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CNEN e Firjan realizam encontro sobre transferência internacional de tecnologia e inovação
A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) realizaram, em 13 de outubro, na Casa Firjan, no Rio de Janeiro, o encontro “Transferência Internacional de Tecnologia: Modelos, Parcerias e Geração de Negócios”. A programação reuniu representantes de instituições de pesquisa, empresas, governo e organizações nacionais e internacionais para discutir modelos de transferência de tecnologia, oportunidades de cooperação e estratégias para aproximar a pesquisa científica do mercado.
Na abertura, o diretor de Relações Institucionais da Firjan, Márcio Fortes de Almeida, defendeu que a transferência de tecnologia precisa gerar valor e produzir benefícios coletivos. O presidente da CNEN, Francisco Rondinelli, reforçou essa perspectiva e destacou o papel do setor industrial na aproximação entre a produção científica e tecnológica desenvolvida na academia e a sociedade. Segundo Rondinelli, a Firjan é essencial para o desenvolvimento de projetos inovadores.
O consultor de inovação da CNEN, Eduardo Giacomazzi, que também exerce a função de diretor adjunto do Departamento do Complexo Produtivo e Econômico da Saúde e Biotecnologia (Decomsaude) da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), ressaltou a importância de aproximar a produção científica das demandas do setor produtivo. Entre os pontos abordados estiveram o potencial de integração entre ciência e indústria e a necessidade de fortalecer na CNEN uma cultura institucional voltada ao empreendedorismo científico.
A Coordenadora-Geral de Inovação Nuclear da CNEN, Daniela Archila, destacou a necessidade de fortalecer a relação da Comissão com o setor industrial e ampliar as possibilidades de aplicação das tecnologias desenvolvidas pela instituição. Nesse contexto, ela abordou o trabalho de aceleração tecnológica conduzido no âmbito da gestão da inovação da CNEN, voltado a impulsionar o desenvolvimento de tecnologias com potencial de aplicação e aproximá-las de oportunidades de transferência e uso pela sociedade.
Experiências internacionais
Na sessão “Da Pesquisa ao Mercado Global: Modelos de Sucesso”, foram apresentadas experiências internacionais sobre a transformação de resultados de pesquisa em soluções e oportunidades de negócio. Participaram especialistas vinculados à Organização Holandesa para Pesquisa Científica Aplicada (TNO), ao Instituto Fraunhofer de Sistemas de Produção e Tecnologia de Design (IPK) e ao Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN/CNEN).
Laurens Steen apresentou a atuação internacional da TNO, enquanto Eduardo Rosa da Silva tratou do desenvolvimento tecnológico, da aproximação com a indústria e da importância de considerar as condições de mercado na estruturação de projetos de inovação.
Eduardo Rosa da Silva também destacou a identificação das cadeias de suprimentos, a disponibilidade de grupos interessados em investir no desenvolvimento tecnológico e oportunidades oferecidas pelo Brasil, como energia verde, abundância de matérias-primas e potencial de escala de produção. Ele ressaltou a importância de articular diferentes atores para que as pesquisas avancem para além do ambiente acadêmico.
Fabio Coral Fonseca apresentou o trabalho do Centro de Células a Combustível e Hidrogênio do IPEN/CNEN e destacou a importância de desenvolver pesquisas considerando suas possíveis aplicações. Segundo ele, a aproximação com a indústria é relevante, mas não esgota as missões da universidade, sendo necessário ampliar as possibilidades de aplicação do conhecimento científico e extrapolar as fronteiras da inovação.
Markus Will abordou a relação entre pesquisa, desenvolvimento tecnológico e desafios empresariais. Destacou as lacunas entre pesquisa básica e aplicação, assim como a necessidade de mudanças de mentalidade e de cultura entre os pesquisadores, para que considerem as demandas da indústria no desenvolvimento de tecnologias. Will também ressaltou o potencial da CNEN e do Brasil para transformar competências científicas e tecnológicas em oportunidades de negócios.
Da pesquisa às parcerias e aos negócios
O painel “Da Intenção ao Contrato: NITs, Hubs e Deep Techs na Prática” reuniu representantes de instituições de pesquisa, ambientes de inovação, governo e iniciativas empresariais para discutir os caminhos necessários à concretização de parcerias tecnológicas. Com moderação de Shirley Coutinho, ex-presidente e membro do Conselho Consultivo do Fórum Nacional de Gestores de Inovação e Transferência de Tecnologia (Fortec), a sessão contou com a participação de Carla Maia Einsiedler, da Fiocruz; Michael Rosen, do Rosalinda Franklin Science Park e da GenIP; e Luciana Cavalheira, pesquisadora do Instituto de Engenharia Nuclear (IEN/CNEN) e integrante da spin-off Radíon.
Carla Maia Einsiedler abordou os desafios de aproximar instituições de pesquisa e mercado. Destacou a necessidade de conciliar agilidade nas negociações com proteção do conhecimento, governança e transparência na gestão pública. Como caminhos para esse processo, apontou três frentes: antecipar decisões e discussões sobre possíveis parcerias, adotar flexibilidade nas negociações de licenciamento e buscar proporcionalidade nas soluções. A proposta é que a maior velocidade na transferência de tecnologia seja acompanhada da capacidade institucional de gerar valor público.
Michael Rosen abordou os obstáculos à comercialização de patentes e afirmou que, segundo os dados apresentados, mais de 80% não chegam ao mercado. Entre os fatores apontados estão a ausência de avaliação comercial, o baixo nível de maturidade tecnológica, a indisponibilidade dos inventores, a falta de publicações científicas revisadas por pares e o descompasso entre o tempo de desenvolvimento e o prazo de proteção da patente. No cenário internacional, mencionou ainda a ausência de uma estratégia de proteção via Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes (PCT) e dificuldades na atuação de profissionais de transferência de tecnologia, como o desconhecimento da indústria global e a falta de fluência em inglês.
Luciana Cavalheira compartilhou a experiência da Radíon, startup originada de pesquisas do IEN/CNEN que desenvolve tecnologias de encapsulamento de substâncias radioativas em polímeros, com aplicações nas áreas de radioquímica e medicina nuclear. Ela também abordou os desafios de transformar conhecimento científico em iniciativas de empreendedorismo e destacou que a atração e a permanência de profissionais qualificados dependem, entre outros fatores, de apoio institucional.
Ao encerrar o encontro, Daniela Archila apresentou a reestruturação da Política de Inovação da CNEN, orientada à atuação coordenada em rede e ao fortalecimento de um Núcleo de Inovação Tecnológica (NIT) proativo, capaz de validar modelos de negócios e contribuir para que as tecnologias desenvolvidas gerem valor e negócios sustentáveis. A iniciativa está estruturada em três eixos: organização do portfólio tecnológico a partir das competências institucionais e de oportunidades transversais; educação empreendedora para pesquisadores, equipes dos NITs e lideranças; e aceleração tecnológica e de negócios, com ações de inteligência tecnológica, validação, estabelecimento de parcerias e identificação de caminhos para a comercialização.
Entre as oportunidades apontadas por Archila estão a demanda global por aplicações nucleares, a criação de spin-offs e novos negócios, o licenciamento de propriedade intelectual, as parcerias internacionais e a geração de receitas por meio da inovação.
Giacomazzi também destacou a importância de uma cultura de pesquisa orientada para o mercado, que envolva tanto a mudança de mentalidade dos pesquisadores quanto das instituições. Ele avaliou o seminário como parte do processo de internacionalização da CNEN e de suas unidades técnico-científicas, com a apresentação, a instituições estrangeiras, de conhecimentos científicos desenvolvidos pela Comissão.
Ao sintetizar os principais pontos do encontro, Eduardo Giacomazzi destacou a importância de uma nova cultura de pesquisa orientada também para o mercado. Essa transformação, segundo ele, envolve não apenas a mudança de mentalidade dos pesquisadores, mas também das próprias instituições, para favorecer a aproximação entre ciência, inovação e setor produtivo.
Giacomazzi avaliou a realização do seminário como parte do processo de internacionalização da CNEN e de suas unidades técnico-científicas, em que se apresenta para instituições estrangeiras aquilo que se tem de mais avançado em conhecimento científico:
“Este evento foi pensado como um marco, um divisor de águas, para dentro das instituições que a gente coordena em parceria a partir dos NITs, de como levamos essa cultura da internacionalização e da inovação, principalmente transformando a comunidade como um todo. E nesse processo de transformação, este evento vem de encontro ao que estamos buscando: como trabalhar em rede? Diferentes competências, diferentes tecnologias e diferentes formas de fazer ciência aplicadas ao mercado. A forma com que trazemos dessa visão fundamental para o futuro da CNEN é um pouco do que esse seminário quer provocar na cultura interna”.
Segundo Giacomazzi, há a perspectiva de realizar outros seminários sobre Transferência Internacional de Tecnologia nas unidades da CNEN, para reforçar esse movimento internamente. Ele acrescentou que a parceria com a TNO trará para a Comissão um conceito de orquestração, a fim de permitir uma relação mais próxima da ciência com o mundo exterior, e isso incluir o mercado, a indústria e a sociedade.
Na visão da TNO, os avanços científicos e tecnológicos só têm impacto significativo na sociedade e no desenvolvimento econômico quando são utilizados em larga escala. A transcendência do cenário de inovação, de acordo com a empresa holandesa, se torna factível à medida que aumentam os investimentos globais em pesquisa e desenvolvimento.
CNEN e TNO assinam Carta de Intenções
Ao final do evento, CNEN e TNO assinaram uma Carta de Intenções (Letter of Intent), marcando uma nova etapa no processo de aproximação institucional entre as duas organizações. O instrumento estabelece bases para aprofundar o diálogo e identificar oportunidades de cooperação em pesquisa científica aplicada, desenvolvimento tecnológico, inovação, transferência de tecnologia e intercâmbio de conhecimentos e experiências.
A assinatura é resultado de um processo de articulação internacional, que inclui reuniões técnicas, intercâmbio de informações e duas missões institucionais aos Países Baixos, realizadas em 2025 e 2026.
Entre as áreas prioritárias de interesse estão a transição energética e as tecnologias de baixo carbono, incluindo hidrogênio, soluções Power-to-X – voltadas à conversão de energia elétrica em outros produtos e vetores energéticos – e o desenvolvimento de materiais avançados para aplicações energéticas e industriais. Essas possibilidades de cooperação dialogam com competências já existentes na CNEN e com iniciativas de pesquisa aplicada desenvolvidas pela TNO.
Além da cooperação técnico-científica, a aproximação contempla iniciativas transversais voltadas ao fortalecimento da gestão da inovação e da transferência de tecnologia, incluindo metodologias de aceleração tecnológica, empreendedorismo científico, estruturação de parcerias público-privadas e criação de empresas de base tecnológica (spin-offs).
Essas competências são relevantes para o desenvolvimento de ambientes capazes de transformar resultados de pesquisa em soluções tecnológicas e oportunidades de mercado. A experiência da TNO na valorização de tecnologias e no desenvolvimento de novos negócios representa, assim, uma oportunidade de intercâmbio de conhecimentos e práticas que poderá contribuir para o aprimoramento das estratégias de inovação da CNEN, especialmente na identificação de tecnologias com potencial de aplicação industrial, no estabelecimento de parcerias e na aproximação entre pesquisa e mercado.
A Carta de Intenções constitui uma etapa preparatória para a celebração de um Memorando de Entendimento (Memorandum of Understanding – MoU), que poderá oferecer um marco institucional mais abrangente para a continuidade da cooperação. O objetivo é avançar na identificação de oportunidades de interesse mútuo, combinando competências científicas e tecnológicas das duas instituições para estimular a inovação e fortalecer as relações entre Brasil e Países Baixos.
Escrita por: José Lucas Brito (IEN/CNEN) e Paula Falcão (CNEN)