DESAFIOS DA EXPANSÃO DA GERAÇÃO EÓLICA E SOLAR
O setor elétrico brasileiro atravessa uma transformação profunda, a partir da inserção massiva de fontes renováveis variáveis, como eólica e solar. Embora essencial para a transição energética, esse crescimento, especialmente na Região Nordeste, trouxe desafios à expansão da geração em relação à capacidade de transmissão e à flexibilidade operativa do sistema. Como resultado, houve um aumento crítico dos cortes de geração, conhecidos como curtailment.
Um marco decisivo nesse contexto foi a perturbação de 15/08/2023. O evento revelou uma discrepância técnica grave. O desempenho real em campo dos controles de tensão e de suporte dinâmico de potência reativa das usinas eólicas e fotovoltaicas mostrou-se muito aquém do que se poderia prever pelos modelos matemáticos que os agentes forneciam.
Essa situação obrigou o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a adotar premissas mais conservadoras e reduzir os limites de intercâmbio de energia, o que levou a um agravamento das restrições para garantir a segurança dinâmica do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Os cortes de geração ocorrem por três motivos principais: indisponibilidade externa, que decorre de falhas na rede; confiabilidade elétrica, por motivos de segurança da rede; e razão energética, que se relaciona a uma sobreoferta de energia ao sistema.
As restrições por confiabilidade e por indisponibilidade tiveram predomínio historicamente. Contudo, as tendências indicam que o curtailment por razão energética se tornará estrutural e predominante até 2029. Um agravante central é a Micro e Minigeração Distribuída (MMGD), que já se aproxima de 50 GW de capacidade instalada e opera sem supervisão ou controle pelo ONS.
Ao abater a carga líquida durante o dia, a MMGD intensifica a sobreoferta. Força, assim, o operador a realizar cortes profundos nas usinas eólicas e solares centralizadas para manter o equilíbrio carga-geração, criando um cenário de desigualdade operacional.
Esse cenário gera insegurança jurídica e prejuízos bilionários. Além disso, a falta de ressarcimento adequado para cortes energéticos e de confiabilidade ameaça a solvência de projetos e afasta novos investimentos.
Para superar esses desafios, o setor demanda uma abordagem multifacetada. Entre as alternativas, incluem-se:
- Soluções de infraestrutura, com a instalação de compensadores síncronos e novas linhas de transmissão, de forma a permitir maior escoamento de energia
- Flexibilidade e armazenamento, a partir da introdução de sistemas de armazenamento, para deslocar a energia excedente para horários de ponta e para mitigar a variabilidade das renováveis
- Modernização regulatória, por meio de uma revisão das regras para permitir que se compartilhe de maneira mais equânime o rateio dos cortes e para criar sinais de preço que incentivem o consumo nos momentos de sobreoferta
- Ampliação da demanda, de forma a proporcionar novos consumos, como datacenters, hidrogênio verde e exportação de energia.
Em suma, a viabilidade da expansão renovável no Brasil depende agora menos da instalação de novas placas ou turbinas e mais da capacidade de dotar o sistema de inteligência, flexibilidade e robustez na transmissão para integrar esses recursos de forma eficiente.
Finalizado em fevereiro/2026
