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RETROSPECTIVA IEC-COP30
Ciência, Saúde e Amazônia: o ano em que o IEC se projetou no cenário climático global
O ano de 2025 marcou uma virada estratégica para o Instituto Evandro Chagas (IEC/SVSA/MS). Mais do que consolidar sua excelência histórica em pesquisa biomédica e vigilância epidemiológica, o Instituto firmou-se como um dos principais articuladores científicos da agenda de saúde e clima na Amazônia, diante dos desafios globais da COP30.
Em um período em que o mundo voltou os olhos para Belém, cidade-sede da conferência climática da ONU, o IEC desempenhou um papel fundamental: promoveu ciência aplicada, construiu pontes entre saberes locais e globais, reforçou a formação de novos talentos e liderou debates estratégicos sobre saúde, mudanças climáticas, biodiversidade e justiça social. O trabalho do Instituto é a prova de que a Amazônia não é apenas uma região a ser protegida, mas também um território de produção de soluções.
A atuação da instituição não se restringiu às fronteiras da Amazônia. Com uma agenda que combinou pesquisa, educação, inovação tecnológica e cooperação internacional, o IEC mostrou ao Brasil e ao mundo que a resposta aos desafios do nosso tempo passa necessariamente pela valorização da ciência, da equidade e da integração entre saúde humana, animal e ambiental — a chamada abordagem "Uma só saúde".
Ao sediar a COP30 em Belém, o Brasil não apenas abriu as portas da maior floresta tropical do mundo, mas permitiu que instituições como o IEC demonstrassem que a resiliência climática é, fundamentalmente, uma questão de sobrevivência e equidade em saúde.
Nesta reportagem especial, revisitamos as principais iniciativas do IEC relacionadas à agenda de Clima e Saúde, com foco em dois grandes eixos: as ações durante a COP30 e a intensa preparação institucional ao longo de 2025. Um retrato de como a ciência amazônica respondeu e responde ao seu tempo.
Retrospectiva 2025 – Clima e Saúde no Instituto Evandro Chagas
I- O protagonismo do IEC na COP30: da Green Zone à agenda global
A atuação do IEC em 2025 dividiu-se entre o rigoroso planejamento preventivo e o protagonismo diplomático e científico durante os dias da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).
1. GreenZone: um pavilhão para traduzir evidências científicas em soluções em saúde
Entre 10 e 21 de novembro, o IEC estruturou um espaço institucional na GreenZone, com programação diária voltada a conectar pesquisadores, gestores, governo, setor privado, comunidades tradicionais e parceiros, com a ideia central de converter conhecimento científico em caminhos concretos para serviços de saúde resilientes diante da crise climática. O estande do IEC na GreenZone abrigou debates de alto nível e foi o único espaço da área dedicado 100%, nos 11 dias, à interface clima-saúde.
A programação incluiu mais de 100 painéis, palestras, rodas de conversa e entrevistas, com transmissão ao vivo pelo canal do Instituto no YouTube, abordando temas como arboviroses na era climática, atenção primária e resiliência, biodiversidade e saberes tradicionais, saúde reprodutiva, saneamento em territórios indígenas e justiça socioambiental.
A abertura da programação, no dia 10 de novembro de 2025, marcou ainda a comemoração dos 89 anos do IEC.
2. Legado Físico e Intelectual: inauguração do Museu do IEC e um dossiê sobre crise climática da RPAS
Entre os destaques do período, a inauguração do Museu do Instituto Evandro Chagas (MEV/IEC), no casarão histórico da Av. Almirante Barroso, foi um dos legados estruturais da COP30, com a missão de ampliar o acesso da sociedade ao conhecimento científico e de valorizar a trajetória quase centenária do IEC e sua contribuição à saúde pública no Brasil e na Amazônia.
O museu abriu com sete exposições: quatro institucionais (como “IEC: Ontem e Hoje” e “Ciência & Fotografia”) e três de instituições parceiras (Universidade do Estado do Pará - UEPA e Universidade Federal do Pará - UFPA) entre as quais: “Cientistas e Instituições Científicas e Tecnológicas da/na Amazônia (1822–2022)” e “Constelações Femininas: mulheres que iluminam a Ciência”.
No mesmo dia, aconteceu o lançamento do dossiê temático “Saúde e Meio Ambiente na Pan-Amazônia: Ciência, Território e Resistência em Tempos de Crise Climática”, na Revista Pan-Amazônica de Saúde (RPAS).
3. Cooperação Internacional e Novas Ferramentas
No estande do IEC, Brasil e França reforçaram a aliança contra a resistência aos antimicrobianos (RAM) e no combate às aborviroses, discutindo como a crise climática acelera a disseminação de microrganismos resistentes e a distribuição das doenças transmitidas por mosquitos. A programação foi uma coorganização do IEC, bioMérieux, da ANRS-MIE, da Embaixada da França no Brasil e da enviada especial da presidência da COP para a saúde, Ethel Maciel.
Além disso, o espaço do IEC na GreenZone abrigou programação de diversas secretarias do Ministério da Saúde, entre elas, o lançamento do Guia de Mudanças Climáticas e Saúde, ferramenta disponível no SUS Digital para orientar profissionais sobre cuidados em eventos climáticos extremos.
4. Dia da Saúde: o IEC no centro do debate de implementação
No Dia da Saúde (13 de novembro), a agenda ganhou densidade de gestão e visibilidade na Zona Azul: debates sobre governança, financiamento e evidências para implementar serviços mais robustos e integrados ao território, atentos às vulnerabilidades de populações indígenas, ribeirinhas e urbanas.
O recorte social apareceu sem rodeios: discussões sobre gênero, proteção de mulheres da floresta e racismo ambiental, reafirmando a ideia de que justiça climática também é política pública de saúde.
A diretora do IEC, Lívia Caricio Martins, participou da programação do Dia da Saúde na BlueZone da COP30, principal área de debate da Conferência, onde reuniam os representantes dos países. Liderado pelo ministro da saúde, Alexandre Padilha, o dia foi dedicado à apresentação do Plano de Ação em Saúde de Belém. Com o documento, o Brasil reafirmou seu compromisso de colocar a saúde no centro da agenda climática global, lançando um plano que articula esforços internacionais, nacionais e regionais para ampliar a resiliência do setor.
O Plano de Ação em Saúde de Belém, reconhecido pela OMS como uma das principais estratégias para fortalecer sistemas de saúde resilientes às mudanças do clima, é o primeiro plano internacional de adaptação climática dedicado exclusivamente à saúde, um marco da COP30.
O Dia da Saúde na COP30 se encerrou com a visita do Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, ao estante do IEC, acompanhado do Zé Gotinha. Veja como foi. Na ocasião, o Ministro fez uma avaliação sobre os debates do Dia da Saúde e falou sobre a importância do Instituto Evandro Chagas.
5. IEC na programação do MCTI (Casa da Ciência)
Quatro pesquisadoras do IEC, participaram, em 20 de novembro, da mesa-redonda “Mudanças Climáticas e Saúde” na Casa da Ciência, espaço do MCTI instalado no Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) durante a COP30, voltado a aproximar a sociedade do conhecimento científico e de soluções climáticas conectadas à Amazônia.
Representaram o IEC Tânia Chaves (SEPAR/IEC), Giselle Rachid Viana (SEPAR/IEC e assessora técnico-científica da Direção do IEC), Livia Casseb (SEARB/IEC) e Cintya Souza (SEBAC/IEC). No debate, elas abordaram a medicina de viagem como estratégia de mitigação de riscos em contexto de alta mobilidade; evidências sobre malária sensível ao clima e associada a alterações ambientais (incluindo a relação com desmatamento); impactos das mudanças climáticas na dinâmica de vetores e arboviroses; e a leptospirose como zoonose ligada à vulnerabilidade social e ao regime de chuvas na Região Norte, com alerta para mudanças recentes nos perfis de Leptospira observados em pesquisas do IEC.
II- Protagonismo que exigiu preparação
O sucesso da atuação do IEC na COP30 foi resultado de um cronograma intenso de preparação que começou ainda em 2024 e se intensificou já nos primeiros meses de 2025.
1. Reunião de Consulta Preliminar do Plano de Ação de Clima e Saúde da COP30
Em março de 2025, o IEC participou da Reunião de Consulta Preliminar do Plano de Ação de Clima e Saúde da COP30, liderada pelo Ministério da Saúde em parceria com a OPAS, em Brasília.
A diretora do IEC ressaltou a vulnerabilidade amazônica diante da recorrência de eventos extremos e a necessidade de ampliar financiamento para mapear e monitorar repercussões das mudanças climáticas na saúde, defendendo evidências científicas robustas como base de políticas públicas.
2. CIEVS e resposta rápida: vigilância sindrômica como estratégia para evento de massa
Ainda na preparação, em abril de 2024, o IEC, por meio do CIEVS, assumiu compromisso de apoiar planos e atividades para a COP30 com monitoramento de potenciais ameaças emergenciais à saúde humana antes, durante e depois do evento.
A proposta inclui assistência diagnóstica baseada em vigilância sindrômica febril/exantemática, com notificação imediata e encaminhamento para investigação, alinhada às exigências de contenção de surtos e ao Regulamento Sanitário Internacional.
3. Vigilância e biossegurança: planos estratégicos prontos para uso
Em eventos de massa, riscos sanitários aumentam. Para enfrentar esse cenário, o Instituto publicou dois documentos estratégicos elaborados pelo GT-COP30/IEC: o Plano de Contingência do IEC para a COP30 e o Plano de Gestão de Riscos e Resposta a Emergências Relacionadas a Patógenos de Alta Consequência.
Esses planos estabeleceram diretrizes preventivas e protocolos de resposta, com foco em biossegurança e vigilância epidemiológica, prevendo cenários como surtos infecciosos, eventos de massa e riscos ambientais associados à concentração de pessoas durante a conferência.
O próprio GT-COP30 foi instituído por portaria (Portaria IEC nº 108/2025) para planejar, coordenar e executar ações estratégicas de vigilância, biossegurança e resposta a emergências em saúde pública associadas ao aumento da mobilidade urbana no período da COP30.
4. Ciência Aplicada e Diálogo com a Sociedade
Ao longo do ano, o IEC inseriu a pauta climática em diversas das suas atividades de ensino e extensão:
• A 3ª Semana do Meio Ambiente debateu os impactos da poluição plástica na saúde humana e ambiental na Amazônia.
• Os cursos de Verão em Virologia e de Gastroenterites Virais focaram especificamente nos desafios impostos pelas alterações climáticas na disseminação de doenças.
5. Capacitação para ameaças QBRN: preparação técnica com simulação realista
Em maio, servidores do IEC atuaram como facilitadores no “Treinamento e Simulado de Mesa: Emergências em Saúde Pública Associadas aos Agentes QBRN”, em Belém, organizado pelo Departamento de Emergências em Saúde Pública (DEMSP/SVSA/MS) com apoio da Secretaria de Estado da Saúde do Pará (SESPA).
A capacitação foi estruturada em módulos radiológico, químico, biológico e simulado de mesa, com exercícios práticos para cenários de emergência que poderiam ocorrer durante a COP30, reforçando o pilar de prontidão para riscos complexos em evento internacional.
6. O IEC no principal “aquecimento” de saúde para a COP: a Conferência Global sobre Clima e Saúde
Em julho, o IEC participou da 5ª Conferência Global sobre Clima e Saúde, em Brasília, o maior evento de saúde preparatório para a COP30, voltado a soluções para sistemas resilientes às mudanças climáticas.
O Instituto foi representado por sua direção e áreas estratégicas, e o encontro também serviu de palco para a apresentação do anteprojeto do Plano de Ação de Saúde de Belém, ancorado em justiça climática e equidade em saúde e estruturado em eixos como vigilância e monitoramento, políticas baseadas em evidências e inovação.
7. Agosto: ciência amazônica dialoga com a Presidência da COP30
Em agosto, o IEC participou de um movimento mais amplo de articulação científica: nos dias 19 e 20, na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), na cidade de Manaus, ocorreu o encontro da comunidade científica e tecnológica da Amazônia com a presidência da COP30, com o objetivo de apresentar um documento com soluções elaborado por 40 instituições para a Agenda de Ação do Mutirão Global contra a Mudança do Clima (2025–2035) e para a COP30.
O IEC e a Fiocruz-AM conduziram conversas sobre sistemas de saúde resilientes e conectaram essas soluções ao Plano de Ação de Saúde de Belém, com princípios de justiça climática e equidade.
A iniciativa, conduzida pelo Conselho de Desenvolvimento Social Sustentável (CEDSS ou “O Conselhão”) da Presidência da República, levou à organização da publicação do livro “Contribuições da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia para Agenda de Ação da COP30” e teve lançamento durante o evento global sobre clima em Belém em três oportunidades: no Museu das Amazônias, no estande da UFPA, na BlueZone; e no estande do IEC, na GreenZone.
8. Vigilância ampliada: “Medicina do Viajante” e orientação gratuita
Outra iniciativa de preparação foi a criação do Núcleo de Orientação ao Viajante, em parceria com o Centro Universitário do Estado do Pará (CESUPA), com atendimento às sextas-feiras, das 13h às 17h, voltado a orientar gratuitamente viajantes brasileiros e estrangeiros, reduzindo riscos de importação e exportação de doenças em um contexto de intensa mobilidade internacional.
9. Encontro com o Presidente da República
Para encerrar o ano e como fruto da agenda de preparação para a COP, a integração do IEC na iniciativa “Contribuições da Comunidade Científica e Tecnológica da Amazônia para Agenda de Ação da COP30” levou a instituição a participar, representada pela diretora, Lívia Caricio, da 6ª Reunião Plenária do “Conselhão”, realizada no Palácio Itamaraty, em Brasília, no dia 04 de dezembro. A reunião teve a liderança do presidente da república, Luiz Inácio Lula da Silva, que, na ocasião, recebeu uma cópia do livro produzido no âmbito da iniciativa.