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10ª Semana Nacional de Arquivos é aberta com debates sobre democracia, inteligência artificial e memória na América Latina
A 10ª Semana Nacional de Arquivos (SNA) foi aberta nesta segunda-feira (8/6), na sede do Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro. Com o tema "Arquivos, democracia e justiça social", a cerimônia reuniu especialistas brasileiros e internacionais para discutir o papel dos arquivos na garantia de direitos, na preservação da memória e no fortalecimento das instituições democráticas.
Na abertura, o diretor de Processamento Técnico, Preservação e Acesso ao Acervo do Arquivo Nacional (DPT), Thiago Vieira, agradeceu a presença dos participantes e destacou o trabalho desenvolvido pelos servidores da instituição. Segundo o diretor da DPT, a Semana Nacional de Arquivos busca aproximar a sociedade dos arquivos e fortalecer o reconhecimento dessas instituições como espaços vivos de encontro, produção de conhecimento e exercício da cidadania.
"A escolha deste tema reafirma o papel dos arquivos como instituições essenciais para a democracia. Os documentos arquivísticos registram as ações do Estado e da sociedade, garantem transparência, possibilitam a prestação de contas, fortalecem o controle social e contribuem para a garantia de direitos dos cidadãos", afirmou.
O diretor também destacou o processo de regionalização conduzido pelo Arquivo Nacional. Segundo ele, a iniciativa vai além da presença institucional do órgão nas cinco regiões brasileiras e busca ampliar o alcance das políticas arquivísticas em todo o país. Thiago Vieira apresentou, também, algumas das iniciativas que serão lançadas ao longo da programação da Semana, entre elas o novo Sistema de Informações do Arquivo Nacional (SIAN), o Edital Brasil Arquivos e outras ações voltadas ao fortalecimento do campo arquivístico.
A mesa de abertura contou ainda com a participação de Emma de Ramón Acevedo, ex-diretora do Arquivo Nacional do Chile e membro honorário da Associação Latino-Americana de Arquivos (ALA), que abordou os desafios da arquivologia na América Latina e destacou a importância dos arquivos comunitários para o fortalecimento da democracia. Já Renato Augusto Pereira, diretor do Arquivo Histórico de Moçambique e professor da Universidade Eduardo Mondlane, falou sobre a importância da cooperação internacional, da digitalização de acervos e da formação contínua de profissionais da área.
Encerrando a cerimônia, a diretora-geral do Arquivo Nacional, Monica Lima, destacou a proximidade do Dia Nacional dos Arquivos, celebrado em 9 de junho, e reforçou o compromisso da área com a diversidade e a justiça social.
Segundo ela, os arquivos têm papel fundamental na preservação das histórias de grupos historicamente invisibilizados e na construção de uma sociedade mais justa. Monica destacou ainda que o campo arquivístico vem incorporando cada vez mais a diversidade em suas reflexões e práticas.
"Que a Semana Nacional de Arquivos seja um momento de fortalecermos nossas lutas para que os arquivos se tornem espaços de reconhecimento, reparação e defesa da cidadania plena", afirmou.
Inteligência artificial, arquivos e garantias de direitos
Após a cerimônia de abertura, teve início a mesa "IA, arquivos e garantias de direitos", mediada por Maximiliano Faria, coordenador-geral de Tecnologia da Informação e Comunicação do Arquivo Nacional.
Ao abrir os debates, Faria destacou que a inteligência artificial já faz parte da realidade da arquivologia e vem sendo utilizada como ferramenta em diversas atividades relacionadas à gestão documental. Ao mesmo tempo, ressaltou os desafios que acompanham essa transformação tecnológica.
"Quem garante a integridade dos documentos? Como conciliar eficiência e ética?", questionou o mediador ao abordar os impactos da IA sobre os arquivos e a preservação da informação.
A primeira apresentação foi realizada por Alicia Duhá Lose, chefe do Serviço de Paleografia e Diplomática do Arquivo Nacional. Ela destacou que o Arquivo Nacional desempenha papel fundamental na autenticação da memória documental do Estado e na prestação de serviços à sociedade, uma função que ultrapassa a preservação histórica e alcança diretamente os campos do direito, da cidadania e da governança pública.
Durante sua apresentação, Alicia abordou o uso da inteligência artificial como ferramenta capaz de apoiar e acelerar os processos de emissão de certidões, contribuindo para ampliar o acesso dos cidadãos a documentos que garantem direitos.
Em seguida, Camila Falchetto, assessora da Secretaria de Governo Digital do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI), destacou os avanços na normatização do uso da IA no âmbito do Sistema de Administração dos Recursos de Tecnologia da Informação (SISP) e os esforços para consolidar políticas de governança que orientem o uso responsável dessas tecnologias pelos órgãos públicos, incluindo os arquivos.
"A inteligência artificial tem um potencial para ampliar enormemente essa capacidade de organizar, acessar e utilizar informações, mas esse potencial também vem acompanhado de desafios técnicos, éticos e institucionais que precisamos enfrentar", afirmou.
Memória, direitos humanos e patrimônio documental
A programação da tarde contou com a mesa "Arquivos, memória e territórios em conflito na América Latina", mediada por Marcelo Nogueira Siqueira, coordenador-geral de Articulação de Projetos e Internacionalização do Arquivo Nacional.
Ao abrir os debates, o coordenador destacou o papel dos arquivos na construção da cidadania e na valorização da diversidade. "No arquivo existe uma potencialidade muito grande de identidade, de cidadania, de memória e de políticas para que essa pluralidade esteja sempre presente", afirmou.
A mesa reuniu Natalia Mendoza, da Universidade de Guadalajara, que participou remotamente; Irina Feisthauer Silveira, assessora da Divisão de Assuntos Multilaterais Culturais do Ministério das Relações Exteriores; Maurício Vicente Ferreira Junior, diretor do Museu Imperial (Ibram); e Maria Elizabeth Brea Monteiro, coordenadora de Pesquisa e Difusão do Acervo do Arquivo Nacional.
Durante o debate, foram discutidos temas relacionados à preservação da memória, aos direitos humanos e à importância dos arquivos e do patrimônio documental para processos de justiça, reparação e reconstrução de identidades. Também foram abordadas iniciativas ligadas ao Programa Memória do Mundo, da UNESCO, e seu papel na valorização dos acervos documentais.
Encerrando a mesa, Maria Elizabeth Brea Monteiro apresentou o novo portal do Programa Memória do Mundo no Brasil. Segundo ela, a iniciativa amplia o acesso a informações sobre o programa e fortalece a difusão do patrimônio documental reconhecido no país.
"Esse site tem uma massa de informações sobre o MOW, em especial sobre o MOW Brasil, que a gente não podia correr o risco de perder nem de deixar inacessível para quem tiver interesse", afirmou.
A programação da 10ª Semana Nacional de Arquivos segue até o dia 12 de junho, com palestras, mesas de debate, visitas guiadas e outras atividades voltadas à reflexão sobre o papel dos arquivos na democracia, na preservação da memória e na promoção da justiça social.