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Adalberto Val: "Escassez e baixa qualidade de peixes afeta cultura, economia e saúde na Amazônia"
Biólogo Adalberto Luis Val, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte - Foto: Keiny Andrade/ABC
Pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências para a Região Norte e bolsista de produtividade do CNPq, Adalberto Luis Val está há quase cinco décadas pesquisando na Amazônia, com uma trajetória dedicada ao estudo dos peixes amazônicos, sobretudo as suas adaptações fisiológicas a ambientes extremos.
"Muitos peixes amazônicos vivem muito próximos de seus limites térmicos superiores. Isso significa que mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ser desastrosos, levando rapidamente a eventos de mortalidade em larga escala," afirma o pesquisador. Val explica que, na Amazônia, o peixe não é apenas alimento, mas sim um elemento central da identidade e do modo de vida das populações. "Quando o peixe escasseia ou perde qualidade, isso afeta diretamente a cultura, a economia e a saúde das pessoas."
O pesquisador foi agraciado com a Le Cren Medal, distinção concedida pela Fisheries Society of the British Isles (FSBI) a pesquisadores e equipes com contribuição destacada para a biologia, a conservação e a compreensão pública dos peixes no mundo. A cerimônia de premiação ocorre no dia 30 de julho, na Universidade de Southampton, na Inglaterra.
Coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos das Adaptações da Biota Aquática da Amazônia (INCT Adapta), financiado pelo CNPq, o pesquisador é o primeiro brasileiro a receber a medalha. Para Val, a condecoração carrega um valor simbólico muito forte, pois mostra que a ciência feita na Amazônia, muitas vezes em condições desafiadoras, tem relevância global. "Vejo essa distinção como um reconhecimento coletivo, do trabalho que construímos na Amazônia ao longo de décadas, com estudantes, colegas, colaboradores e instituições que acreditaram na importância de fazer Ciência na região", afirma.
Val é autor de mais de 280 artigos científicos, 22 livros e 78 capítulos de livros, além de ter orientado dezenas de estudantes de pós-graduação e pesquisadores de pós-doutorado. Ele também foi agraciado com importantes prêmios nacionais e internacionais, incluindo a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e o Award of Excellence da American Fisheries Society.
Pergunta – O senhor poderia explicar um pouco sobre a pesquisa que está fazendo atualmente sobre a Amazônia e os peixes amazônicos?
Val - Nossas pesquisas investigam como os peixes amazônicos respondem a mudanças ambientais como aumento da temperatura, redução de oxigênio e alterações na qualidade da água. Esses fatores, que vêm se intensificando com as mudanças climáticas, afetam diretamente a sobrevivência e o desempenho dos organismos.
No âmbito do INCT Adapta, buscamos entender esses processos do nível molecular ao ecológico, conectando a biologia dos peixes à segurança alimentar das populações amazônicas.
Além dos estudos de campo, especialmente em cenários extremos, realizamos experimentos em laboratório, nos quais os peixes são expostos a condições ambientais previstas pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para o ano de 2100, em salas especialmente projetadas para esse tipo de investigação.
Como as secas, queimadas na Amazônia e mudanças climáticas impactam os peixes amazônicos?
Val - As secas extremas reduzem o volume de água, aumentam a temperatura e diminuem o oxigênio disponível, colocando os peixes próximos de seus limites de sobrevivência. As queimadas agravam esse cenário ao comprometer a qualidade da água, por meio da entrada de cinzas e outros compostos nos ambientes aquáticos.
Esses fatores, associados às mudanças climáticas, atuam de forma conjunta e intensificada. Estudos recentes, realizados em colaboração com colegas do Instituto Mamirauá e publicados na Science e no Journal of Experimental Biology, documentaram eventos de mortalidade massiva de peixes durante as secas extremas de 2023/24, evidenciando que as condições ambientais atingiram níveis letais para diversas espécies amazônicas.
Além disso, é importante destacar que muitos peixes amazônicos vivem muito próximos de seus limites térmicos superiores. Isso significa que mesmo pequenos aumentos de temperatura podem ser desastrosos, levando rapidamente a eventos de mortalidade em larga escala.
Os peixes amazônicos são um elemento fundamental da cultura, da economia e da vida das populações que vivem nesta região. Já é possível perceber uma mudança no estilo de vida das populações amazônicas? Qual o impacto destas mudanças?
Val - Sim, essas mudanças já são perceptíveis. Em muitas regiões, há redução na disponibilidade de peixes, tanto em quantidade quanto em qualidade, o que afeta diretamente a segurança alimentar, especialmente das populações ribeirinhas, para as quais o peixe é a principal fonte de proteína. Nas áreas urbanas, também se observa aumento no preço do pescado e alterações no padrão de consumo.
Além disso, as mudanças climáticas têm acentuado os efeitos dos poluentes sobre os peixes. Substâncias como mercúrio, cobre e componentes do petróleo tendem a se acumular na carne do pescado em níveis preocupantes. Temos demonstrado isso em diversos trabalhos científicos publicados em revistas internacionais, além de socializar essas informações em nível nacional. Em particular, a contaminação por mercúrio é hoje uma questão extremamente preocupante e já não pode mais ser considerada um problema regionalmente restrito.
Essas transformações têm impactos sociais, econômicos e culturais profundos. Na Amazônia, o peixe não é apenas alimento, é um elemento central da identidade e do modo de vida das populações. Quando o peixe escasseia ou perde qualidade, isso afeta diretamente a cultura, a economia e a saúde das pessoas.
O garimpo já causa mudanças perceptíveis na fauna e na flora aquática amazônica? Essas mudanças continuam "invisíveis" para o poder público?
Val - Sim, os impactos do garimpo são evidentes, graves e amplamente documentados pela ciência. A contaminação por mercúrio, por exemplo, compromete a saúde dos peixes e das populações humanas que dependem deles, configurando um problema ambiental e de saúde pública de grande escala. Além disso, o garimpo promove a degradação física dos ambientes aquáticos, com assoreamento, destruição de habitats e perda de biodiversidade.
Essas mudanças não são invisíveis, são conhecidas, mensuradas e vêm sendo reiteradamente reportadas pela comunidade científica. O que se observa, no entanto, é uma resposta ainda aquém da gravidade do problema. Trata-se de uma questão que exige ações mais firmes, coordenadas e contínuas do poder público, tanto no controle das atividades ilegais quanto na proteção efetiva dos ecossistemas e das populações afetadas.
Como enfrentar essas questões, sob o ponto de vista da sustentabilidade?
Val - Enfrentar esses desafios exige uma abordagem integrada, que combine ciência, políticas públicas e o conhecimento das populações locais. Não há solução única para problemas dessa complexidade.
O papel da ciência é central e insubstituível. É a ciência que permite compreender os processos em curso, antecipar cenários e propor soluções baseadas em evidências. No entanto, para que isso aconteça, é fundamental que os investimentos em Ciência sejam significativamente ampliados, estruturantes e estratégicos e não apenas históricos ou pontuais, que muitas vezes mantêm laboratórios à míngua diante de um patrimônio natural cuja escala é, literalmente, imensurável.
Ao mesmo tempo, é essencial fortalecer o monitoramento ambiental e implementar políticas mais efetivas de controle do desmatamento, das queimadas e das atividades ilegais, como o garimpo.
Outro ponto central é reconhecer e valorizar o papel das populações amazônicas e dos povos indígenas, que possuem conhecimentos essenciais para o uso sustentável dos recursos naturais. Sustentabilidade, na Amazônia, significa garantir que os sistemas naturais continuem funcionando e que as populações que dependem deles possam manter seus modos de vida com qualidade e dignidade.
Qual o papel e a importância que o CNPq teve em suas pesquisas?
Val - O CNPq teve um papel absolutamente central em toda a minha trajetória científica na Amazônia. Desde a minha chegada à região, seu apoio foi decisivo para a formação de recursos humanos, a consolidação de infraestrutura e o desenvolvimento de pesquisas. De forma muito especial, o apoio às três fases do INCT Adapta permitiu estruturar uma rede de pesquisa robusta, interdisciplinar e com forte inserção internacional, voltada para entender como os organismos amazônicos respondem às mudanças ambientais. Além disso, as colaborações com outras agências, fundações como a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado do Amazonas (Fapeam), e agências estrangeiras, permitiu a existência de um laboratório de primeira linha no meio da Amazônia.
Esse tipo de iniciativa demonstra a importância de investimentos contínuos, estratégicos e de longo prazo em ciência. Programas como os INCTs mostram que, quando há planejamento e apoio consistente, é possível produzir conhecimento de excelência, formar gerações de pesquisadores e responder a desafios críticos para o país.
No caso da Amazônia, esse apoio é ainda mais crucial, pois estamos lidando com um sistema de enorme complexidade e relevância global, que exige ciência de alta qualidade para ser compreendido e protegido.
Qual a importância e o que significa ser agraciado com a Le Cren Medal?
Val - Receber a Medalha Le Cren é uma emoção muito grande e um momento de profunda gratidão. Ela reconhece uma vida dedicada à Ciência, mas, para mim, tem um significado que vai muito além de uma trajetória individual.
Recebo essa medalha com alegria, mas também com humildade e responsabilidade. Alegria por tudo que vivemos até aqui; responsabilidade por continuar contribuindo, formando novas gerações e ajudando a dar visibilidade à Amazônia, que é ao mesmo tempo um patrimônio do Brasil e do mundo, e que precisa, mais do que nunca, ser compreendida e protegida.