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70 ANOS CNEN
1959 — A tecnologia nuclear como aliada da saúde
Diagnóstico de doenças da tireoide utilizando iodo radioativo. Foto: Acervo CNEN.
Em 1959, apenas três anos depois da criação da CNEN, a tecnologia nuclear brasileira começou a produzir um resultado que ultrapassaria os laboratórios e chegaria diretamente à área da saúde: a produção experimental de iodo-131.
O radioisótopo, produzido no então Instituto de Energia Atômica (IEA), atual IPEN, seria utilizado para diagnóstico e tratamento de doenças da tireoide. A experiência é considerada um marco para a consolidação da medicina nuclear no Brasil.
A história é especialmente significativa porque ajuda a responder a uma pergunta que ainda hoje muitas pessoas fazem: o que a energia nuclear tem a ver com a minha vida? Em muitos casos, a resposta está em um hospital.
Radiofármacos são substâncias que incorporam radioisótopos e podem ser utilizadas para diagnóstico ou tratamento. Em exames de medicina nuclear, por exemplo, eles permitem acompanhar processos fisiológicos e obter informações que outras técnicas de diagnóstico não conseguem oferecer da mesma maneira.
O início da produção brasileira de iodo-131 representou, portanto, muito mais do que a fabricação de uma substância radioativa. Significou começar a construir no país uma cadeia de conhecimento que envolve física, química, engenharia, medicina, controle de qualidade, proteção radiológica e logística. Constância Pagano Gonçalves da Silva foi a cientista pioneira na radiofarmácia pública brasileira, que ajudou a iniciar a produção nacional.
A experiência evoluiu. Em 1963 teve início a produção rotineira de radioisótopos e radiofármacos no IPEN. Décadas depois, o instituto se tornaria um dos principais centros brasileiros de produção e pesquisa nessa área. A produção de radiofármacos também revela outra característica da ciência nuclear: o tempo é um fator decisivo.
Alguns radioisótopos têm meia-vida muito curta. Isso significa que não basta produzir. É necessário produzir com qualidade, segurança e, muitas vezes, estar próximo do local onde o material será utilizado. Por isso, a pesquisa nuclear envolve uma infraestrutura altamente especializada e uma cadeia de profissionais que muitas vezes permanece invisível para quem está do outro lado do processo: o paciente.
Quando uma pessoa realiza um exame ou recebe um tratamento baseado em medicina nuclear, existe por detrás daquele procedimento uma longa trajetória científica, que começa em pesquisas realizadas décadas antes, passa pelo desenvolvimento de tecnologias, pela produção do radiofármaco, pelo controle de qualidade e chega ao profissional de saúde. O marco de 1959 simboliza justamente esse encontro entre ciência e cotidiano, já que a energia nuclear está muito presente em nosso dia a dia.
O átomo, por exemplo, que tantas vezes aparece associado a imagens de grandes instalações e equipamentos complexos, também pode estar presente em uma pequena quantidade de substância utilizada para ajudar a diagnosticar ou tratar uma doença.
Essa talvez seja uma das melhores maneiras de compreender os 70 anos da CNEN: acompanhar como uma ciência estratégica foi, pouco a pouco, transformando conhecimento em aplicações concretas para a sociedade.