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Quilombo de Manoel Congo
Por volta das cinco e meia da tarde de 11 de novembro de 1838, o sol já começava a desaparecer atrás das montanhas da Serra de Santa Catarina quando cerca de duzentas pessoas procuravam organizar mais uma noite de repouso em meio à mata atlântica. Haviam caminhado durante dias pelas encostas íngremes da Serra do Mar, abrindo caminho por trilhas estreitas, atravessando córregos e carregando consigo tudo o que julgavam necessário para sustentar a fuga. Eram homens e mulheres escravizados que haviam abandonado as fazendas das proximidades de Paty do Alferes, no Vale do Paraíba fluminense. A maior parte do grupo era formada por africanos, mas também havia escravizados nascidos no Brasil, de ambos os sexos. Exaustos, cobertos pela lama das trilhas e pela umidade constante da floresta, carregavam consigo uma esperança rara: a possibilidade de viver longe do domínio senhorial.
A liberdade, contudo, ainda parecia distante. Um grupo tão numeroso dificilmente conseguiria atravessar a serra sem deixar rastros. Todos sabiam que a fuga mobilizaria proprietários, capitães do mato e forças policiais da região. O que talvez não imaginassem era a rapidez com que uma grande expedição seria organizada para persegui-los. Ainda assim, era preciso parar. Próximo à fazenda do capitão Carlos de Miranda Jordão, encontraram um local que pareceu suficientemente seguro para passar a noite. Enquanto alguns limpavam o terreno onde armariam os ranchos, afastando o risco de cobras e outros animais peçonhentos, outros recolhiam lenha e utilizavam facões e machados para improvisar abrigos. Nos pontos mais altos da encosta, sentinelas observavam atentamente a mata. Depois de tantos dias de marcha, o descanso era necessário. Mas, naquela noite, ele duraria muito menos do que esperavam.
De algum ponto mais alto da encosta, um dos vigias percebeu primeiro o ruído que vinha da mata. Não eram sons comuns da floresta, mas passos, vozes e o movimento de muitos homens avançando serra acima. Logo veio o alerta. Espalhados pelo monte, os fugitivos correram para apanhar as poucas espingardas de que dispunham, além de facões, arcos, zagaias, lanças e machados. Em poucos instantes, o acampamento transformou-se em campo de batalha.
A fuga já não parecia possível para todos. Enquanto parte do grupo buscava se dispersar pela mata fechada, outros permaneceram para enfrentar os perseguidores. Aproveitando a posição elevada do terreno, abriram fogo contra a tropa que se aproximava e, em seguida, lançaram-se encosta abaixo em meio à fumaça da pólvora. O choque foi rápido e violento. Armados principalmente com facões, paus e algumas velhas espingardas, os quilombolas enfrentaram uma força numerosa e muito melhor equipada. A resistência não impediu o avanço dos guardas nacionais. Quando o combate terminou, o chão da serra estava coberto de mortos e feridos. Muitos conseguiram escapar protegidos pela mata e pela chegada da noite. Outros foram capturados. Entre eles estava Manoel Congo, apontado pelas autoridades como a principal liderança do grupo. O confronto, ocorrido nas encostas da Serra de Santa Catarina na tarde de 11 de novembro de 1838, deixou marcas profundas na memória dos contemporâneos e pode ser reconstituído graças a um conjunto de documentos produzidos pelas próprias autoridades encarregadas da repressão.
Uma das principais fontes para essa reconstrução encontra-se hoje preservada no pacote 860 do fundo AI - Série Justiça - Gabinete do Ministro (IJ1) sob a guarda do Arquivo Nacional. Trata-se de uma correspondência oficial que, nos últimos cinquenta anos, serviu de base para diferentes interpretações historiográficas sobre aquele episódio, denominado por José Antônio Soares de Sousa (1972) como um “efêmero quilombo”. Mais do que examinar o conteúdo desse documento, que disponibilizamos integralmente, interessa aqui compreender as circunstâncias de sua produção, circulação e preservação, bem como os usos e leituras que dele foram feitos ao longo do tempo.
A expansão da cafeicultura ao longo da década de 1830 levou à formação de grandes propriedades voltadas principalmente para a produção de café, que passou a ocupar posição central na economia local. A abertura de novas áreas de cultivo contribuiu para o aumento e a concentração da população escravizada sob o domínio dos grandes fazendeiros. Essas transformações afetaram diretamente as relações estabelecidas no interior das fazendas, modificando as formas de convivência, conflito e negociação entre senhores e escravizados. A expansão da escravidão na região esteve diretamente ligada à intensificação do tráfico atlântico de africanos escravizados. Embora oficialmente proibido em 1831, o comércio ilegal jamais foi completamente interrompido e voltou a crescer de maneira acelerada entre 1833 e 1837, impulsionado pela expansão da cafeicultura e pelo fortalecimento da classe senhorial articulada em torno da província e da Corte do Rio de Janeiro. O aumento do número de cativos e a rápida ampliação das grandes propriedades vieram acompanhados de um agravamento das tensões e dos conflitos entre senhores e escravizados no Vale do Paraíba, especialmente depois da eclosão de rebeliões como a de Carrancas (1833) e dos Malês (1835).
No ofício datado de 13 de novembro de 1838, o coronel-chefe da Guarda Nacional de Valença, Francisco Peixoto de Lacerda Werneck, relata ao presidente da província do Rio de Janeiro, Paulino José Soares de Souza, as operações conduzidas pela força encarregada de perseguir os escravizados fugidos das fazendas de Manoel Francisco Xavier. O documento acompanha os acontecimentos desde a tarde do dia 10, quando as tropas começaram a ser reunidas, até o dia seguinte ao confronto travado na Serra de Santa Catarina. Como era de praxe, o relato inicia-se de forma protocolar, registrando o “recebimento das portarias de 10 e 11 do corrente, datadas em Piraí”. Segundo demonstra o historiador Soares de Souza, o presidente da província encontrava-se naquela localidade por ocasião da inauguração da vila de Piraí, viagem durante a qual também inspecionava estradas da região. Foi nesse contexto que começaram a chegar as primeiras notícias da fuga de escravizados das fazendas Maravilha e Freguesia, em Paty do Alferes.
Lacerda Werneck informa que, em correspondência anterior, recebera autorização para mobilizar contingentes da Guarda Nacional “a fim de evitar que os escravos revoltados do Capitão-Mor Manoel Francisco Xavier” ampliassem os riscos à segurança da região. O documento revela, assim, não apenas a preocupação das autoridades e dos grandes proprietários diante da fuga de um número expressivo de cativos, mas também a rapidez com que a elite local foi capaz de organizar uma força armada de grandes proporções. Na sequência do relato, o coronel descreve a estrutura da expedição, mencionando nominalmente os responsáveis por cada divisão da tropa e reservando-lhes elogios que evidenciam os valores de bravura, honra e lealdade cultivados entre os homens encarregados da repressão.
quatro divisões, a primeira comandada pelo bravo Tenente José de Azevedo Ramos, a quarta pelo Ajudante José Mascarenhas Sauter, e as do centro por dois sargentos, tendo cada um a seu lado, um Inspetor de Quarteirão, nomeei Comandante de toda a força o Tenente Coronel Manoel Gomes Ribeiro de Avellar, e segundo Comandante o Major Antônio de Sousa Jordão, ficando eu com o comando geral para obrar de acordo com o juiz de Paz, que marchou a meu lado.
A menção a esses personagens não constituía mera formalidade administrativa. Ao nomear e elogiar os oficiais que participaram da expedição, Lacerda Werneck construía uma narrativa na qual determinados indivíduos surgiam como protagonistas da defesa da ordem escravista. Se, ao longo do documento, Manoel Francisco Xavier aparece repetidamente — ainda que de forma indireta — como o senhor prejudicado pela fuga dos cativos, figuras como Gomes Ribeiro de Avelar e outros comandantes são apresentadas como homens valorosos, responsáveis por restaurar a segurança da região. O ofício revela, assim, não apenas uma rede de alianças entre membros da elite local, mas também a existência de uma estrutura de mobilização previamente organizada, capaz de reunir em poucos dias um contingente considerável de homens armados. Como observam Ricardo Salles e Magno Fonseca Borges, “se por um lado, o medo e assombro tomaram conta da região e da província, por outro, ficou claro que os senhores locais já estavam preparados para lidar com situações extremas como aquela” (BORGES; SALLES, 2009, p. 447).
Ao longo do relato, o coronel reconstrói o itinerário percorrido pela expedição. Após dirigir um enérgico discurso à tropa, marchou ainda no dia 10 até a fazenda Maravilha, onde passaram a noite. O local possuía importância estratégica: fora dali que os escravizados haviam fugido, contando com o apoio dos rebelados da fazenda Freguesia. À medida que descreve a perseguição, Lacerda Werneck procura reforçar a determinação e a coragem dos comandantes, ao mesmo tempo em que registra uma série de marcos geográficos que hoje permitem reconstituir, ao menos parcialmente, o trajeto seguido pela tropa enquanto avançava pelas picadas abertas pelos fugitivos:
No dia seguinte, assentou o juiz de Paz comigo dividir a força em duas colunas, partindo a da esquerda debaixo do comando do intrépido Major Jordão e do corajoso Inspetor de Quarteirão João Borges Damasceno, e a da direita comandada pelo digno Tenente-Coronel Avellar, tendo eu e o juiz de Paz seguido com esta coluna, ordenando à da esquerda que explorasse as matas que ficam à direita da estrada de Santa Catarina e fosse fazer junção conosco nas abas da pedra chamada do Silveira.
A marcha da tropa permitiu identificar diversos vestígios deixados pelos escravizados liderados por Manoel Congo, incluindo os acampamentos montados ao longo da fuga. Em um único dia de perseguição, os soldados percorreram uma distância que provavelmente havia exigido ao menos três noites de deslocamento dos fugitivos.
A nossa divisão, tomando o lado do nascente, apenas ganhou o cabeço do monte que fica nas costas do engenho daquela fazenda, encontrou o grande atilho dos escravos e, abaixo deste grande monte, trinta e três ranchos onde haviam pernoitado a primeira noite. Seguimos sua picada em meio do serrote que serve de encosta à dita Pedra do Silveira, outro lugar onde caímos na garganta da referida pedra, cujo trânsito difícil vencemos em meia hora. Aí se nos uniu a coluna da esquerda, que nada havia encontrado. Ganhamos o córrego que recebe as águas desta grande rocha e que lhe vai paralelo e, no extremo direito daquela, outro acampamento com alguns tições de fogo; a sua direção é então à Serra das Araras. Às três horas da tarde, outro acampamento.
A comparação entre os percursos, contudo, exige cautela. Como argumenta Flávio dos Santos Gomes (1995), tratava-se de deslocamentos realizados em condições muito distintas. Os escravizados viajavam em número consideravelmente maior, carregando ferramentas, armas, mantimentos e animais, além de não disporem de trilhas previamente abertas. Ao contrário dos perseguidores, precisavam abrir caminho na mata à medida que avançavam, enfrentando as dificuldades impostas pela floresta e pelo relevo acidentado da Serra do Mar. Mesmo contando com pessoas experientes para orientar a marcha, a travessia exigia um esforço muito superior ao da tropa encarregada de persegui-los.
Restava-nos o último, mas uma marcha seguida de oito horas pelos escarpados dos montes começava a fatigar grande parte da tropa, muita dela pouco afeita a andar a pé. O desejo de combate era extraordinário e, para prevenir algum incidente desagradável, ordenei aos guias que não se desunissem e demorassem o passo. Finalmente, às cinco horas e meia da tarde, na descida de um serrote cujas nascentes vão à Fazenda do Capitão Carlos de Miranda Jordão, em Santa Catarina, sentimos golpes de machado e fala de gente.
Mesmo os homens da Guarda Nacional, que seguiam as trilhas já abertas pelos fugitivos, começavam a dar sinais de exaustão após horas de marcha. O relato de Lacerda Werneck evidencia tanto as dificuldades impostas pelo terreno quanto a expectativa crescente de um confronto que, naquele momento, parecia iminente. Foi nesse momento que a força senhorial finalmente alcançou os quilombolas e o confronto teve início. Embora escrito a partir da perspectiva dos perseguidores, o ofício contém informações valiosas para compreender não apenas as tensões que atravessavam a sociedade escravista do Vale do Paraíba, mas também a experiência, as estratégias e a capacidade de ação dos próprios escravizados. Lido a contrapelo, o documento permite vislumbrar aspectos que escapam às intenções de seu autor.
A resistência dos fugitivos é um desses exemplos. Ao descrevê-la, Lacerda Werneck buscava ressaltar a bravura da tropa e a dificuldade da missão, talvez até justificar a violência empregada contra pessoas e bens durante a perseguição. Ainda assim, suas palavras revelam a determinação daqueles homens e mulheres em evitar a captura: “notei que nenhum só fez alto quando se mandava parar, sendo preciso espingardeá-los pelas pernas. Uma crioula de estimação de D. Francisca Xavier não se entregou se não a cacete e gritava: morrer sim, entregar não”. O relato prossegue informando que “foram presos 22 e mortos 7, que se acharam, ficando todo o mato rastilhado de sangue em todas as direções; dos presos, 7 ou 8 estão gravemente feridos”.
Os números apresentados pelo coronel merecem atenção. Se anteriormente ele estimara a presença de cerca de 150 quilombolas, o total de mortos e capturados indica que a grande maioria conseguiu escapar. A chegada da noite e a forte chuva que caiu após o combate certamente favoreceram a dispersão dos fugitivos. Como registrou o próprio oficial, “toda a noite caiu água a cântaros”. A retirada, contudo, teve um custo elevado. Para ganhar velocidade e evitar a captura, os quilombolas precisaram abandonar boa parte dos mantimentos e equipamentos que carregavam desde o início da fuga.
Traziam mais de 20 arrobas de açúcar, muito juba farinha, toucinho, carnes, mais de vintes galinhas vivas, cinco porcos, dois carneiros (...) grande quantidade de utensílios de cozinha, machados, foices, enxadas, cavadeiras, ferramentas de carpinteiro, de ferreiro, uma bigorna, quarenta a cinquenta caixas com roupa fina e alguma engomada, grande quantidade de periódicos para cartuchame, folhas em que tinham trazido pólvora, cento e tantas esteiras, numerosa quantidade de mantas de dormir, talvez 60$000 rs. Em notas de cobre (...).
O inventário impressiona não apenas pela quantidade, mas pela variedade dos objetos transportados. Longe de indicar uma fuga improvisada, ele sugere planejamento, organização e expectativas de permanência. O próprio coronel emprega o termo “quilombo” para se referir ao grupo, e os indícios presentes na documentação reforçam essa caracterização. Somente as vinte arrobas de açúcar correspondiam a aproximadamente trezentos quilos. Somadas à farinha, às carnes, ao toucinho, às roupas, às ferramentas e aos demais pertences, representavam uma carga considerável para pessoas que avançavam por trilhas estreitas em meio à mata fechada da Serra do Mar. Não por acaso, após o confronto, “forçoso foi queimar tudo aquilo que os camaradas não puderam carregar”.
Os animais mencionados no relatório também exigiam uma logística complexa e ajudam a explicar a lentidão do deslocamento. Ferramentas como machados, foices e enxadas certamente podiam ser utilizadas para abrir caminhos, construir ranchos ou mesmo servir como armas em caso de necessidade. Contudo, parecem indicar sobretudo a intenção de estabelecer condições duradouras de subsistência. O mesmo raciocínio pode ser aplicado aos 60$000 réis encontrados pela tropa. Embora não representassem uma quantia elevada para um grupo tão numeroso, poderiam ser empregados na aquisição de alimentos, ferramentas ou outros recursos necessários à manutenção da comunidade. Tudo sugere que aquelas provisões eram resultado não apenas dos ataques e saques realizados durante a fuga, mas também de economias acumuladas pelos próprios escravizados ao longo de meses ou anos.
O relatório prossegue narrando os acontecimentos posteriores ao combate e acaba revelando informações igualmente significativas. “No dia seguinte mandamos uma escolta de 60 homens buscar os corpos dos nossos dois camaradas, e ao mesmo tempo que explorassem todas as imediações do quilombo a fim de descobrirem algum ferido.” Apesar do tom triunfal adotado pelo coronel, torna-se difícil ocultar que a operação esteve longe de atingir plenamente seus objetivos. Em outro trecho, ele reconhece que “faltam ao capitão Mor 250 a 300 escravos de um e outro sexo, entre eles, 16 carpinteiros, 5 ferreiros, 6 pedreiros, banqueiros de açúcar e ouros bons escravos”. A observação revela não apenas a continuidade das fugas, mas também a perda de trabalhadores especializados, fundamentais para o funcionamento das propriedades cafeeiras.
Diante desse cenário, a captura de Manoel Congo ganha destaque especial no relato. Ao resumir os resultados da expedição, Lacerda Werneck procura enfatizar aquilo que considera sua principal vitória: “prendemos o seu Rei e cabeça de motim Manoel Congo, e morreu de um tiro o vice-rei.” Assim, ainda que deva ser lido criticamente e confrontado com outras evidências, o documento constitui uma fonte fundamental para compreender não apenas a trajetória do quilombo liderado por Manoel Congo, mas também os mecanismos de repressão, os medos senhoriais e as formas de resistência que marcaram a sociedade escravista do Vale do Paraíba na década de 1830.
Como tem demonstrado a historiografia, os acontecimentos de 1838 não podem ser compreendidos apenas como um confronto entre escravizados fugitivos e forças repressivas (BORGES; SALLES. 2009). Havia também disputas políticas e econômicas envolvendo Francisco Xavier, de um lado, e os grupos ligados a Ribeiro de Avelar e Lacerda Werneck, de outro. Essas rivalidades ajudam a explicar tanto as condições que tornaram possível a fuga quanto as formas assumidas pela repressão e pela produção das narrativas oficiais. A correspondência analisada, portanto, não constitui um relato transparente dos acontecimentos, mas um documento atravessado por interesses, alianças e conflitos. A insistência em associar a revolta quase exclusivamente aos escravizados de Manoel Francisco Xavier, minimizando a participação de cativos pertencentes a outras propriedades, fazia parte dessa disputa e contribuía para direcionar as responsabilidades políticas pelo episódio (SOUSA, 2022).
A análise material do documento também oferece informações relevantes que foram omitidas pela historiografia. O ofício examinado neste artigo não é o original enviado por Lacerda Werneck, mas uma cópia, fato indicado no canto superior esquerdo da folha com a mesma caligrafia e tinta do restante do texto. Além disso, a cópia foi numerada, conforme indica a inscrição “N° 69” no primeiro parágrafo. Já a análise do arranjo arquivístico permite estabelecer quando e por que essa cópia foi produzida. O fundo IJ1 reúne documentação relacionada ao Gabinete do Ministro da Justiça, incluindo portarias, ofícios, relatórios, pedidos de nomeação e correspondências administrativas organizadas, em grande medida, segundo a cronologia dos acontecimentos. A cópia do ofício de Lacerda Werneck foi remetida ao Ministério da Justiça, no dia 20 de novembro, juntamente com outras duas correspondências para que fossem apresentadas ao Regente Pedro de Araújo Lima. Assim, as cópias foram feitas para informar o ministro e o regente sobre os eventos preocupantes no Vale do Paraíba fluminense.
A circulação dessas informações merece atenção. Ao contrário do que se poderia imaginar, a correspondência oficial não permaneceu restrita aos circuitos burocráticos do Estado. Em 19 de novembro de 1838, o Jornal do Commercio já publicava informações sobre a fuga dos escravizados das fazendas de Manoel Francisco Xavier. Embora não reproduzissem integralmente o conteúdo do ofício aqui analisado, as notícias apresentavam informações muito próximas das registradas na documentação oficial. Poucos dias depois, em 24 de novembro, o próprio relatório de Lacerda Werneck foi publicado na íntegra sob o título “Ataque do Quilombo do Paty — Parte Oficial”.
Essa circulação pública acrescenta uma dimensão importante à análise da fonte. Ainda que não seja possível afirmar que o coronel escrevesse pensando especificamente na publicação de seu relato, ele certamente sabia que suas palavras poderiam ultrapassar o círculo restrito das autoridades provinciais. Seu texto não deve ser lido, portanto, como uma descrição neutra dos acontecimentos, mas como uma narrativa construída para atribuir responsabilidades, justificar ações e exaltar a eficiência da repressão.
O ofício de 13 de novembro de 1838 permite acompanhar, quase passo a passo, a perseguição aos homens e mulheres que abandonaram as fazendas de Paty do Alferes em busca de uma vida livre. Escrito para informar as autoridades provinciais sobre o sucesso da operação, o documento exalta a ação da Guarda Nacional e descreve a derrota dos fugitivos. Lido a contrapelo, porém, ele revela muito mais. Nas entrelinhas aparecem os vestígios de uma fuga cuidadosamente planejada, a capacidade de organização dos quilombolas, a dureza da travessia pela Serra do Mar e a determinação daqueles que, mesmo cercados e em desvantagem, decidiram resistir.
Ao mesmo tempo, a trajetória desse documento ajuda a compreender como se constrói o próprio conhecimento histórico. Produzido em meio à tensão daqueles acontecimentos, copiado, encaminhado ao Ministério da Justiça, reproduzido nos jornais da Corte, utilizado por diferentes gerações de pesquisadores e preservado no Arquivo Nacional, o ofício acumulou novos significados ao longo do tempo. Sua história não termina em 1838. Pelo contrário, continua sempre que alguém o consulta e busca responder novas perguntas.
Quase dois séculos depois, já não é possível ouvir diretamente a voz daqueles homens e mulheres que atravessaram a mata carregando mantimentos, ferramentas e esperanças. Ainda assim, seus rastros permanecem. Eles aparecem nos caminhos descritos pela tropa, nos objetos abandonados durante a fuga, nas preocupações das autoridades e até nos silêncios da documentação. É justamente a partir desses fragmentos que podemos reconstruir não apenas a história do Quilombo de Manoel Congo, mas também a experiência de pessoas escravizadas que ousaram imaginar e construir alternativas ao cativeiro no coração do Vale do Paraíba.
FONTES
BR RJANRIO AI.IJ1.860
BR RJANRIO F4.0.MAP.618
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BORGES, Magno Fonseca; SALLES, Ricardo. Vassouras — 1830 – 1850: poder local e rebeldia escrava. In: CARVALHO, José Mutilo de; NEVES, Lúcia Maria Bastos Pereira das (organizadores). Repensando o Brasil do Oitocentos: cidadania, política e liberdade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009.
GOMES, Flávios dos Santos. Histórias de Quilombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro - século XIX. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.
PINAUD, João Luiz Duboc. Insurreição Negra e Justiça. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura – Exped Ltda; Ordem dos Advogados do Brasil – Seção RJ, 1987.
SOUZA, A. C. A insurreição escrava de 1838 fruto da instabilidade política/ econômica e senhorial. Mosaico - Revista Multidisciplinar de Humanidades, Vassouras, v. 13, n. 3, p. 65-79, set./dez. 2022.
SOUSA, José Antônio Soares de. “O Efêmero Quilombo do Pati do Alferes, em 1838”. In: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, v. 295, 1972.
VARGAS, Eliseo Júnio Leite de. Insurreição quilombola e ordem senhorial: quilombo em Vassouras, no Vale do Paraíba Fluminense, em 1838. Dissertação. Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro. - UFRRJ. 2012.
