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MUNDO MÍDIA
Professores se tornam "influencers" para formar estudantes críticos
Divulgação / Porvir
Quando a pandemia isolou alunos e professores em casa, a equipe da Secretaria de Educação do Recife pensou em como transformar seus conteúdos educacionais sem colocar ninguém em risco. Foi nesse contexto que nasceu o programa EducaRecife e, com ele, anos depois, a série Mundo Mídia, voltada à formação de estudantes e professores em educação midiática, usando as próprias plataformas digitais.
A série, composta por episódios curtos e interativos, aborda temas como letramento midiático, checagem de fatos, ética online, segurança digital e combate à desinformação. O objetivo do projeto é capacitar jovens e educadores para se tornarem cidadãos críticos, conscientes e ativos nas redes e plataformas digitais. "A gente entendeu que não bastava mais produzir apenas aulas. Era preciso criar conteúdos educacionais que dialogassem com a realidade digital dos estudantes", explica Thaís Chaves, Gestora de Conteúdos Educacionais Digitais da Prefeitura de Recife.
Com a contenção da crise sanitária e a volta ao presencial, a audiência dos vídeos começou a cair e a equipe percebeu que era necessário reinventar o formato e apostar em uma nova linguagem para as aulas digitais que tinham sido criadas durante a pandemia. Os vídeos passaram a ter entre 5 e 10 minutos, com roteiros bem definidos e produção audiovisual profissional. "Investimos em formação para os professores, em roteiristas, editores e motion designers. Sabíamos que o tempo de atenção na internet é curto e que precisávamos ser mais assertivos", conta Thaís, sobre o salto tecnológico e conceitual do projeto.
A série Mundo Mídia nasceu dentro da iniciativa Novos Saberes, também do EducaRecife, que busca explorar temáticas interdisciplinares e contemporâneas como robótica, programação, educação ambiental e, claro, educação midiática. "Todos os episódios trabalham simultaneamente competências da educação midiática e de componentes curriculares, como língua portuguesa e matemática. Queremos mostrar aos professores que é possível abordar esses temas mesmo sem serem especialistas", reforça Thaís. Um exemplo é o episódio que aborda a diferença entre notícia, reportagem e entrevista, ao mesmo tempo em que trabalha gêneros textuais.
Thaís, que além de gestora é jornalista de formação, conta que a construção da série Mundo Mídia foi cuidadosamente pensada para atender às necessidades reais da rede pública de ensino. "Começamos a produzir vídeos mais curtos, com roteiros bem estruturados e uma linguagem mais próxima da realidade dos estudantes", explica, ao falar sobre um processo que incluiu a formação de professores como educomunicadores. A mudança de formato não era apenas estética, ela refletia uma nova concepção de ensino, mais conectada com os hábitos de consumo de conteúdo dos jovens.
Para garantir a qualidade dos conteúdos, o processo de produção envolve várias etapas: definição das temáticas, elaboração dos roteiros pelos professores, revisão pedagógica e editorial, gravação, edição e, por fim, publicação e engajamento. Os vídeos são disponibilizados no YouTube e também no aplicativo do EducaRecife, que vem instalado nos tablets distribuídos aos estudantes da rede municipal, permitindo o acesso sem consumo de dados móveis.
Um salto na formação de professores
O impacto do projeto não se limita aos estudantes. Os professores envolvidos passaram por um processo intenso de formação e transformação profissional. A professora Karla Soatman, que atua na rede estadual e participou da série, foi uma das pessoas que teve as suas práticas pedagógicas impactadas pelo projeto. "Foi meu primeiro contato com esse mundo tão tecnológico. Sempre usei tecnologia em sala de aula, mas nunca me vi como apresentadora ou youtuber", conta Karla, que se sentiu desafiada pela proposta.
"Hoje, quando falo de análise linguística, gêneros textuais ou interpretação de texto, trago as redes sociais, o YouTube, a linguagem digital. Não consigo mais dar aula sem esse olhar", afirma Karla que também passou a ser mais conhecida entre os alunos. "Eles me reconhecem como ‘a professora da televisão’. Isso traz uma autoridade diferente, que uso para aproximá-los ainda mais da educação".
Ela também destaca a importância de compartilhar essa experiência com outros colegas. "Alguns professores acham que queremos nos destacar, mas na verdade queremos ajudar. Muitos me procuram pedindo sugestões, e eu compartilho os vídeos do EducaRecife, não só os meus, mas de outros professores incríveis. É um projeto que transforma", conta.
Novos públicos além de Recife
Por conta da qualidade dos vídeos produzidos e pela disponibilidade online, a série passou a alcançar públicos além da capital pernambucana. “Quando olhamos para as estatísticas do canal, vemos que há visualizações vindas de cidades como Olinda, Jaboatão dos Guararapes e Caruaru. Isso mostra que o conteúdo tem potencial para ser utilizado por professores de todo o país”, comemora Thaís Chaves.
A equipe do EducaRecife já está se movimentando para aproveitar esse interesse e ampliar esse alcance. Uma das iniciativas é a construção de parcerias com o Ministério da Educação (MEC), para incluir os conteúdos da série no MEC RED, uma plataforma nacional de recursos educacionais digitais. Além disso, a prefeitura está em conversas com a Fundação Roberto Marinho para que os vídeos sejam disponibilizados na Globoplay, por meio do canal Futura, que já abriga produções de universidades e instituições educacionais.
Para ajudar educadores de outras redes a usarem esses conteúdos, o EducaRecife está desenvolvendo planos de aula e atividades complementares para cada episódio. “Percebemos que os professores precisam de recursos prontos, bem estruturados. Então, além do vídeo e da formação, vamos oferecer planos de aula com sugestões práticas de aplicação e atividades digitais que podem ser feitas na nossa plataforma UniRec”, explica Thaís.
A partir desses materiais os professores poderão usar os episódios como parte da aula ou como lição de casa, com atividades que podem ser realizadas online. A ideia também é que a equipe do EducaRecife possa acompanhar o engajamento dos estudantes e ter um retorno sobre o aprendizado.
Para que o projeto dê certo, a estrutura por trás dele precisa ser robusta. A equipe do EducaRecife conta com cerca de 17 profissionais na área de comunicação e produção, incluindo cinegrafistas, editores, produtores, coordenadores e especialistas em engajamento digital. Além disso, há uma equipe de professores e intérpretes de Libras, para garantir acessibilidade e diversidade nos conteúdos.
Mas, como destaca Thaís, o modelo pode ser adaptado para outras realidades. “Apesar de termos uma equipe grande, o projeto pode ser replicado com menos recursos. O importante é ter uma metodologia clara e uma proposta pedagógica bem definida”. A experiência do EducaRecife mostra como momentos difíceis podem ser desafiadores, mas também reforça a importância de olhar e rever estratégias, especialmente quando a tecnologia avança tão rápido.
Links
- Portal EducaRecife
- Playlist da série MundoMídia
- Playlist da série EducaRecife em Sala (MundoMídia) — material de formação para professores sobre como utilizar a série MundoMídia
- Instagram do EducaRecife
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