Histórico
A história do Instituto Evandro Chagas (IEC) começou com a chegada de Evandro Chagas ao Pará, em 1936, para estudar a leishmaniose visceral, também conhecida como calazar. A doença havia sido detectada no Brasil pela primeira vez em 1934, pelo Serviço de Febre Amarela da Fundação Rockefeller, em amostras provenientes de várias localidades do país. A organização de uma instituição em Belém para apoiar as investigações se mostrou importante para a comissão do Instituto Oswaldo Cruz liderada por Chagas, e foi ao encontro de propostas da classe médica local. Denominada Instituto de Patologia Experimental do Norte (IPEN), foi criada com apoio do governo estadual, no âmbito de sua estrutura, estabelecendo-se em um velho casarão no bairro do Marco. Além do calazar, foram examinadas outras moléstias típicas da região, como malária, filariose, bouba, verminoses intestinais.
Antes mesmo da aprovação da lei que oficializaria a criação da instituição, Evandro Chagas já organizava o trabalho de campo. O local escolhido foi Abaeté, atualmente denominado Abaetetuba, a cerca de 130 km de Belém. Ali foram estabelecidas estruturas de apoio para as pesquisas, como uma pista de pouso para aviões e acampamento para os pesquisadores. Eles chegavam ao município por meio de avião do Correio Aéreo Nacional e após percorrerem 18 km em uma trilha na floresta, alcançavam o local das investigações, em uma área rural chamada Piratuba. As muitas expedições científicas realizadas naquela área contribuíram significativamente para conhecer as doenças presentes na Amazônia.
A equipe de Evandro Chagas era formada por médicos recém-formados e outros profissionais escolhidos entre os egressos das faculdades de Belém. Eles faziam cursos no Instituto Oswaldo Cruz e eram integrados ao serviço. Além desses, completavam o grupo outros pesquisadores, em sua maioria em começo de carreira, recrutados no Rio de Janeiro. Do grupo inicial, saíram nomes que se tornaram destaque nas suas áreas de especialidade em todo o país, com grandes contribuições à ciência e à saúde pública. Pode-se acrescentar também que as atividades de investigação realizadas no campo, iniciadas por estes jovens, tornaram-se o diferencial da instituição.
No ano de 1940, foi concebido plano de integração para a região amazônica, que tinha entre seus objetivos o combate à malária, apontada como um entrave ao desenvolvimento regional. Conduzido por Evandro Chagas, envolveu o IPEN em um extenso inquérito no Vale do Amazonas. O presidente Getúlio Vargas visitou a instituição em outubro e declarou apoio ao programa. Apesar do falecimento de Evandro, em um acidente aéreo, em novembro do mesmo ano, os trabalhos prosseguiram, e conseguiu-se um mapeamento das áreas endêmicas, com cerca de 22 mil lâminas de pacientes examinadas. Como homenagem ao cientista, morto aos 35 anos, o IPEN passou a se chamar Instituto de Patologia Experimental Evandro Chagas. Somente em 1943, passou a ter o nome pelo qual é conhecido até hoje: Instituto Evandro Chagas (IEC).
O Plano de Saneamento da Amazônia referido anteriormente não foi adiante, mas seus dados acabaram por ser utilizados pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP). Surgido em 1942, o SESP foi parte de acordo estabelecido entre os governos brasileiro e norte-americano, por ocasião da Segunda Guerra Mundial, e o IEC foi integrado a ele, primeiramente como órgão de pesquisas e, depois, como laboratório central. Aumentar a produção de borracha era um dos elementos do acordo, já que o Japão havia bloqueado o fornecimento proveniente da Ásia. Inúmeros trabalhadores vieram do Nordeste para os seringais da Amazônia, e o SESP tinha entre seus objetivos criar condições sanitárias básicas que possibilitassem o esforço de guerra, desenvolvendo ações de saneamento, organização de serviços de saúde e preparação de profissionais para o trabalho em saúde pública. O IEC permaneceu na estrutura do SESP, posteriormente Fundação SESP, até que esta, ao se fundir com a Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (SUCAM), deu origem à Fundação Nacional de Saúde, em 1991, na qual o Instituto permaneceu. Após, integrou outras estruturas do Ministério da Saúde, estando atualmente vinculado à Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente.
Nos anos 1950, um convênio do SESP com a Fundação Rockefeller possibilitou o início dos estudos de virologia na instituição, em especial dos arbovírus. Entre suas conquistas estão milhares de vírus isolados, centenas deles pela primeira vez no Brasil, dezenas associados a doenças em humanos, podendo ser citados dengue, febre amarela, febre de Mayaro e febre do Oropouche, que constituem graves problemas de saúde pública.
A transformação do SESP em fundação, nos anos 1960, trouxe novos desafios para a instituição, mas também novas oportunidades de cooperação científica e desenvolvimento. A chegada de pesquisadores britânicos financiados pela Wellcome Trust possibilitou a retomada dos estudos sobre leishmaniose na instituição, o que levou a uma nova classificação das espécies de leishmânias na América, além de dar novo impulso às pesquisas em parasitologia.
Se o trabalho de campo desde os primórdios foi um elemento de destaque nas investigações realizadas na instituição, os grandes projetos de infraestrutura na região amazônica, como a construção de rodovias, também se constituíram em oportunidades para estudos nosológicos. As equipes multidisciplinares do IEC participaram de pesquisas associadas a obras como as rodovias Belém-Brasília, Transamazônica, Santarém-Cuiabá e Perimetral Norte, contribuindo para a identificação e o estudo de diversos agentes infecciosos na região.
Ao longo de sua trajetória, o Instituto Evandro Chagas consolidou-se como uma das principais instituições de pesquisa em saúde pública na Amazônia. Atualmente, dispõe de laboratórios de referência regional e nacional, além de manter importantes parcerias científicas com instituições brasileiras e internacionais. A instituição conta também com áreas de apoio voltadas à memória institucional, ensino, desenvolvimento tecnológico e comunicação científica. Entre suas estruturas de pesquisa destacam-se laboratórios especializados em geoprocessamento, biologia celular e ultraestrutura, além do complexo de alta contenção biológica, que inclui laboratórios de Nível de Biossegurança 3 (NB3) e Nível de Biossegurança Animal 3 (NBA3). Essas instalações permitem o estudo seguro de agentes infecciosos de relevância para a saúde pública.
Localizado em uma região caracterizada por grande diversidade biológica e condições ambientais favoráveis à circulação de diferentes patógenos, a Amazônia, o Instituto Evandro Chagas desempenha papel estratégico na vigilância em saúde, na investigação científica e no monitoramento de doenças emergentes e reemergentes. Ao longo de sua história, a instituição tem contribuído de forma significativa para o avanço do conhecimento científico, para o fortalecimento das políticas de saúde pública e para a melhoria das condições de vida da população brasileira.