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70 ANOS CNEN
1987 — Goiânia: uma tragédia que transformou a cultura de radioproteção
Em setembro de 1987, Goiânia viveu um dos episódios mais marcantes da história da radioproteção mundial.
Uma fonte radioativa de Césio-137, retirada de um equipamento de radioterapia abandonado, foi violada e seu conteúdo acabou sendo manipulado por pessoas que desconheciam o risco envolvido. O material se espalhou por diferentes locais da cidade, provocando contaminações e atingindo centenas de pessoas.
A resposta envolveu diferentes instituições e profissionais. A CNEN mobilizou equipes especializadas para atuar na identificação da contaminação, triagem, monitoramento, descontaminação, coleta de amostras, gerenciamento de rejeitos e apoio às ações médicas.
O primeiro profissional a identificar o acidente foi o físico Walter Mendes Ferreira, que confirmou tecnicamente a presença de contaminação radioativa e acionou as autoridades competentes.
A dimensão da operação foi enorme. Este ano, durante o INAC, um evento promovido pela própria CNEN para revisitar o episódio, profissionais que participaram da resposta lembraram que cerca de 244 profissionais da CNEN e instituições parceiras estiveram envolvidos nas ações.
O acidente também teve uma dimensão humana que não pode ser reduzida aos números: casas foram interditadas, objetos pessoais descartados, famílias tiveram suas rotinas alteradas e pessoas foram submetidas a procedimentos médicos e acompanhamento.
Para as equipes técnicas, também foi uma experiência extrema. Foi necessário identificar áreas contaminadas, estabelecer procedimentos, realizar medições, proteger trabalhadores e população e lidar com uma quantidade enorme de materiais contaminados.
O acidente gerou cerca de 6 mil toneladas de rejeitos radioativos, posteriormente encaminhados para um depósito definitivo construído em Abadia de Goiás e Goiânia também deixou um legado institucional. O Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro Oeste (CRCN-CO/CNEN), construído em 1997, exerce o controle institucional dos depósitos e passou a ser um polo de pesquisa e formação na região.
A experiência acumulada durante a emergência contribuiu para o aprimoramento das práticas de radioproteção e gerenciamento de emergências radiológicas no Brasil. A própria CNEN reconhece o episódio como um ponto de inflexão para a instituição.
Falar sobre esse marco nos 70 anos da CNEN exige, portanto, equilíbrio. Não se trata de transformar uma tragédia em celebração. Trata-se de reconhecer que ciência e instituições públicas também são construídas a partir da capacidade de aprender com situações críticas.
A resposta ao acidente mostrou a importância de profissionais preparados, equipamentos adequados, protocolos, comunicação ágil e eficiente, cooperação entre instituições e uma estrutura permanente de radioproteção.
E deixou uma lição que continua atual: tecnologia exige conhecimento, responsabilidade e informação.
Hoje, quando a CNEN fala sobre formação, radioproteção e segurança, parte desse conhecimento também carrega a memória de Goiânia.