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MEMÓRIA
Evento da CNEN sobre acidente com césio-137 reúne profissionais para reflexões sobre legado e desafios
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) promoveu, em 29 de abril, o evento “Césio-137: Três momentos de uma história real”, no auditório Vera Janocópulos, na UNIRIO, no Rio de Janeiro. O encontro, aberto ao público, reuniu profissionais das áreas científica, tecnológica e médica que atuaram na resposta para revisitar o acidente radiológico ocorrido em Goiânia, em 1987, considerado o maior do mundo em área urbana, e trouxe reflexões sobre o legado e os desafios da radioproteção no Brasil.
O evento foi estruturado em três momentos: o acidente, a resposta e as consequências e aprendizados, reunindo profissionais que estiveram diretamente envolvidos na solução técnica e no atendimento às vítimas. O presidente da CNEN, Francisco Rondinelli, destacou que o acidente com o césio-137 foi um ponto de inflexão que trouxe aprendizado e desafios que foram enfrentados pela instituição. “A CNEN e suas unidades trouxeram respostas técnicas e soluções que serviram de aprendizado para o mundo”, acrescentou.
Ele lembrou que o depósito definitivo em Abadia de Goiás funciona sob controle institucional da CNEN, abrigando os rejeitos radioativos gerados e sediando o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-CO), unidade que mantém viva a memória do acidente. Os depósitos estão localizados em um parque estadual, Telma Ortegal, uma área de proteção ambiental.
Logo da abertura do encontro, um vídeo exibido com mensagem do criador da série Emergência Radioativa, Gustavo Lipsztein, emocionou o público. O idealizador da série afirmou que, “para o criador da série, é legal estar em primeiro lugar na Netflix Brasil por quatro semanas seguidas, e também no top 10 mundial, sendo a série da Netflix mais vista no mundo. No entanto mais gratificante que isso é ver o impacto que a série está tendo no mundo real: a memória sendo resgatada, o heroísmo dos nossos cientistas e médicos sendo reconhecido no Brasil e no mundo. É emocionante ver jovens assistindo e se perguntando se não seria legal seguir carreira científica. Isso é muito maior do que qualquer ranking.” Ele também destacou que nutria há muitos anos o desejo de contar essa história para o mundo sob três pontos de vista - dos cientistas, dos médicos e das vítimas - e há dez anos isso se tornou mais concreto; então ele realizou entrevistas e leu muitos artigos científicos sobre o tema. Lipsztein lembrou também que os profissionais na resposta ao acidente partiram para Goiânia de forma muito imediata para solucionar a situação sem saber quando iriam regressar às suas residências.
A resposta ao acidente teve participação feminina, nas equipes de radioproteção, na gestão de rejeitos, na descontaminação e nas análises laboratoriais, entre outras. Uma análise inicial demonstrou uma participação feminina de quase 30 %. Na plateia presente ao encontro e na audiência virtual, participaram alguns dos profissionais envolvidos no atendimento à emergência radiológica. Estudantes e profissionais de outras instituições também prestigiaram o encontro.
Depoimentos sobre o acidente
O físico Walter Mendes, assessor da Presidência da CNEN e chefe da Divisão de Emergências Radiológicas, relembrou sua atuação fundamental na identificação do acidente. Em setembro de 1987, foi ele quem confirmou a ocorrência da contaminação com Césio-137 e acionou as autoridades competentes. Ele encontrava-se em viagem de férias à Goiânia e não tinha qualquer vincula com a Comissão. Sua ação evitou que o acidente tivesse consequências ainda maiores. “A série é muito representativa do trabalho de 244 profissionais da CNEN e das instituições parceiras”, destacou Mendes, que em suas declarações públicas e participações ressalta o caráter coletivo do trabalho. Ele também pontuou as muitas adaptações da série, entre elas que ele não foi contaminado e lembrou que o convite posterior ao acidente para trabalhar na CNEN partiu de Rex Nazaré e não de José Júlio de Rosenthal, conforme mostrado na série.
O físico Carlos Eduardo Veloso de Almeida ressaltou personagens importantes para a resposta inicial, como Marília Gabriela, que levou a fonte até a Vigilância Sanitária, e o servidor do órgão, um dentista, que a isolou em local afastado, evitando maior exposição, além, é claro, de Walter Mendes. “Atuei nos 40 dias após a identificação ao acidente, em muitas atividades, na organização, na distribuição de tarefas, no apoio ao atendimento à imprensa, junto com doutor Rosenthal. Rex Nazaré Alves, que presidia a CNEN, encontrava-se em Viena, na Junta de Governadores, e retornou ao Brasil, onde logo assumiu a coordenação das atividades. “Na série parece que ele seria um burocrata, mas o presidente da CNEN à época trabalhou na linha de frente, em meio às equipes e com uma sensibilidade e competência ímpar. Ele estabeleceu a rotina de atendimento à imprensa e de informes à população, trouxe assistência social e outras instituições com experiência em operações de campo e atendimento à população para apoiar as atividades”, recordou o profissional, professor emérito da UERJ.
O médico Carlos Eduardo Brandão, profissional da CNEN que trabalhou no atendimento aos radioacidentados, lembrou os desafios enfrentados na triagem e no tratamento das vítimas, os recursos encontrados, como a utilização da substância azul da prússia para descontaminação de pacientes e as rotinas de atividades físicas para provocar sudorese e acelerar a eliminação do césio. “Publicamos muitos capítulos de livros e artigos sobre aspectos técnicos, médicos e psicológicos no atendimento às vítimas. Ministrei no ano seguinte palestra na antiga União Soviética para o pessoal que respondeu ao acidente de Chernobil”, afirmou.
Resposta à emergência
Profissionais da CNEN estiveram em Goiânia atuando na triagem, na descontaminação, nos cálculos do tempo de exposição e preparação das tarefas em campo, na coleta de amostras e na montagem de laboratórios móveis. Outros trabalharam nos laboratórios do Rio de Janeiro realizando análises, no Hospital Naval Marcílio Dias, referência no atendimento a radioacidentados, ajudando vítimas e desenvolvendo cálculos complexos para blindagens.
O físico Paulo Cunha liderou a equipe responsável pela descontaminação de residências. Ele lembrou do quanto foi impactante entrar na casa das pessoas e ver pertences deixados, eram perdas de memórias de uma vida, refeições sobre a mesa, itens que não mais seriam possíveis de recuperação. “Aquilo me marcou, foi muito difícil de fazer. Tínhamos que anotar tudo o que estava sendo recolhido para encaminhar ao pessoal da assistência social”. José Marcus Godoy coordenou a área de monitoração ambiental. Já o engenheiro nuclear Alfredo Tranjan Filho foi o idealizador do depósito para abrigar os rejeitos gerados pelo acidente, localizado em Abadia de Goiás.
Abadia de Goiás hoje
A superintendente de Atenção à Saúde de Abadia de Goiás, Leliana Alves. A diretora-geral do Centro Estadual de Assistência aos Radioacidentados Leide das Neves (CARA), Glauciene Esteves, destacou trabalho contínuo de acompanhamento às vítimas e a importância da preservação da memória. Esteves demonstrou como é feito o acompanhamento médico, psicossocial e de apoio ao grupo de pessoas acompanhadas. Alves apresentou iniciativas da prefeitura de Abadia de Goiás e ações em parceria com a CNEN para proporcionar desenvolvimento ao município e ações em saúde e também em educação.
O coordenador do CRCN-CO, Almir Aniceto, reforçou que a unidade é referência em radioproteção e recebe visitantes ao longo do ano, mantendo viva a história e os aprendizados do acidente. O Centro está localizado em uma área de conservação abrigando diversas espécies de flora nativa ou reflorestada e fauna do cerrado e é aberto à visitação. A compensação financeira que a CNEN paga ao município de Abadia de Goiás tem sido aplicada na área de ensino, por meio de um decreto municipal. A Prefeitura complementa com mais recursos e transforma em bolsas para alunos de cursos técnicos e de graduação, iniciativa do programa Abadia Educa Mais. Atualmente são 100 bolsas, além de apoio com transporte e lanche.
Iniciativas de parcerias para a pesquisa científica com a Universidade Federal de Goiás foram apontadas. Doação de mamógrafo, pesquisas sobre câncer de mama e tratamentos para cânceres de mama e próstata ( esta por meio da braquiterapia) foram ações já iniciadas que demonstram a importância do centro regional, que também tem o papel de impulsionar a ciência nuclear na região.
Quase quatro décadas depois, o acidente de Goiânia continua sendo lembrado como um marco de transformação institucional e social. O evento reforçou que a memória desse episódio é essencial para manter viva a consciência sobre o uso seguro da tecnologia nuclear. Também transformou protocolos de atendimento e trouxe expertise no atendimento a emergências que impactaram todo o mundo. Gustavo Lipzstein também afirmou o quanto tem sido emocionante ver o brasileiro descobrir que o Brasil é referência em proteção radiológica.
Para assistir à transmissão do evento pelo canal YouTube @canalcnen acesse aqui.