundo Marisa Mamede, analista do CNPq e gestora do SinBiose, esse processo combina diferentes disciplinas, métodos e perspectivas em um ambiente colaborativo estruturado por grupos de trabalho, encontros presenciais, gestão de dados e comunicação científica.
Para Mamede o diferencial do SinBiose está na construção coletiva do conhecimento e na aproximação entre diferentes atores envolvidos na produção e no uso das evidências científicas. "A ideia do SinBiose é coproduzir conhecimento com gestores, pesquisadores e a comunicação. Queremos atuar como uma ponte entre a ciência e as políticas públicas”, explica a gestora.
Em sua palestra de abertura do segundo dia de trabalho, Mamede ressaltou que centros de síntese costumam organizar seu trabalho em uma sequência de encontros presenciais ao longo de dois ou três anos, favorecendo a colaboração entre pesquisadores, o amadurecimento das análises e o desenvolvimento de produtos científicos e aplicados. Esse modelo tem sido adotado pelo SinBiose para fortalecer pesquisas inter e transdisciplinares orientadas à solução de problemas e à produção de conhecimento útil para a sociedade e para os formuladores de políticas públicas.
Texto: Paula Drummond / Projeto ComSinBiose