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Físico que identificou o acidente com o césio-137 em Goiânia faz palestra no CDTN
Físico da CNEN Walter Mendes Ferreira faz palestra no CDTN (Foto: Deivid Oliveira)
Asérie ficcional “Emergência Radioativa”, baseada nos registros históricos, retomou o acidente radiológico com o césio-137 em Goiânia, em 1987. O enredo do protagonista Márcio se inspira, em grande parte, nas experiências vividas pelo físico Walter Mendes Ferreira, a primeira pessoa a identificar tecnicamente a contaminação.
Pela primeira vez em Belo Horizonte após o lançamento da série, Walter participou da Roda de conversa: Acidente Radiológico de Goiânia, organizada pelo Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN/CNEN), nesta quarta-feira (24/06). Atualmente, ele é chefe da Divisão de Emergências Radiológicas da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
No evento, o físico fez uma breve reconstituição do acidente. Ele conta que, nos primeiros atendimentos, foram priorizadas ações de identificação e isolamento dos focos de contaminação, tratamento médico das pessoas afetadas e esclarecimento ao público.
“O mundo não tinha planos de emergências para casos desse tipo. Muitas áreas não tinham protocolos e eles foram construídos enquanto as equipes trabalhavam. Por fim, o trabalho realizado em Goiânia virou referência no mundo todo e mobilizou diferentes áreas do conhecimento”, comentou Walter.
Atuação do CDTN em Goiânia
Especialistas de todo o Brasil foram chamados a apoiar a resposta ao acidente. De acordo com um relatório de 1988, do então presidente da CNEN, Rex Nazaré Alves (1938-2026), o CDTN enviou 21 profissionais para a resposta à emergência. Na época, o Centro estava vinculado à Nuclebrás e enviou pessoas das áreas de Meio Ambiente, Metalurgia, Dosimetria e, principalmente, da Gerência de Rejeitos Radioativos.
A área de Rejeitos Radioativos é especialista na parte final do ciclo nuclear, que é o tratamento e acondicionamento dos rejeitos gerados. Em Goiânia, a equipe do CDTN atuou para que os materiais fossem retirados da cidade da forma mais segura possível.
Como forma de resgatar as ações de enfrentamento da emergência e dar visibilidade ao trabalho realizado, o evento contou com uma roda de conversa com Walter, e os profissionais Clédola Cássia Tello, Márcia Guzella, Maria Judite Haucz e Rogério Pimenta Mourão. O diálogo foi moderado pela servidora Valéria Cuccia.

- Da esq. para dir.: Antônio Pereira Santiago, Valéria Cuccia, Rogério Mourão, Clédola Cássia Tello, Amenônia Ferreira, Walter Mendes, Márcia Guzella, Luiz Reis e Maria Judite Haucz (Foto: Deivid Oliveira)
Relatos das profissionais
A servidora aposentada Márcia Guzella realizou diversos trabalhos de campo na região nos meses seguintes à identificação do acidente. Na primeira viagem, no início de outubro de 1987, ela conta que teve que deixar sua filha, que tinha apenas um ano de idade, para viajar para Goiás. "Eu ia para Goiânia feliz porque víamos a população e sabíamos da importância do nosso trabalho. Cada tambor que fechávamos era um a menos fazendo mal para as pessoas", relatou.
Maria Judite Haucz conta que trabalhou na descontaminação do ferro-velho, nas ruas contaminadas e também na deposição dos rejeitos radioativos. Em Goiânia, a técnica sofreu um acidente de trabalho durante o transporte de embalagens em um caminhão. Após a licença médica para se recuperar, Judite voltou às atividades externas em Goiás. "Havia uma necessidade muito grande de conhecimento. Qualquer contribuição era muito bem acolhida pelo grupo de técnicos. Fiz meu trabalho graças ao suporte dos colegas", descreveu.
Desafios do trabalho
Rogério Pimenta Mourão é o atual chefe da Gerência de Rejeitos Radioativos do CDTN e atuou na promoção do parque industrial da região para garantir que as empresas locais conseguissem atender às demandas do trabalho de deposição dos rejeitos. A área nuclear passou por ações preventivas no final da década de 1980. "Após o acidente, foi realizada uma operação preventiva de acondicionamento de fontes radioativas fora de uso em todo o Brasil. Elas foram destinadas aos depósitos das unidades da CNEN. Houve, então, uma reestruturação nesse sentido", explicou.
Clédola Cássia de Tello, uma das coordenadoras do projeto CENTENA, havia defendido uma dissertação sobre a retenção de césio na época. Apesar dos conhecimentos técnicos, ela relata que uma das dificuldades era trabalhar nas ruas. Se dentro dos laboratórios, as pessoas envolvidas sabem qual é a conduta a ser adotada, a atuação em Goiânia era muito diferente do que ela tinha vivido até então. "Uma coisa era trabalhar dentro dos laboratórios. Outra coisa é estar no meio da casa das pessoas, retirando pertences, falando que ela não pode mais estar ali. Eu sofria porque via mães, como eu, com crianças pequenas, mas, ao mesmo tempo, sabíamos que estávamos fazendo um trabalho com seriedade em um ambiente com altos níveis de radiação", contou.
Servidores aposentados que atuaram em Goiânia e estiveram presentes no evento foram citados nominalmente: Antônio Pereira Santiago, Luiz Reis e Rubens Moreira pelas áreas de Metalurgia, Rejeitos Radioativos e Meio Ambiente, respectivamente. Dos servidores ativos, também foi citada a pesquisadora Thêssa Alonso, que atuou na área de Dosimetria.
Resgate da memória
Na ocasião, foi feito um levantamento de registros fotográficos com a disponibilização de fotos do acervo do Serviço de Gerência de Rejeitos Radioativos do CDTN. A iniciativa partiu da equipe da Assessoria de Comunicação em parceria com a arquivista Marina Burgarelli, vinculada à Divisão de Formação Especializada do Centro. As imagens históricas podem ser acessadas neste álbum.
Já as fotos do evento podem ser acessadas aqui.
Deize Paiva
Assessoria de Comunicação
comunicacao@cdtn.br