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1957 — IEA-R1: quando o Brasil passou a operar seu primeiro reator de pesquisa
Na madrugada de 16 de setembro de 1957, um acontecimento marcou a história da ciência brasileira: o reator nuclear de pesquisas IEA-R1 atingiu sua primeira criticalidade e iniciou suas atividades. Era o primeiro reator nuclear de pesquisa do Brasil e também do Hemisfério Sul e sua inauguração oficial aconteceu meses depois, em janeiro de 1958.
O equipamento foi instalado no campus da Universidade de São Paulo (USP), em uma área da Cidade Universitária, resultado de uma disputa que envolveu diferentes instituições e estados brasileiros. Minas Gerais, onde funcionava o Instituto de Pesquisas Radioativas, estava entre os interessados em receber o equipamento, mas São Paulo acabou escolhido por reunir, naquele momento, uma estrutura importante para a física experimental.
O IEA-R1 era um reator de pesquisa do tipo piscina, projetado e construído pela empresa norte-americana Babcock & Wilcox no contexto do programa Átomos para a Paz. À frente do projeto esteve Marcello Damy de Souza Santos, um respeitado físico experimental e primeiro superintendente do instituto.
Um reator de pesquisa é, sobretudo, uma infraestrutura científica. Ele permite produzir conhecimentos, realizar experimentos, formar pesquisadores e desenvolver aplicações de radioisótopos.
A operação do IEA-R1 ajudou a criar as condições para que o Brasil avançasse em áreas que hoje parecem distantes da imagem tradicional associada à energia nuclear. Foi nesse ambiente que começaram a se desenvolver pesquisas que contribuiriam, por exemplo, para a produção de radioisótopos e radiofármacos utilizados posteriormente na medicina nuclear.
A primeira produção de iodo-131 para aplicações médicas aconteceu já em 1959, um marco na ciência nacional, com a ativa participação de Constância Pagano, cientista pioneira na área de medicina nuclear em uma época em que as mulheres tinham que superar muitos obstáculos.
O IEA-R1 também se tornou um espaço de formação de recursos humanos. Gerações de pesquisadores, engenheiros, físicos, químicos e técnicos passaram por suas instalações. Diversos nomes de destaque foram decisivos nos primórdios do então IEA, contribuindo com pesquisas e projetos de grande vulto e para a consolidação do reator como uma instalação de extrema importância para o país, em diversos aspectos. Algumas dessas personalidades foram Rômulo Ribeiro Pieroni, Rui Ribeiro Franco, Alcídio Abrão, Fausto Walter de Lima, Bertha Floh de Araújo.
A história do reator demonstra algo essencial para compreender os 70 anos da CNEN: infraestrutura científica produz efeitos que vão muito além de sua própria existência física. Um equipamento instalado em 1957 gera até os dias atuais conhecimento, forma profissionais que desenvolvem novas tecnologias e contribui para aplicações que impactam diariamente a vida dos brasileiros.
Até hoje o IEA-R1 continua sendo uma referência histórica da pesquisa nuclear brasileira. Sua trajetória se conecta diretamente à história do atual Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), unidade da CNEN. O instituto alcançou feitos históricos, inclusive com o domínio tecnológico que permitiu produzir, com tecnologia inteiramente nacional, combustíveis nucleares para o reator.
Em 2026, quando a CNEN celebra 70 anos, olhar para o IEA-R1 significa olhar para um dos primeiros momentos em que o Brasil demonstrou que poderia construir conhecimento e desenvolver competências próprias.