Notícias
PATRIMÔNIO IMATERIAL
Marabaixo: tradição, memória e resistência que atravessam gerações no Amapá
Foto: Gabriel Penha
Ao som de tambores de madeira e couro, conhecidos como caixas, versos entoados em coro falam de fé, alegria, crítica e resistência. Ao redor dos tocadores e das cantadeiras, homens, mulheres e crianças dançam em uma roda que se movimenta no ritmo da música. Assim se manifesta o Marabaixo, expressão cultural desenvolvida pelas comunidades negras do Amapá.
Mais do que uma manifestação artística, o Marabaixo reúne práticas de fé, sociabilidade e transmissão de conhecimentos. Nas rodas, famílias negras reafirmam a ancestralidade africana e mantêm vivas memórias e histórias relacionadas às lutas por dignidade, identidade e pertencimento.
Comunidades
As rodas são realizadas principalmente por famílias negras em bairros como Santa Rita, Laguinho e Favela, em Macapá, e em Mazagão Velho, distrito do município de Mazagão.
A prática é vivenciada nos barracões, espaços comunitários ligados às casas das famílias ou localizados no centro dos bairros. É nesses locais que são organizados os festejos, as rezas, os cantos e a preparação de comidas e bebidas tradicionais, como os caldos e a gengibirra, preparada com gengibre e cachaça e tradicional nas celebrações.
Esses momentos vão além da fé e da devoção. São também espaços de convivência, organização da vida comunitária e transmissão de saberes entre diferentes gerações.
Ritmo
Tudo começa com o toque das caixas. O som dos tambores conduz o ritmo dos ladrões, como são conhecidos os versos cantados em coro durante as rodas.
Os versos partem das experiências vividas pelas comunidades e das histórias transmitidas pelos mais velhos. A dança acompanha a cadência das caixas, com passos curtos e giros que envolvem todo o corpo. As saias rodadas das mulheres acrescentam cor e movimento à roda.
A música, a dança e a poesia se entrelaçam para contar histórias, expressar sentimentos e registrar aspectos da vida das comunidades que mantêm a tradição.
Celebrações
O calendário das festas de Marabaixo segue, em grande parte, datas relacionadas ao catolicismo popular, como as celebrações do Divino Espírito Santo e da Santíssima Trindade. Ao mesmo tempo, a manifestação mantém referências às religiões de matriz africana, presentes em seus rituais, cantos e formas de celebrar.
A força da tradição está diretamente relacionada ao cuidado das famílias e à preservação da memória dos antepassados. A cada ciclo de celebrações, conhecimentos, práticas e histórias são compartilhados entre os mais velhos e os mais jovens.
As mulheres são as protagonistas do Marabaixo. Elas conduzem rodas, lideram cantos, mantêm conhecimentos relacionados à prática e participam da organização dos barracões e dos festejos.
As crianças também têm papel fundamental nesse processo. Desde cedo, aprendem por meio da observação e da participação nas atividades da comunidade. Dessa forma, a tradição é transmitida de geração em geração, em um processo baseado na convivência, na escuta e na participação coletiva.
Herança
De acordo com os detentores do Marabaixo, a manifestação é compreendida como um legado das ancestralidades africanas que chegaram à região a partir do fim do século 18, tanto em decorrência da transferência da antiga Mazagão marroquina para o Amapá quanto da introdução de mão de obra negra escravizada para a construção da Fortaleza de São José de Macapá.
Essa trajetória histórica está presente nas memórias e nas narrativas das comunidades que mantêm o Marabaixo. A manifestação constitui, assim, uma forma de preservar referências culturais e fortalecer os vínculos entre passado e presente.
Patrimônio
Em 2018, o Marabaixo tornou-se Patrimônio Cultural do Brasil. O reconhecimento pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), com registro no Livro das Formas de Expressão, valoriza uma tradição que permanece viva nas comunidades negras do Amapá e que articula memória, identidade, ancestralidade, resistência e celebração.
Em cada roda, nos sons das caixas, nos versos dos ladrões e nos movimentos da dança, o Marabaixo reafirma a continuidade de uma cultura construída e preservada coletivamente ao longo das gerações.