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REC UNIR - PEducom
Rádio e escuta se tornam ferramentas de educação e resistência na Amazônia
Divulgação / Porvir
Foi quando se mudou para Rondônia, em 2009, em contato com a floresta e suas vozes, que a jornalista e educadora Evelyn Morales, fez algumas descobertas. Uma delas foi perceber que o trabalho que fazia nas escolas era educomunicação. A outra, foi com as comunidades, nos territórios, quando entendeu o valor da escuta e da oralidade.
A partir dessas referências a professora fundou o Programa de Extensão e Extensão Rádio Educação Cidadania (REC), da Universidade Federal de Rondônia (UNIR), institucionalizado em 2022, mas com raízes em projetos que já existiam desde 2010. “Eu trabalho com Educomunicação há mais de 20 anos, mas só fui descobrir que isso tinha nome em 2005”, brinca Evelyn, coordenadora do projeto, sobre a sua trajetória, que começou no Mato Grosso do Sul, com produções radiofônicas em escolas públicas sobre ciência no Pantanal.
“Fazíamos essas produções com crianças e adolescentes como um pretexto para que eles estivessem juntos, colaborando, criando vínculos. Era mais sobre o processo do que sobre o produto”, diz sobre seus primeiros contatos com educomunicação. A virada para ela foi em Rondônia, quando passou a integrar o programa federal Mídia na Educação.
A partir das formações com professores da rede estadual, Evelyn percebeu um desejo latente de trabalhar com mídias nas escolas, mas não da forma tradicional, nem de olho na rede social. “Não queríamos ensinar a fazer vídeo para bombar no TikTok. Nosso foco é outro: escuta ativa, produção sonora, diálogo”, reflete.
Atualmente, o REC reúne iniciativas como Educomunicação nas Escolas, Educomunicação Sonora para a Cidadania e a Jornada Regional de Educomunicação, que leva formações a comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e extrativistas.
A metodologia é inspirada em educadores como Paulo Freire e o argentino Mario Kaplún, que também era radialista, com foco na escuta, na oralidade e na produção coletiva. Uma dessas propostas é o Estúdio Floresta, onde os próprios moradores entrevistam uns aos outros, gravam podcasts e contam suas histórias. “A entrevista nunca é feita por nós. É feita pela comunidade, para a comunidade”, explica Evelyn.
Entre conquistas e desafios
A experiência tem tido impacto nas comunidades. Em 2023, uma formação com 13 etnias indígenas resultou em 25 podcasts temáticos, com capas ilustradas pelos próprios participantes. Em outra iniciativa, em Porto Velho, o REC trabalhou por quase um ano com mulheres catadoras do antigo lixão Vila Princesa, desativado no final daquele ano. “Elas queriam falar, contar o que estavam vivendo. Ficamos lá, escutamos, ensinamos como gravar, como montar o roteiro. E elas fizeram o documentário Guerreiras da Vila Princesa”.
Mesmo com bons resultados, o projeto convive com a falta de recursos da universidade pública. “É um trabalho de parceria, paciência e persistência”, desabafa Evelyn, que leva adiante o projeto com apoio de doações dos próprios movimentos sociais. “Seria mais fácil não fazer, mas acreditamos que essa é a nossa função social”, diz a professora. O PEducom conta hoje com seis bolsistas de ação afirmativa, que recebem R$ 700 mensais e atuam como facilitadores dos projetos. Ao todo, são 32 pessoas envolvidas, entre estudantes de pedagogia, psicologia, história e jornalismo, que atuam na capital e no interior do estado.
Evelyn também tem se sentido questionada em congressos fora da região Nordeste, onde, segundo ela, desconfiam da eficiência do rádio como ferramenta educativa e como uma experiência ultrapassada. “Tem gente que pergunta por que ainda usamos rádio. Mas nossa realidade é outra. Temos comunidades sem energia elétrica, sem internet. O rádio funciona com pilha. É o que temos. E funciona”, diz a professora, que frente às dificuldades tem usado até “rádio poste” em áreas de maior vulnerabilidade socioeconômica.
Para a professora, que é doutora em educação, a potência dessas metodologias está justamente na simplicidade e na organicidade das ações, que não impõem formatos, mas constroem junto com as comunidades. “Levamos cartolinas, tintas e canetões. As pessoas desenham, falam, choram. É quase terapêutico. E tudo isso vira conteúdo: cartilhas, podcasts, documentários”, diz.
Além da produção de conteúdo, o REC também tem atuado nos espaços de consciência cidadã. “Queremos que os jovens entendam que têm voz, que podem ocupar espaços de decisão", diz a professora que percebe um engajamento inspirador, especialmente entre jovens indígenas. “Eles estão sempre nas formações, entendem seu papel como sujeitos políticos. Agora queremos levar essa consciência também para os jovens quilombolas, ribeirinhos e extrativistas”. O objetivo dessa nova dimensão do projeto é mostrar para esses jovens que não precisam depender da universidade ou de organizações externas para se mobilizarem.
Essa autonomia começou a se concretizar em comunidades como Mirante da Serra, onde moradores do assentamento Palmares passaram a produzir um programa em uma rádio comunitária local, após formação com o REC. Essa experiência mostra como o projeto é replicável, por ser simples e de baixo custo, e a iniciativa apoia compartilhando os materiais, os links dos podcasts, e os PDFs das cartilhas. “Queremos que isso se espalhe”, diz a professora que vê a educomunicação dentro de uma visão freiriana, como um meio para “anunciar e denunciar, para escutar e ser escutado, para transformar”.
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