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Pesquisa do CDTN/CNEN avança no monitoramento ambiental na Antártica
A equipe do Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN) concluiu o segundo trabalho de campo na Ilha do Rei George, onde está localizada a Estação Antártica Comandante Ferraz, base permanente do Brasil no continente. Fizeram parte da expedição, de novembro de 2025 e janeiro de 2026, o pesquisador do Serviço de Análise e Meio Ambiente Ricardo Passos, e a geóloga e discente do Programa de Pós-Graduação do CDTN Ana Clara Ferreira.
O trabalho de campo integra as atividades do projeto INTERFACES: Transporte e processos biogeoquímicos de substâncias naturais e antropogênicas na interface terra-mar antártica em um contexto de mudanças climáticas, aprovado no edital PROANTAR/CNPq em 2023. Além do CDTN, o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto Oceanográfico da USP fazem parte do projeto, sob a liderança da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
O objetivo principal do estudo é compreender de que forma as mudanças climáticas vêm alterando o regime hidrológico da Antártica, investigar as relações entre a água de degelo, lagos, rios, atmosfera, solo e oceano, bem como acompanhar a origem e o destino de poluentes transportados nesses processos, avaliando seus impactos e possíveis consequências em escala global. A área analisada é considerada estratégica para esse tipo de estudo, por estar inserida nas principais rotas das circulações oceânicas e atmosféricas do planeta. Por essa razão, a região funciona como um indicador antecipado de transformações que podem se intensificar no futuro, à medida que as mudanças climáticas se agravam.
Aos pesquisadores da área nuclear cabe a realização de estudos ambientais utilizando técnicas isotópicas, caracterização hidroquímica, hidrológica e hidrogeológica, bem como aplicações da radioatividade natural e radônio.
A segunda viagem ao continente gelado foi marcada pelo reposicionamento de métodos e estratégias adotadas na expedição anterior. Pela experiência dos pesquisadores adquirida no primeiro trabalho de campo, foi necessário ajustar cronogramas devido às condições extremas de tempo na região. Entre as principais mudanças no trabalho deste ciclo, está o método de monitoramento de radônio e a frequência de amostragem.
A partir de agora, os pesquisadores passam a aprofundar o estudo, incorporando mais informações e utilizando os dados do ano anterior como base de comparação. “A expectativa é consolidar a série de dados iniciada no verão passado, expandindo as amostragens e testando melhorias metodológicas (em função dos resultados já obtidos) que nos permitam compreender com maior clareza os processos ambientais que estamos investigando — especialmente transporte de partículas e contaminantes, interação atmosfera, solo e água e os mecanismos que influenciam a dinâmica de contaminantes no contexto das mudanças climáticas”, afirma Ricardo Passos.
Projeto passa a monitorar microplásticos e PFAs
Uma novidade no projeto é o monitoramento de microplásticos e PFAS, que não foram monitorados no trabalho de campo anterior. Essa nova frente de pesquisa foi discutida entre os pesquisadores durante o segundo Workshop do Projeto Interfaces, realizado no CDTN, em setembro de 2025.
Os microplásticos são partículas de plástico de diversos tipos, com menos de 5 milímetros, que podem ser primárias (produzidas intencionalmente, como em esfoliantes corporais) ou secundárias (formadas pela degradação de objetos maiores, como garrafas). Além de poluir ecossistemas, essas partículas podem ser ingeridas por animais e entrar na cadeia alimentar, chegando aos seres humanos por meio de alimentos, água e ar, e, ao se acumularem no organismo, podem causar riscos à saúde.
Já os PFAS (Substâncias Per e Polifluoroalquiladas) são produtos químicos sintéticos persistentes, conhecidos como "químicos eternos" por não se degradarem. Eles são utilizados em produtos antiaderentes, embalagens de alimentos, cosméticos, roupas impermeáveis e espumas de combate a incêndio, que podem contaminar água, solo e alimentos. Essas substâncias estão associadas a riscos como câncer, problemas reprodutivos e disfunções hormonais, exigindo atenção especial por sua difícil remoção e bioacumulação. Esses contaminantes podem chegar na Antártica, considerado o continente mais preservado do planeta, por meio dos fluxos globais oceânicos e atmosféricos.
Esses poluentes vêm ganhando destaque no debate científico e ambiental pela relação cada vez mais evidente com as mudanças climáticas. Presentes no oceano, solo e atmosfera, eles são capazes de influenciar processos fundamentais que interferem no clima do planeta. Os microplásticos, em especial, funcionam como um indicador das ações antrópicas, ou seja, humanas, no meio ambiente. Sua presença em diversos locais reflete padrões de produção, consumo e descarte, permitindo avaliar como as atividades humanas contribuem para a poluição ambiental e a mudança do clima.
Desafios e aprendizados da pesquisa em um ambiente extremo
Na Antártica, é preciso aprender a lidar com a incerteza. O cronograma das pesquisas depende integralmente das condições meteorológicas da região, conhecidas pela imprevisibilidade. Mesmo durante o verão, o clima interfere diretamente nos pontos de coleta, na disponibilidade de equipes e exige a elaboração constante de planos alternativos. “Temos que ter sempre em mãos planos A, B e C”, resume Ricardo Passos. Dessa forma, a estratégia adotada pelos pesquisadores durante a segunda ida ao continente foi de aproveitar ao máximo cada janela de bom tempo, ampliando o número de pontos de coleta de amostras, a fim de aumentar a representatividade espacial das coletas.
“Já temos boas evidências a respeito da dinâmica de fluxos na região, observamos diferenças associadas a eventos meteorológicos e situações climáticas, mudanças na cobertura superficial e ocorrência de contaminação de fontes geogênicas e antrópicas nas diversas matrizes monitoradas”, destaca Ricardo Passos sobre os primeiros resultados do estudo.
O pesquisador ressalta ainda a importância do apoio institucional na Estação, com o suporte do PROANTAR e das equipes que atuam na estação de pesquisa brasileira na Antártica, como a Marinha, o MCTI e o CNPq.
O CDTN é uma unidade de pesquisa da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), autarquia federal vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Assessoria de Comunicação
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