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1951 — Antes da CNEN, o Brasil começava a construir sua ciência nuclear
Os primórdios da Comissão Nacional de Energia Nuclear remontam à criação do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), em 1951, quando a energia nuclear era considerada uma área estratégica para o desenvolvimento científico e tecnológico do País. Naquele momento, sob a liderança do Almirante Álvaro Alberto, o CNPq passou a coordenar estudos, pesquisas e iniciativas voltadas ao aproveitamento dos recursos minerais nucleares brasileiros, defendendo o domínio nacional das tecnologias associadas ao ciclo do combustível nuclear.
Um dos desdobramentos dessa atuação foi a criação do Instituto de Pesquisas Radioativas (IPR), em Belo Horizonte, que contribuiu para uma trajetória que ajudaria a formar a infraestrutura nuclear brasileira, em 22 de agosto de 1952, vinculado à então Universidade de Minas Gerais. A instituição se tornaria um dos principais pontos de partida da pesquisa nuclear brasileira e é a origem histórica do atual Centro de Desenvolvimento da Tecnologia Nuclear (CDTN).
A criação do IPR aconteceu em um período em que a energia nuclear ocupava um espaço central na ciência e na geopolítica mundial. Poucos anos haviam se passado desde a Segunda Guerra Mundial e a humanidade começava a descobrir, ao mesmo tempo, as enormes possibilidades e os riscos associados ao domínio do átomo.
A partir daí, a própria necessidade de uma estrutura especializada levou à criação da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), em 10 de outubro de 1956, durante o governo de Juscelino Kubitschek. A nova instituição assumiu a condução da política nuclear brasileira, consolidando esforços que haviam sido iniciados no âmbito do CNPq e estabelecendo as bases para o desenvolvimento do programa nuclear nacional. No Brasil, o desafio era formar pesquisadores, desenvolver laboratórios e criar capacidade científica própria.
O IPR nasceu justamente com esse espírito e foi a primeira instituição brasileira dedicada inteiramente à energia nuclear, atuando em áreas como prospecção de minérios radioativos, física nuclear, metalurgia e materiais de interesse para o setor e a experiência acumulada em Minas Gerais seria fundamental para a formação de uma comunidade científica brasileira especializada em tecnologia nuclear. O instituto também ajudaria a criar uma cultura de pesquisa que ultrapassaria os limites dos laboratórios: formar pessoas, desenvolver conhecimento e prestar serviços à sociedade.
Essa história mostra que a trajetória da CNEN não começou exatamente em 1956, mas foi consequência de um movimento mais amplo de construção de uma capacidade nuclear brasileira que envolvia universidades, pesquisadores e instituições de pesquisa.
O IPR também é importante porque revela uma característica que permaneceria presente ao longo das sete décadas seguintes: a ciência nuclear brasileira nunca esteve restrita à produção de energia elétrica. Desde seus primeiros anos, envolveu pesquisa de materiais, física, medicina, indústria, meio ambiente e formação de profissionais.
Setenta e quatro anos depois da criação do IPR, o CDTN continua desenvolvendo pesquisas e serviços em diferentes áreas das ciências nucleares. Em 2026, a unidade completou 74 anos de existência.
Assim, quando a CNEN celebra seus 70 anos, também celebra uma história que começou antes dela. Uma história feita por pesquisadores que ajudaram a transformar uma área então emergente em conhecimento científico produzido no Brasil.
O ano de 1951 representa, portanto, um marco extremamente importante: antes de existir uma instituição nacional para coordenar o setor nuclear, já existia no país uma comunidade disposta a produzir conhecimento sobre o átomo.